terça-feira, 25 de outubro de 2011
Dia Estadual em Memória dos Mortos e Desaparecidos Políticos
Governo sanciona projeto de Giannazi que preserva a memória dos mortos e desaparecidos políticos
Com a publicação, no Diário Oficial de 21 de outubro de 2011, da Lei 14.594, fica instituído no território paulista o “Dia Estadual em Memória dos Mortos e Desaparecidos Políticos”, fruto do projeto de lei 438/10 do professor e deputado Carlos Giannazi, membro titular da Comissão de Educação e Cultura da ALESP.
A ser celebrada anualmente em 4 de setembro (dia em que, no ano de 1990, foi aberta a vala clandestina localizada no Cemitério Dom Bosco, no bairro de Perus, na capital), a legislação é um importante marco na busca e aprofundamento da história de vida das pessoas que lutaram, durante a ditadura militar, pela liberdade de ação e de expressão. “É papel dos que prezam a democracia, conquistada com o sangue de muitos, conhecerem a história desses que morreram ou desapareceram por suas convicções políticas, expressas numa época de chumbo da qual nunca poderemos nos esquecer, mas conhecer cada vez mais para evitar que reapareça” argumentou Giannazi.
A ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE SÃO PAULO DECRETA:
Artigo 1º - Fica instituído o Dia Estadual de Memória dos Mortos e Desaparecidos Políticos, a ser celebrado anualmente no dia 04 de setembro.
Parágrafo único - Esta data se refere ao dia 04 de setembro de 1990, dia em que foi aberta a vala de Perus, cemitério clandestino localizada no Cemitério Dom Bosco, no Bairro de Perus, em São Paulo.
Artigo 2º - Esta lei entra em vigor na data de sua publicação.
JUSTIFICATIVA
Um desaparecimento forçado consiste em um sequestro conduzido por agentes do Estado, ou por grupos organizados que agem com o apoio ou a tolerância do Estado, em que a vítima “desaparece”. Desaparecimentos forçados foram usados primeiramente como forma covarde e violenta de repressão política na América Latina durante os anos 1960.
Estima-se que mais de 90.000 pessoas tenham desaparecido nessa região. No Brasil, durante o período da ditadura militar, o número chega a quase 400 pessoas, dentre as mortas e as desaparecidas. A violência, que ainda hoje assusta o País, menos óbvia, mais ainda presente, tem raízes em nosso passado escravista e paga tributo às duas ditaduras do século 20. Jogar luz no período de sombras e abrir todas as informações sobre violações de Direitos Humanos ocorridas no último ciclo ditatorial são imperativos urgentes de uma nação que se pretende verdadeiramente democrática.
O Centro de Documentação Eremias Delizoicov e a Comissão de Familiares dos Mortos e Desaparecidos Políticos organizaram e desenvolveram o site
www.desaparecidospoliticos.org.br
O objetivo é divulgar as investigações sobre as mortes, a localização dos restos mortais das vítimas da ditadura e identificar os responsáveis pelos crimes de tortura, homicídio e ocultação dos cadáveres de dezenas de pessoas durante o período da ditadura militar no Brasil (1964/85).
O site tem em sua base de dados os nomes de 383 mortos e desaparecidos (lista abaixo foi pesquisada no site do Centro de Documentação Eremias Delizoicov).
Abelardo Rausch Alcântara
Abílio Clemente Filho
Aderval Alves Coqueiro
Adriano Fonseca Filho
Afonso Henrique Martins Saldanha
Albertino José de Oliveira
Alberto Aleixo
Alceri Maria Gomes da Silva
Aldo de Sá Brito Souza Neto
Alex de Paula Xavier Pereira
Alexander José Ibsen Voeroes
Alexandre Vannucchi Leme
Alfeu de Alcântara Monteiro
Almir Custódio de Lima
Aluísio Palhano Pedreira Ferreira
Amaro Luíz de Carvalho
Ana Maria Nacinovic Corrêa
Ana Rosa Kucinski Silva
Anatália de Souza Melo Alves
André Grabois
Ângelo Arroyo
Ângelo Cardoso da Silva
Ângelo Pezzuti da Silva
Antogildo Pacoal Vianna
Antônio Alfredo de Lima
Antônio Benetazzo
Antônio Carlos Bicalho Lana
Antônio Carlos Monteiro Teixeira
Antônio Carlos Nogueira Cabral
Antônio Carlos Silveira Alves
Antônio de Pádua Costa
Antônio dos Três Reis Oliveira
Antônio Ferreira Pinto (Alfaiate)
Antônio Guilherme Ribeiro Ribas
Antônio Henrique Pereira Neto (Padre Henrique)
Antônio Joaquim Machado
Antonio Marcos Pinto de Oliveira
Antônio Raymundo Lucena
Antônio Sérgio de Mattos
Antônio Teodoro de Castro
Ari da Rocha Miranda
Ari de Oliveira Mendes Cunha
Arildo Valadão
Armando Teixeira Frutuoso
Arnaldo Cardoso Rocha
Arno Preis
Ary Abreu Lima da Rosa
Augusto Soares da Cunha
Áurea Eliza Pereira Valadão
Aurora Maria Nascimento Furtado
Avelmar Moreira de Barros
Aylton Adalberto Mortati
Benedito Gonçalves
Benedito Pereira Serra
Bergson Gurjão Farias
Bernardino Saraiva
Boanerges de Souza Massa
Caiuby Alves de Castro
Carlos Alberto Soares de Freitas
Carlos Eduardo Pires Fleury
Carlos Lamarca
Carlos Marighella
Carlos Nicolau Danielli
Carlos Roberto Zanirato
Carlos Schirmer
Carmem Jacomini
Cassimiro Luiz de Freitas
Catarina Abi-Eçab
Célio Augusto Guedes
Celso Gilberto de Oliveira
Chael Charles Schreier
Cilon da Cunha Brun
Ciro Flávio Salasar Oliveira
Cloves Dias Amorim
Custódio Saraiva Neto
Daniel José de Carvalho
Daniel Ribeiro Callado
David Capistrano da Costa
David de Souza Meira
Dênis Casemiro
Dermeval da Silva Pereira
Devanir José de Carvalho
Dilermano Melo Nascimento
Dimas Antônio Casemiro
Dinaelza Soares Santana Coqueiro
Dinalva Oliveira Teixeira
Divino Ferreira de Souza
Divo Fernandes de Oliveira
Djalma Carvalho Maranhão
Dorival Ferreira
Durvalino de Souza
Edgard Aquino Duarte
Edmur Péricles Camargo
Edson Luis de Lima Souto
Edson Neves Quaresma
Edu Barreto Leite
Eduardo Antônio da Fonseca
Eduardo Collen Leite (Bacuri)
Eduardo Collier Filho
Eiraldo Palha Freire
Elmo Corrêa
Elson Costa
Elvaristo Alves da Silva
Emanuel Bezerra dos Santos
Enrique Ernesto Ruggia
Epaminondas Gomes de Oliveira
Eremias Delizoicov
Eudaldo Gomes da Silva
Evaldo Luiz Ferreira de Souza
Ezequias Bezerra da Rocha
Félix Escobar Sobrinho
Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira
Fernando Augusto Valente da Fonseca
Fernando Borges de Paula Ferreira
Fernando da Silva Lembo
Flávio Carvalho Molina
Francisco das Chagas Pereira
Francisco Emanoel Penteado
Francisco José de Oliveira
Francisco Manoel Chaves
Francisco Seiko Okama
Francisco Tenório Júnior
Frederico Eduardo Mayr
Gastone Lúcia Carvalho Beltrão
Gelson Reicher
Geraldo Magela Torres Fernandes da Costa
Gerosina Silva Pereira
Gerson Theodoro de Oliveira
Getúlio de Oliveira Cabral
Gilberto Olímpio Maria
Gildo Macedo Lacerda
Grenaldo de Jesus da Silva
Guido Leão
Guilherme Gomes Lund
Hamilton Fernando da Cunha
Helber José Gomes Goulart
Hélcio Pereira Fortes
Helenira Rezende de Souza Nazareth
Heleny Telles Ferreira Guariba
Hélio Luiz Navarro de Magalhães
Henrique Cintra Ferreira de Ornellas
Higino João Pio
Hiran de Lima Pereira
Hiroaki Torigoe
Honestino Monteiro Guimarães
Iara Iavelberg
Idalísio Soares Aranha Filho
Ieda Santos Delgado
Íris Amaral
Ishiro Nagami
Ísis Dias de Oliveira
Ismael Silva de Jesus
Israel Tavares Roque
Issami Nakamura Okano
Itair José Veloso
Iuri Xavier Pereira
Ivan Mota Dias
Ivan Rocha Aguiar
Jaime Petit da Silva
James Allen da Luz
Jana Moroni Barroso
Jane Vanini
Jarbas Pereira Marques
Jayme Amorim Miranda
Jeová Assis Gomes
João Alfredo Dias
João Antônio Abi-Eçab
João Barcellos Martins
João Batista Franco Drummond
João Batista Rita
João Bosco Penido Burnier (Padre)
João Carlos Cavalcanti Reis
João Carlos Haas Sobrinho
João Domingues da Silva
João Gualberto Calatroni
João Leonardo da Silva Rocha
João Lucas Alves
João Massena Melo
João Mendes Araújo
João Roberto Borges de Souza
Joaquim Alencar de Seixas
Joaquim Câmara Ferreira
Joaquim Pires Cerveira
Joaquinzão
Joel José de Carvalho
Joel Vasconcelos Santos
Joelson Crispim
Jonas José Albuquerque Barros
Jorge Alberto Basso
Jorge Aprígio de Paula
Jorge Leal Gonçalves Pereira
Jorge Oscar Adur (Padre)
José Bartolomeu Rodrigues de Souza
José Campos Barreto
José Carlos Novaes da Mata Machado
José de Oliveira
José de Souza
José Ferreira de Almeida
José Gomes Teixeira
José Guimarães
José Huberto Bronca
José Idésio Brianezi
José Inocêncio Pereira
José Júlio de Araújo
José Lavechia
José Lima Piauhy Dourado
José Manoel da Silva
José Maria Ferreira Araújo
José Maurílio Patrício
José Maximino de Andrade Netto
José Mendes de Sá Roriz
José Milton Barbosa
José Montenegro de Lima
José Porfírio de Souza
José Raimundo da Costa
José Roberto Arantes de Almeida
José Roberto Spiegner
José Roman
José Sabino
José Silton Pinheiro
José Soares dos Santos
José Toledo de Oliveira
José Wilson Lessa Sabag
Juarez Guimarães de Brito
Juarez Rodrigues Coelho
Kleber Lemos da Silva
Labib Elias Abduch
Lauriberto José Reyes
Líbero Giancarlo Castiglia
Lígia Maria Salgado Nóbrega
Lincoln Bicalho Roque
Lincoln Cordeiro Oest
Lourdes Maria Wanderley Pontes
Lourenço Camelo de Mesquita
Lourival de Moura Paulino
Lúcia Maria de Souza
Lucimar Brandão
Lúcio Petit da Silva
Luís Alberto Andrade de Sá e Benevides
Luís Almeida Araújo
Luís Antônio Santa Bárbara
Luís Inácio Maranhão Filho
Luis Paulo da Cruz Nunes
Luiz Affonso Miranda da Costa Rodrigues
Luiz Carlos Almeida
Luiz Eduardo da Rocha Merlino
Luiz Eurico Tejera Lisbôa
Luiz Fogaça Balboni
Luiz Gonzaga dos Santos
Luíz Guilhardini
Luiz Hirata
Luiz José da Cunha
Luiz Renato do Lago Faria
Luiz Renato Pires de Almeida
Luiz Renê Silveira e Silva
Luiz Vieira
Luíza Augusta Garlippe
Lyda Monteiro da Silva
Manoel Aleixo da Silva
Manoel Fiel Filho
Manoel José Mendes Nunes de Abreu
Manoel Lisboa de Moura
Manoel Raimundo Soares
Manoel Rodrigues Ferreira
Manuel Alves de Oliveira
Manuel José Nurchis
Márcio Beck Machado
Marco Antônio Brás de Carvalho
Marco Antônio da Silva Lima
Marco Antônio Dias Batista
Marcos José de Lima
Marcos Nonato Fonseca
Margarida Maria Alves
Maria Ângela Ribeiro
Maria Augusta Thomaz
Maria Auxiliadora Lara Barcelos
Maria Célia Corrêa
Maria Lúcia Petit da Silva
Maria Regina Lobo Leite de Figueiredo
Maria Regina Marcondes Pinto
Mariano Joaquim da Silva
Marilena Villas Boas
Mário Alves de Souza Vieira
Mário de Souza Prata
Maurício Grabois
Maurício Guilherme da Silveira
Merival Araújo
Miguel Pereira dos Santos
Milton Soares de Castro
Míriam Lopes Verbena
Neide Alves dos Santos
Nelson de Souza Kohl
Nelson José de Almeida
Nelson Lima Piauhy Dourado
Nestor Veras
Newton Eduardo de Oliveira
Nilda Carvalho Cunha
Nilton Rosa da Silva (Bonito)
Norberto Armando Habeger
Norberto Nehring
Odijas Carvalho de Souza
Olavo Hansen
Onofre Pinto
Orlando da Silva Rosa Bonfim Júnior
Orlando Momente
Ornalino Cândido da Silva
Orocílio Martins Gonçalves
Osvaldo Orlando da Costa
Otávio Soares da Cunha
Otoniel Campo Barreto
Pauline Reichstul
Paulo César Botelho Massa
Paulo Costa Ribeiro Bastos
Paulo de Tarso Celestino da Silva
Paulo Mendes Rodrigues
Paulo Roberto Pereira Marques
Paulo Stuart Wright
Pedro Alexandrino de Oliveira Filho
Pedro Carretel
Pedro Domiense de Oliveira
Pedro Inácio de Araújo
Pedro Jerônimo de Souza
Pedro Ventura Felipe de Araújo Pomar
Péricles Gusmão Régis
Raimundo Eduardo da Silva
Raimundo Ferreira Lima
Raimundo Gonçalves Figueiredo
Raimundo Nonato Paz
Ramires Maranhão do Vale
Ranúsia Alves Rodrigues
Raul Amaro Nin Ferreira
Reinaldo Silveira Pimenta
Roberto Cieto
Roberto Macarini
Roberto Rascardo Rodrigues
Rodolfo de Carvalho Troiano
Ronaldo Mouth Queiroz
Rosalindo Souza
Rubens Beirodt Paiva
Rui Osvaldo Aguiar Pftzenreuter
Ruy Carlos Vieira Berbert
Ruy Frazão Soares
Santo Dias da Silva
Sebastião Gomes da Silva
Sérgio Correia
Sérgio Landulfo Furtado
Severino Elias de Melo
Severino Viana Colon
Sidney Fix Marques dos Santos
Silvano Soares dos Santos
Soledad Barret Viedma
Sônia Maria Lopes de Moraes Angel Jones
Stuart Edgar Angel Jones
Suely Yumiko Kanayama
Telma Regina Cordeiro Corrêa
Therezinha Viana de Assis
Thomaz Antônio da Silva Meirelles Neto
Tito de Alencar Lima (Frei Tito)
Tobias Pereira Júnior
Túlio Roberto Cardoso Quintiliano
Uirassu de Assis Batista
Umberto Albuquerque Câmara Neto
Valdir Sales Saboya
Vandick Reidner Pereira Coqueiro
Victor Carlos Ramos
Virgílio Gomes da Silva
Vítor Luíz Papandreu
Vitorino Alves Moitinho
Vladimir Herzog
Walkíria Afonso Costa
Walter de Souza Ribeiro
Walter Kenneth Nelson Fleury
Walter Ribeiro Novaes
Wânio José de Mattos
Wilson Silva
Wilson Souza Pinheiro
Wilton Ferreira
Yoshitane Fujimorigfch
Zuleika Angel Jones
Este Projeto de Lei tem como objetivo contribuir para que o Estado de São Paulo avance na consolidação do respeito aos Direitos Humanos, sem medo de conhecer a sua história recente. É um direito à memória e à verdade como ação indispensável para sabermos que tivemos um período de violência nos sentidos político, ético, filosófico e histórico, que não devemos esquecer e que não queremos de volta.
O apoio dos nobres deputados é importante e decisivo para a tramitação e aprovação desse projeto.
Filme 'Marighella' celebra a figura do revolucionário
Há um lado afetivo em "Marighella", documentário de Isa Grispum Ferraz sobre o guerrilheiro, morto pela polícia política em plena ditadura. Carlos Marighella (1911-1969), quadro histórico do Partido Comunista e dirigente da ALN (Ação Libertadora Nacional), era tio de Isa.
Assim, à reconstrução histórica da figura do militante mesclam-se recordações afetivas da diretora, que fala de um tio carinhoso, porém cercado de mistérios, que aparecia de vez em quando e, em seguida, sumia do mapa. Fala de como a notícia da morte do tio veio pela TV quando a família assistia a um Corinthians x Santos muito especial, pois naquela noite caía a série de vitórias de 11 anos seguidos do time da Vila Belmiro sobre seu rival.
É preciso dizer que essa página familiar é muito tênue e que o cerne do filme é a reconstrução histórica de uma trajetória. Esse percurso é refeito de maneira ampla, tendo como consultor o jornalista Mário Magalhães, que prepara a sua biografia. Isa utiliza entrevistas com militantes que combateram ao lado do guerrilheiro, o depoimento de Clara Charf, sua viúva, de seu filho Carlos Augusto Marighella e de figuras notáveis na resistência à ditadura, como o professor Antonio Candido, que tem Marighella na conta de um herói do povo brasileiro. Há, além disso, narrativa em off de poemas e escritos de Marighella, interpretados pelo ator Lázaro Ramos, e um arrepiante rap de Mano Brown, celebrando a biografia do personagem e destacando sua luta em favor dos pobres.
"Marighella" não é um documento jornalístico sobre a controvertida figura de um guerrilheiro. Não ouve o outro lado, ou os outros lados, como em termos ideais deveria fazer uma reportagem de jornal, uma pesquisa acadêmica ou mesmo uma biografia isenta. Não é imparcial. É uma homenagem e filme de um lado: o de uma pessoa da família, e também o de uma parcela da sociedade brasileira, aquela que simpatizou com a luta contra a ditadura militar. Mesmo aí encontram-se divisões. É possível que quem tenha fé na resistência pacífica não nutra simpatia por quem pegou em armas para se opor.
Controvérsias à parte, Marighella foi figura exemplar na luta contra a ditadura e morreu defendendo suas ideias, sem medo e sem recuar um passo. O homem que cai nessas circunstâncias não morre; vira mito. Fica encantado, como dizia Guimarães Rosa, em outro contexto
Para quem não leu a crítica do filme Marighella de Isa Ferraz , sobrinha de Clara Charf, que estreou nos festivais de cine do Rio e SP / publicação do jornal Estado de Sao Paulo
Assim, à reconstrução histórica da figura do militante mesclam-se recordações afetivas da diretora, que fala de um tio carinhoso, porém cercado de mistérios, que aparecia de vez em quando e, em seguida, sumia do mapa. Fala de como a notícia da morte do tio veio pela TV quando a família assistia a um Corinthians x Santos muito especial, pois naquela noite caía a série de vitórias de 11 anos seguidos do time da Vila Belmiro sobre seu rival.
É preciso dizer que essa página familiar é muito tênue e que o cerne do filme é a reconstrução histórica de uma trajetória. Esse percurso é refeito de maneira ampla, tendo como consultor o jornalista Mário Magalhães, que prepara a sua biografia. Isa utiliza entrevistas com militantes que combateram ao lado do guerrilheiro, o depoimento de Clara Charf, sua viúva, de seu filho Carlos Augusto Marighella e de figuras notáveis na resistência à ditadura, como o professor Antonio Candido, que tem Marighella na conta de um herói do povo brasileiro. Há, além disso, narrativa em off de poemas e escritos de Marighella, interpretados pelo ator Lázaro Ramos, e um arrepiante rap de Mano Brown, celebrando a biografia do personagem e destacando sua luta em favor dos pobres.
"Marighella" não é um documento jornalístico sobre a controvertida figura de um guerrilheiro. Não ouve o outro lado, ou os outros lados, como em termos ideais deveria fazer uma reportagem de jornal, uma pesquisa acadêmica ou mesmo uma biografia isenta. Não é imparcial. É uma homenagem e filme de um lado: o de uma pessoa da família, e também o de uma parcela da sociedade brasileira, aquela que simpatizou com a luta contra a ditadura militar. Mesmo aí encontram-se divisões. É possível que quem tenha fé na resistência pacífica não nutra simpatia por quem pegou em armas para se opor.
Controvérsias à parte, Marighella foi figura exemplar na luta contra a ditadura e morreu defendendo suas ideias, sem medo e sem recuar um passo. O homem que cai nessas circunstâncias não morre; vira mito. Fica encantado, como dizia Guimarães Rosa, em outro contexto
Para quem não leu a crítica do filme Marighella de Isa Ferraz , sobrinha de Clara Charf, que estreou nos festivais de cine do Rio e SP / publicação do jornal Estado de Sao Paulo
COMEMORAÇÕES DOS 65
Caro(a) Amigo(a)
Nas comemorações dos meus 65 anos de idade ( 21/10) recebi e continuo recebendo dezenas de mensagens carinhosas. Decidi não responde-las apressadamente. Irei aos poucos. Com isso o tempo passa prazerosamente. Quem sabe chego aos 90. Uma das mensagens que recebi transcrevo abaixo.
Olá BETINHO,
Hoje é um dia especial! Comece a sorrir mais cedo. Pense em coisas boas. Alimente seus sonhos. Escute uma música legal e dance, mesmo que sozinho. Valorize as pessoas próximas a você. Perca o controle. Grite. Espalhe alegria.
Lembre-se que você é um privilegiado. Nem todos têm as mesmas oportunidades. Agradeça. As coisas mais importantes são aquelas que você não pode ver.
Que tal começar hoje aquela mudança em sua vida que você vem adiando? Não espere para ser feliz. Não adianta tentar fugir de seus problemas. Ninguém consegue. Esqueça deles por um dia. Depois aprenda o que tiver que aprender e os enfrente. Não se deixe abater. Acredite. Tenha energia. O mundo começará a mudar quando você mudar. Viver vale a pena.
Lá no fundo, desejamos a você mais um ano com muita saúde, paz e amor. Sinceros parabéns. Feliz aniversário.
Um abração,
Nas comemorações dos meus 65 anos de idade ( 21/10) recebi e continuo recebendo dezenas de mensagens carinhosas. Decidi não responde-las apressadamente. Irei aos poucos. Com isso o tempo passa prazerosamente. Quem sabe chego aos 90. Uma das mensagens que recebi transcrevo abaixo.
Olá BETINHO,
Hoje é um dia especial! Comece a sorrir mais cedo. Pense em coisas boas. Alimente seus sonhos. Escute uma música legal e dance, mesmo que sozinho. Valorize as pessoas próximas a você. Perca o controle. Grite. Espalhe alegria.
Lembre-se que você é um privilegiado. Nem todos têm as mesmas oportunidades. Agradeça. As coisas mais importantes são aquelas que você não pode ver.
Que tal começar hoje aquela mudança em sua vida que você vem adiando? Não espere para ser feliz. Não adianta tentar fugir de seus problemas. Ninguém consegue. Esqueça deles por um dia. Depois aprenda o que tiver que aprender e os enfrente. Não se deixe abater. Acredite. Tenha energia. O mundo começará a mudar quando você mudar. Viver vale a pena.
Lá no fundo, desejamos a você mais um ano com muita saúde, paz e amor. Sinceros parabéns. Feliz aniversário.
Um abração,
Uma nova cassação para Paulo Wright
Discurso inaugural de Paulo Stuart Wright na Assembleia Legislativa Catarinense
A Alesc – Assembleia Legislativa de Santa Catarina está prestes a cassar um deputado pela segunda vez. Para quem acha bizarra ou impossível a situação ficará mais perplexo ao saber que se trata de um deputado falecido. A polêmica acerca da mudança do nome de uma rodovia estadual, no município de Penha, Santa Catarina, deu ensejo ao movimento liderado pelo Coletivo Catarinense Memória, Verdade e Justiça que pede a não revogação ou modificação da Lei que em janeiro deste ano reverenciou o nome do único deputado catarinense cassado pela ditadura militar em 1963.
O Projeto de Lei (PL 0199.0/2011) de autoria do deputado Gilmar Knaesel (PSDB/SC) tem por objetivo modificar o nome da Rodovia Estadual Paulo Stuart Wright, que liga a BR-101 a Avenida Nereu Ramos, em Penha/SC, para Rodovia Estadual Francisco Leopoldo Fleith sob a justificativa que Fleith foi importante político local e dono de loteamento.
Memória curta?
O jornalista americano Doug Larson, conhecido por ter seus pensamentos expostos em camisetas, escreveu certa vez em sua coluna diária no Green Bay Press-Gazette que: “há muita gente que confunde memória curta com consciência tranquila”. Se o projeto de lei passar no plenário, ele revogará uma lei aprovada, por unanimidade e sem restrições, no dia 17 de janeiro de 2011. Se não bastasse este episódio, ainda há o fato de que a troca do nome da rodovia supõe que boa parte dos representantes catarinenses ignora a existência de um parlamentar que teve sua história escrita, com sangue, no parlamento.
Natural de Erval Velho, meio-oeste catarinense, Paulo Stuart Wrighté filho de missionários presbiterianos americanos. A formação cristã em sua educação; os estudos em Sociologia; e a atuação política posicionou Paulo Wright ao lado dos menos favorecidos. Seu mandato como deputado pelo extinto PSP – Partido Social Progressista, fez com que Paulo Wright conhecesse a vida difícil dos pescadores do litoral catarinense, e os organizasse numa federação chamada Fecopesca. Esse fato inspirou Dias Gomes a escrever a novela “O bem amado”. Cassado pela ditadura militar; e banido do rol de fiéis da Igreja Presbiteriana, Paulo Wright vive na clandestinidade sendo o segundo homem da APML – Ação Popular Marxista Leninista. Em 1973 é preso e torturado pelo II Exército em São Paulo, sob a coordenação do Coronel Brilhante Ustra. O corpo de Paulo, reclamado pelo governo dos Estados Unidos da América, e pelos familiares, nunca foi encontrado.
A professora Derlei Catarina De Luca, vítima da repressão armada da ditadura militar, conta que conheceu Paulo Stuart Wright num comício em Criciúma na década de 60, juntamente com o Presidente João Goulart. “Após o comício voltei a ver o Paulo (Stuart Wright) em 1968, quando eu entrei na clandestinidade com o AI-5. O Paulo era disciplinado. Havia trabalhado com os pescadores catarinenses, e os operários do ABC Paulista. Lia e escrevia muito; entendia os problemas do povo e sofria por isso. Acho que o corpo nunca foi devolvido porque o caso repercutiu nos Estados Unidos. O Senado americano chegou a fazer um dossiê e enviou o senador Edward Kennedy para acompanhar o caso. O irmão e pastor presbiteriano Jaime Wright faleceu sem encontrar o corpo do Paulo.”.
Estrada tortuosa
Em matéria veiculada pelo jornal Beira da Praia, de Penha/SC, em 12 de fevereiro de 2011, o representante do Sinjusc – Sindicato dos Servidores do Poder Judiciário de Santa Catarina Ricardo Schimtz Maes menciona a trajetória de Paulo Stuart Wright e a homenagem que o deputado catarinense recebeu com a denominação rodovia SC-414. Maes, afirma que o homenageado “constitui um símbolo na luta pela liberdade e justiça social, representando todo aquele que lutou contra a opressão do regime militar”.
O projeto de lei aguarda, a partir do dia 5 de outubro, discussão e votação em 1º turno. Os Deputados Neodi Saretta (PT/SC), Volnei Morastoni (PT/SC), e Sargento Amauri Soares (PDT/SC) defenderam a continuidade do nome de Paulo Stuart Wright na rodovia.
O assunto é tortuoso. A partir das manifestações favoráveis para criação da Comissão da Verdade em Santa Catarina, através do pedido dos deputados Dirceu Dresch (PT/SC), e Volnei Morastoni (PT/SC) a ditadura militar volta a ser debatida no Estado. Já dizia Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal emérito de São Paulo e amigo do Pastor Presbiteriano Jaime Wright: “os povos que não podem ou não querem confrontar-se com seu passado histórico estão fadados a repeti-lo”.
By: Acangatu in Estácio de Sá, Sem categoria on out. 23, 2011
Por William Wollinger Brenuvida
A Alesc – Assembleia Legislativa de Santa Catarina está prestes a cassar um deputado pela segunda vez. Para quem acha bizarra ou impossível a situação ficará mais perplexo ao saber que se trata de um deputado falecido. A polêmica acerca da mudança do nome de uma rodovia estadual, no município de Penha, Santa Catarina, deu ensejo ao movimento liderado pelo Coletivo Catarinense Memória, Verdade e Justiça que pede a não revogação ou modificação da Lei que em janeiro deste ano reverenciou o nome do único deputado catarinense cassado pela ditadura militar em 1963.
O Projeto de Lei (PL 0199.0/2011) de autoria do deputado Gilmar Knaesel (PSDB/SC) tem por objetivo modificar o nome da Rodovia Estadual Paulo Stuart Wright, que liga a BR-101 a Avenida Nereu Ramos, em Penha/SC, para Rodovia Estadual Francisco Leopoldo Fleith sob a justificativa que Fleith foi importante político local e dono de loteamento.
Memória curta?
O jornalista americano Doug Larson, conhecido por ter seus pensamentos expostos em camisetas, escreveu certa vez em sua coluna diária no Green Bay Press-Gazette que: “há muita gente que confunde memória curta com consciência tranquila”. Se o projeto de lei passar no plenário, ele revogará uma lei aprovada, por unanimidade e sem restrições, no dia 17 de janeiro de 2011. Se não bastasse este episódio, ainda há o fato de que a troca do nome da rodovia supõe que boa parte dos representantes catarinenses ignora a existência de um parlamentar que teve sua história escrita, com sangue, no parlamento.
Natural de Erval Velho, meio-oeste catarinense, Paulo Stuart Wrighté filho de missionários presbiterianos americanos. A formação cristã em sua educação; os estudos em Sociologia; e a atuação política posicionou Paulo Wright ao lado dos menos favorecidos. Seu mandato como deputado pelo extinto PSP – Partido Social Progressista, fez com que Paulo Wright conhecesse a vida difícil dos pescadores do litoral catarinense, e os organizasse numa federação chamada Fecopesca. Esse fato inspirou Dias Gomes a escrever a novela “O bem amado”. Cassado pela ditadura militar; e banido do rol de fiéis da Igreja Presbiteriana, Paulo Wright vive na clandestinidade sendo o segundo homem da APML – Ação Popular Marxista Leninista. Em 1973 é preso e torturado pelo II Exército em São Paulo, sob a coordenação do Coronel Brilhante Ustra. O corpo de Paulo, reclamado pelo governo dos Estados Unidos da América, e pelos familiares, nunca foi encontrado.
A professora Derlei Catarina De Luca, vítima da repressão armada da ditadura militar, conta que conheceu Paulo Stuart Wright num comício em Criciúma na década de 60, juntamente com o Presidente João Goulart. “Após o comício voltei a ver o Paulo (Stuart Wright) em 1968, quando eu entrei na clandestinidade com o AI-5. O Paulo era disciplinado. Havia trabalhado com os pescadores catarinenses, e os operários do ABC Paulista. Lia e escrevia muito; entendia os problemas do povo e sofria por isso. Acho que o corpo nunca foi devolvido porque o caso repercutiu nos Estados Unidos. O Senado americano chegou a fazer um dossiê e enviou o senador Edward Kennedy para acompanhar o caso. O irmão e pastor presbiteriano Jaime Wright faleceu sem encontrar o corpo do Paulo.”.
Estrada tortuosa
Em matéria veiculada pelo jornal Beira da Praia, de Penha/SC, em 12 de fevereiro de 2011, o representante do Sinjusc – Sindicato dos Servidores do Poder Judiciário de Santa Catarina Ricardo Schimtz Maes menciona a trajetória de Paulo Stuart Wright e a homenagem que o deputado catarinense recebeu com a denominação rodovia SC-414. Maes, afirma que o homenageado “constitui um símbolo na luta pela liberdade e justiça social, representando todo aquele que lutou contra a opressão do regime militar”.
O projeto de lei aguarda, a partir do dia 5 de outubro, discussão e votação em 1º turno. Os Deputados Neodi Saretta (PT/SC), Volnei Morastoni (PT/SC), e Sargento Amauri Soares (PDT/SC) defenderam a continuidade do nome de Paulo Stuart Wright na rodovia.
O assunto é tortuoso. A partir das manifestações favoráveis para criação da Comissão da Verdade em Santa Catarina, através do pedido dos deputados Dirceu Dresch (PT/SC), e Volnei Morastoni (PT/SC) a ditadura militar volta a ser debatida no Estado. Já dizia Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal emérito de São Paulo e amigo do Pastor Presbiteriano Jaime Wright: “os povos que não podem ou não querem confrontar-se com seu passado histórico estão fadados a repeti-lo”.
By: Acangatu in Estácio de Sá, Sem categoria on out. 23, 2011
Por William Wollinger Brenuvida
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
O Operário Em Construção Vinicius de Moraes
E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
- Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
- Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.
Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.
De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.
Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.
Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.
E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.
Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.
Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!
Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.
Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.
Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!
- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.
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