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domingo, 19 de maio de 2013



O guerrilheiro rompe o silêncio »Calado desde a abertura e às vésperas de ser julgado, Wellington Diniz conta sua história de luta contra a ditaduraDiniz assaltou, foi acusado de assassinatos, preso, torturado, exilado, foi segurança de Lamarca e Fidel e fez cinema com Rosselini. Ele rompe o silêncio às vésperas de ser julgado em BH pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça

Publicação: 19/05/2013 07:30 Atualização: 19/05/2013 10:27
Daniel Camargos

'Teve um embate e eu estava presente. A Dilma tinha a convicção dela, que era uma visão mais antimilitar. E nós tínhamos uma visão mais militar. A Dilma acusou o Lamarca de não ter sustentação teórica. Houve tensão, as discussões foram sérias, mas nunca chegou às vias de fato' (Beto Novaes/EM/D.A Press)
'Teve um embate e eu estava presente. A Dilma tinha a convicção dela, que era uma visão mais antimilitar. E nós tínhamos uma visão mais militar. A Dilma acusou o Lamarca de não ter sustentação teórica. Houve tensão, as discussões foram sérias, mas nunca chegou às vias de fato'

Quem observa o senhor franzino, de 66 anos, morador do Bairro Carmo, em Sete Lagoas, é incapaz de imaginar o peso da história que ele carrega. Wellington Moreira Diniz lutou contra a ditadura militar no Brasil, participou de ações armadas em bancos e quartéis para abastecer organizações como Colina, Var-Palmares e VPR com armas e dinheiro; foi responsável pela segurança do ícone da resistência, o capitão Carlos Lamarca, e presenciou a jovem Dilma Rousseff, então com 21 anos, discutir asperamente com Lamarca. Fez ainda parte do grupo que roubou US$ 2,598 milhões (R$ 15 milhões atualmente) do cofre da amante do político Adhemar de Barros; foi preso e cruelmente torturado, depois libertado em troca do embaixador suíço que havia sido sequestrado por seus companheiros. Exilado no Chile, foi segurança do então presidente cubano, Fidel Castro, quando este visitou o país governado por Salvador Allende, em 1971. Trabalhou ainda como assistente em produções do diretor de cinema chileno Miguel Littín e do italiano Roberto Rosselini e lutou pela independência de Angola, participando da tomada do aeroporto na capital. 

Até a quarta-feira da semana passada, Wellington nunca havia contado sua trajetória. Em um depoimento de quase três horas, ele revelou ao Estado de Minas detalhes da sua biografia. Acusado de 38 assaltos, entre bancos, quartéis e automóveis, e de ter matado 12 pessoas em ações de resistência à ditadura, ele será julgado na próxima sexta-feira pela Comissão de Anistia, do Ministério da Justiça. O deputado federal e ex-ministro dos Direitos Humanos Nilmário Miranda (PT-MG) será o relator do processo de Wellington e destaca: “A anistia não discrimina luta armada e luta pacífica. Em uma situação de ditadura é considerado lícito que os militantes peguem em armas”.

“Se eu era bravo? Bravo é boi. Eu seguia as necessidades do momento”, entende Wellington. A ficha do Serviço Nacional de Informações (SNI) imputa 38 ações, mas ele garante ter participado de 45. Sobre as 12 mortes de que é acusado, garante não ser realidade. “Sempre atirei para cima. Se alguém trombou na bala não é problema meu”, ironiza. Um dos apelidos que recebia dos companheiros e também dos militares era 90. Uma alusão às duas pistolas .45 que sempre carregava na cintura durante as ações. Outro apelido – que ele não gosta, aliás – era “John Wayne da guerrilha”. “Isso é folclore”, rebate.

Distante da época elétrica, quando vivia entre um aparelho e outro e chegou a assaltar três bancos no mesmo dia, sendo um no Rio de Janeiro e outros dois em São Paulo, Wellington recita sua vida como se estivesse contando para si próprio. Em quase três horas de depoimento, fumou 18 cigarros, bebeu mais de uma garrafa de café - sem açúcar - e fez longas pausas. “Existem as pessoas que passam pela história e as pessoas que fazem a história. Foi uma opção de vida fazer história”, conclui, deixando o cigarro queimar até o filtro.

» O INÍCIO 
Wellington nasceu em Belo Horizonte, no Bairro Nova Suíça, filho de pai comerciante e mãe dona de casa. Começou a militância política na escola técnica industrial e logo depois integrou a Ação Popular (AP). Foi preso em 1968. “Foi um escândalo. Eu morava com meus pais e fui levado de cueca para o CPOR”, lembra. Foi interrogado, mas como não entregava nada seguiu preso. “Nesse tempo a tortura não era institucionalizada. Era só pancadaria. Eles batiam muito com cacetete de borracha”, detalha. 

Recebia toda semana a visita dos pais e, para não assustá-los, dizia que estava bem e se sentia em uma colônia de férias. Certo dia, durante a visita, um coronel mandou que ele tirasse a camisa. Wellington resistiu, mas foi agarrado. “Meu pai viu como eu estava, porque o cacetete de borracha deixa lanhos na pessoa”, lembra. O coronel levou o pai dele para outra sala e teve uma conversa reservada. No dia seguinte, o pai de Wellington, Nereu Diniz, então com 46 anos, foi internado em um hospital e morreu de problemas cardíacos. “Meu pai não tinha nenhuma militância, não era ligado a nenhum partido político. Ele era só meu pai”, indigna-se.

» AO ATAQUE

Três dias após deixar a prisão, em Belo Horizonte, foi decretado o Ato Institucional número 5 (AI-5). Porém, Wellington não esperou pelo endurecimento do regime militar e já estava vivendo clandestinamente no Rio de Janeiro. Ingressou no Comando de Libertação Nacional (Colina). O contato dele era o também belo-horizontino Juarez Guimarães de Brito. “Juarez é na minha vida de 66 anos a pessoa mais honesta, mais parceira, mais companheira e que me ensinou muito na vida”, afirma Wellington. O Colina fundiu com a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), de Carlos Lamarca, e formou a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares). 
Entre as ações empreendidas na resistência à ditadura,  Wellington destaca o assalto à agência do banco Andrade Arnaud, que ficava próximo ao Ministério da Guerra e à delegacia de repressão de assalto a bancos, na capital fluminense. “Isso deixou os militares furiosos”, recorda. Outro estratégia ousada foi o assalto à agência Urca da antiga União dos Bancos Brasileiros, que era onde os militares depositavam o dinheiro, pois era vizinho da Escola Superior da Guerra. Wellington também assaltou o carro do general Syzeno Sarmento, então ministro da Guerra. “Eu mesmo peguei o carro dele. Um carro bom, porque tinha placa fria e uma pistola .45 no porta-luvas”, lembra. 

O assalto ao quartel de Manguinhos, na Avenida Brasil, também marcou. “Éramos cinco pessoas. O Darcy Rodrigues chegou para o sentinela e gritou: qual é o f. que disparou a arma?”, lembra Wellington. O guarda, assustado, não soube responder e atendeu a ordem de Darcy, que estava vestido como militar. Cerca de 40 militares foram reunidos em uma sala e colocados em posição de sentido. “Estava todo mundo com o fuzil na mão. O Darcy entrou e deu posição de sentido. Aí eu entrei. Com uma Thompson (metralhadora) na mão”, recorda.


» O GRANDE ASSALTO
 (Ronaldo Moraes/O Cruzeiro/EM)
A maior ação e mais notória foi o roubo do cofre da amante de Adhemar de Barros, no Bairro de Santa Tereza, no Rio de Janeiro. Adhemar morreu em março de 1969 e deixou grande parte do dinheiro com sua principal amante, Anna Gimel Benchimol Capriglione. No dia 18 de junho de 1969, 11 militantes da VAR-Palmares,     Wellington entre os líderes, invadiram a mansão, renderam todos os funcionários e levaram o cofre, que em valores de hoje tinha o equivalente a R$ 15 milhões. 
 “Eu não podia trocar dinheiro. Nem eu e nem o pessoal mais militarizado. Isso ficava para os simpatizantes. A Dilma (a presidente Dilma Rousseff) estava começando e foi junto com a Iara (Iara Averbeck, militante e namorada de Carlos Lamarca) trocar parte do dinheiro em uma casa da câmbio no Copacabana Palace”, lembra. A maior parte, entretanto, foi levada para o embaixador da Argélia por Wellington. 

 “Todo dinheiro era para a organização. Eu nunca coloquei a mão em um tostão de todas as operações que fiz. Eu inclusive apanhei porque não tinha uma nota de US$ 1”, sustenta Wellington. Os militantes decidiram que cada um dos participantes poderia ficar com uma nota de US$ 1 como recordação do feito, mas Wellington recusou, o que fez ele apanhar ainda mais na prisão por não revelar onde estava a nota. A história do assalto é contada no livro O cofre do dr. Rui (Civilização Brasileira), escrito por Tom Cardoso. Até a quarta-feira da semana passada, Wellington nunca havia contado sua trajetória. Em um depoimento de quase três horas, ele revelou ao Estado de Minas detalhes da sua biografia. Acusado de 38 assaltos, entre bancos, quartéis e automóveis, e de ter matado 12 pessoas em ações de resistência à ditadura, ele será julgado na próxima sexta-feira pela Comissão de Anistia, do Ministério da Justiça. O deputado federal e ex-ministro dos Direitos Humanos Nilmário Miranda (PT-MG) será o relator do processo de Wellington e destaca: “A anistia não discrimina luta armada e luta pacífica. Em uma situação de ditadura é considerado lícito que os militantes peguem em armas”.

 “Se eu era bravo? Bravo é boi. Eu seguia as necessidades do momento”, entende Wellington. A ficha do Serviço Nacional de Informações (SNI) imputa 38 ações, mas ele garante ter participado de 45. Sobre as 12 mortes de que é acusado, garante não ser realidade. “Sempre atirei para cima. Se alguém trombou na bala não é problema meu”, ironiza. Um dos apelidos que recebia dos companheiros e também dos militares era 90. Uma alusão às duas pistolas .45 que sempre carregava na cintura durante as ações. Outro apelido – que ele não gosta, aliás – era “John Wayne da guerrilha”. “Isso é folclore”, rebate. 

Distante da época elétrica, quando vivia entre um aparelho e outro e chegou a assaltar três bancos no mesmo dia, sendo um no Rio de Janeiro e outros dois em São Paulo, Wellington recita sua vida como se estivesse contando para si próprio. Em quase três horas de depoimento, fumou 18 cigarros, bebeu mais de uma garrafa de café – sem açúcar – e fez longas pausas. “Existem as pessoas que passam pela história e as pessoas que fazem a história. Foi uma opção de vida fazer história”, conclui, deixando o cigarro queimar até o filtro.

» LAMARCA
 (Arquivo)
Após a fusão entre a Colina e a VPR que originou a VAR-Palmares, Wellington passou a comandar a terceira base operacional da organização. “O meu grupo propôs uma operação para matar o Lamarca (Carlos)”, lembra. O motivo é que eles tinham visto uma notícia no jornal em que Lamarca, então capitão do Exército e um dos melhores atiradores do país, dava um curso de tiro para gerentes de banco reagirem aos assaltos. Wellington não sabia, entretanto, que no final de janeiro de 1969 Lamarca havia desertado e fugido do quartel de Quitaúna, em São Paulo, com uma Kombi carregada de fuzis, metralhadoras e munição e entrado para a VPR. 

O plano não foi pra frente e meses depois Wellington foi deslocado para uma tarefa. Quando entra no aparelho se depara com Lamarca. “Ele morreu de rir. Disse que eu queria matá-lo, mas teria era que cuidar dele”, afirma. Wellington se recorda de quando passou a ser segurança do principal nome da guerrilha armada. “Fui com ele quando foi fazer uma cirurgia plástica. As enfermeiras pensaram que éramos um casal. Me gozaram muito no hospital. Mas elas não sabiam que debaixo do capote que vestia havia duas pistolas .45, uma metralhadora Thompsom e algumas granadas”, detalha.

» DILMA
 (Arquivo)
Após o assalto ao cofre da amante do governador Adhemar de Barros houve um encontro da VAR-Palmares em Teresópolis, na região serrana fluminense. Um grupo, liderado por Lamarca, priorizava as ações armadas, e outro, do qual Dilma fazia parte, tinha o discurso da conscientização da massa de trabalhadores. Eram os “foquistas”, que desejavam implantar focos de guerrilha ante os “massistas”. 

 “Teve um embate e eu estava presente. A Dilma tinha a convicção dela, que era uma visão mais antimilitar. E nós tínhamos uma visão mais militar, que foi o grupo que formou a Vanguarda Popular Revolucionária. A Dilma acusou o Lamarca de não ter sustentação teórica. Houve tensão, as discussões foram sérias, mas nunca chegou às vias de fato”, recorda Wellington.


» A QUEDA
Wellington viveu um tempo como camponês na região serrana do Rio de Janeiro preparando aquele que seria o cativeiro – caso o plano fosse efetivado – do então ministro da Marinha, Augusto Rademaker, e do militar Gary Prado, que estava no Brasil e foi um dos responsáveis pela caçada que matou Ernesto Che Guevara. “Fui ao Rio porque ia ter um encontro para fechar essa questão. Como eu era o segurança do Lamarca, sempre ia na frente para averiguar. Na hora em que abri a porta do apartamento tinha um Fal (fuzil) na minha cara”, lembra.

Wellington diz que correu, mas se deparou com outros militares. Chegou a trocar tiros, mas foi atingido de raspão na cabeça e outro nas costas. Acabou preso. “Ai me meteram duas algemas. Um militar enfiou o fuzil na minha boca, quando eu estava caído. Fui levado para o DOI-Codi, na Barão de Mesquita. No elevado da Barão de Mesquita dei uma cabeçada no motorista do carro e ele esbarrou o carro na mureta”, destaca a própria valentia. Preso, Wellington afirma ter conseguido segurar 72 h oras sem abrir a boca. Ele sabia muito. Sabia onde estava Lamarca e também o destino do dinheiro do cofre da amante do Adhemar de Barros e, por isso, foi torturado intensamente. 


» EXÍLIO E FIDEL
Com o sequestro do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher, comandado por Lamarca, Wellington entrou na lista dos 70 nomes que seriam trocados pelo diplomata. Foram para o Chile, que era governado por Salvador Allende. Chegando ao país andino, ele trabalhou com o cineasta Miguel Littín, como assistente de câmera no filme A terra prometida. Porém, quando o general Augusto Pinochet tomou o poder, seu nome foi incluído na lista de procurados e teve que deixar o país. 

Antes, em 1971, quando o então presidente cubano Fidel Castro visitou o Chile, Wellington foi destacado pelo Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR) para compor a equipe de segurança do líder cubano. “Precisavam de pessoa com certa experiência e desenvoltura para auxiliar nos trabalhos. Com gente disposta ao que desse e viesse. Fidel era um ídolo, assim como Che Guevara. E nos tratava de igual para igual, chamando-nos de companheiro e tomando um café igual nós estamos tomando aqui”, relata. 


» CINEMA E REVOLUÇÃO
 (Reprodução)
No Chile, além de trabalhar na produção de filmes, Wellington conheceu Renzo Rosselini, filho do cineasta italiano Roberto Rosselini. Quando teve que deixar o país após a tomada do poder por Pinochet, Wellington chegou à Itália, passando por México e Bélgica antes. Lá, conta que foi assistente de direção de Roberto Rosselini em filmes feitos para a  tevê italiana RAI. No Brasil, quando retornou, foi assistente de direção de Helvécio Ratton no filme A dança dos bonecos (1986). “Um cara extremamente corajoso. Não era de falar muito e nem de discutir, mas era um sujeito de muita ação”, lembra Ratton. 

Porém, antes de retornar ao Brasil, Wellington também esteve em Angola e participou da luta pela libertação do país, que culminou na independência, em 1975. No país africano nasceu um de seus seis filhos. Após retornar ao Brasil, estudou medicina oriental e, por muitos anos, teve um clínica de acupuntura no Bairro Santa Efigênia, em Belo Horizonte, além de dar aulas e escrever livros sobre o assunto. Há três anos mora em Sete Lagoas. Mudou-se  para a cidade para viver mais próximo de sua mãe, que morreu em março deste ano.

» IDEOLOGIA

Wellington afirma que na primeira eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) antigos companheiros o sondaram sobre a oportunidade de trabalhar em Brasília. Porém, ele permanece radical. “Eu não tenho estômago ainda. Eu ainda não tenho essa capacidade de exercer minha serenidade frente a pessoas que torturaram ou que financiaram a tortura. Eu não tenho o que fazer lá”, afirma. Wellington não se arrepende de nada do seu passado. “Tenho muito orgulho de ter feito parte de uma situação que pode resultar hoje na nossa possibilidade de falar”, garante. O ex-combatente faz questão de deixar um recado para os jovens: “Acredito profundamente no ser humano e acredito nessa juventude que está vindo aí. Que pode trazer novos valores saindo desse colonialismo mental que existe até hoje. Não somos nós, os dinossauros da história, quem vai promover essas mudanças. Essas mudanças estão na mão dos jovens que não recebem pressão ideológica do jeito que recebíamos e que tem a liberdade de poder criar algo novo. Tenho um orgulho muito grande de ter participado na construção deste espaço. Quando vejo meus filhos com valores novos, com propostas novas, a vida está feliz e eu estou realizado”. 

Glossário
AI-5 – O Ato Institucional número cinco foi decretado pelo presidente Costa e Silva em 13 de dezembro de 1968. Fechou o Congresso e deu poderes absolutos para o regime ditatorial militar. 

AP – A Ação Popular foi um movimento surgido da esquerda católica, em Belo Horizonte, que combateu o poder dos militares. 

Adhemar de Barros – Político paulista, governou São Paulo, foi derrotado por Juscelino Kubitschek para a Presidência da República e cunhou a expressão “rouba, mas faz”. 

Augusto Pinochet – Governou o Chile entre 1973 e 1990, após tomar o poder com um golpe militar. Morreu em dezembro de 2006.

Carlos Lamarca – Capitão do Exército brasileiro, campeão de tiro, desertou e passou a combater a ditadura em organizações de esquerda. Morreu no sertão da Bahia, após intensa perseguição, em 17 de setembro de 1971.

Colina – Sigla de Comando de Libertação Nacional, grupo de extrema- esquerda iniciado em Minas Gerais. Em 1969, se fundiu com a VPR e formou a VAR-Palmares. 

Fidel Castro – Liderou a Revolução Cubana, em 1959, e presidiu Cuba até 2006, quando passou o poder para seu irmão, Raul Castro

Miguel Littín – Um dos mais importantes cineastas chilenos. Diretor de obras como Ata geral do Chile (1986) e A terra prometida (1974)

Roberto Rosselini – Cineasta italiano, diretor de vários filmes célebres, como Roma, cidade aberta (1945). Morreu em 1977. 

Salvador Allende – Primeiro presidente socialista eleito democraticamente. Governou o Chile entre 1970 e 1973, quando se matou, durante o golpe e bombardeio empreendido pelo sanguinário Augusto Pinochet. 

VAR-Palmares – Sigla de Vanguarda Armada Revolucionária Palmares. Adotou a tática de guerrilha e surgiu da fusão do Colina e com a VPR. 

VPR – Sigla de Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Foi a primeira organização de esquerda em que o capitão do Exército 
Carlos Lamarca ingressou.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Prorrogadas Inscrições nas Clínicas do Testemunho

Interessados em participar nas Clínicas do Testemunho podem fazer sua inscrição até o próximo dia 30 de abril,terça feira.

As Clínicas promoverão atenção  em saúde mental para atingidos por violência de estado entre os anos de 1946 e 1988, além de capacitarem profissionais para atuação em demandas específicas deste tipo de violência.

Maiores informações:



A Comissão de Anistia do Ministério da Justiça convida para o lançamento da Clínica do Testemunho do Instituto Projetos Terapêuticos do Rio de Janeiro, dia 17 de abril, às 18h, no Auditório da OAB/RJ, Rio de Janeiro-RJ.

Maiores informações sobre as Clínicas do Testemunho e inscrições no site:




Serão instaladas Clínicas em Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro e Recife.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

http://youtu.be/ZvJaeKsyuPo

"A ditadura não acabou"

Filho de militantes de esquerda, Carlos Alexandre foi preso e torturado quando era bebê. Cresceu agressivo e isolado. Aos 37 anos, ele ainda sente os efeitos dos anos de chumbo: vive recluso, sem trabalho nem amigos - sofre de fobia social

Solange Azevedo
No vídeo abaixo você confere os depoimentos de Dermi Azevedo, pai de Carlos Alexandre
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Carlos Alexandre Azevedo, 37 anos, torturado quando era bebê.
Ele tem olhos de aflição e feições de dor. Suas palavras saem cadenciadas, são quase sussurros. “Minha família nunca conseguiu se recuperar totalmente dos abusos sofridos durante a ditadura”, diz. “Os meus pais foram presos e eu fui usado para pressioná-los.” Carlos Alexandre Azevedo tinha 1 ano e 8 meses quando policiais invadiram a casa da família, na zona sul de São Paulo, e o levaram para a sede do Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Deops). Era 15 de janeiro de 1974. Bem armados e truculentos, os agentes da repressão o encontraram na companhia da babá – uma moça de origem nordestina conhecida como Joana. Chegaram dando ordens. Exigiram que os dois permanecessem imóveis no sofá. Apenas Joana obedeceu. Como castigo pelo choro persistente, Carlos Alexandre levou uma bofetada tão forte que acabou com os lábios cortados. Foram mais de 15 horas de agonia. O drama de Carlos Alexandre – um dos mais surpreendentes dos anos de chumbo – veio à tona no momento em que o governo brasileiro discute a criação da Comissão Nacional da Verdade para apurar casos de tortura, sequestros, desaparecimentos e violações de direitos humanos durante a ditadura militar (1964-1985). Carlos Alexandre decidiu revelar sua história, com exclusividade, à ISTOÉ depois que o seu processo de anistia foi julgado pelo Ministério da Justiça. No dia 13 de janeiro, ele foi declarado “anistiado político”. Deve receber uma indenização de R$ 100 mil por ter sido vítima dos militares. “Muita gente ainda acha que não houve ditadura nem tortura no Brasil. No julgamento, em Brasília, me senti compreendido.
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Carlos aos 3 anos, com os pais
As pessoas sabiam que o que eu vivi foi verdade”, alega. “A indenização não vai apagar nada do que aconteceu na minha vida. Mas a anistia é o reconhecimento oficial de que o Estado falhou comigo. Para mim, a ditadura não acabou. Até hoje sofro os seus efeitos. Tomo antidepressivo e antipsicótico. Tenho fobia social.” Fragmentos da vida de Carlos Alexandre, hoje com 37 anos, estão guardados  na memória do pai, o jornalistae cientista político Dermi Azevedo. Outros ficaram entre as lembranças da mãe, a pedagoga Darcy Andozia. “Minha família sempre foi muito retraída, sem diálogo. Não costumávamos falar sobre tortura. Esse assunto sempre foi tabu entre nós”, conta Carlos Alexandre. Ele descobriu o próprio passado ao remexer em gavetas, aos 10 ou 11 anos de idade. Misturado a fotografias antigas e a uma porção de papéis, encontrou o desenho de uma vaquinha, conhecida na época por simbolizar a “esperança”, com o seguinte recado: “Deops 1974: Quando você ficar mais velho, seus pais vão te contar a sua história.” Parte do sofrimento da infância lhe foi revelada pela mãe. “Cacá apanhou porque estava chorando de fome. Os policiais falavam que, naquela idade, ele já era doutrinado e perigoso”, lamenta Darcy. Presas políticas disseram ao pai que o menino fora torturado no Deops. “Meses depois de sair da prisão, soube que o meu filho tinha sido vítima de choques elétricos e outras sevícias. Ele foi jogado no chão e bateu a cabeça”, afirma Dermi. “Maltratar um bebê é o suprassumo da crueldade.” Quando os agentes levaram Carlos Alexandre e a babá, Darcy não estava em casa – seria trancafiada no Deops horas depois.
“Até hoje sofro os efeitos da ditadura. Tomo antidepressivo e antipsicótico. Tenho fobia social”  
Ela havia saído cedo em busca de ajuda para o marido preso. Aquela era a segunda invasão à residência dos Azevedo. Na noite anterior, policiais vasculharam todos os cômodos em busca de “material subversivo”. Encontraram um livro intitulado “Educação Moral e Cívica & Escalada Fascista no Brasil” e o consideraram uma injúria às autoridades. Dermi, Darcy e a educadora Maria Nilde Mascellani foram processados – e absolvidos – sob a acusação de tentar difamar o Estado brasileiro. Dermi e Darcy eram ligados aos padres dominicanos e a uma das principais vozes que lutavam contra a ditadura, o então cardeal de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns. Faziam parte da retaguarda do movimento de resistência – abrigavam militantes que se preparavam para embarcar para o Exterior. O período de cárcere foi tenso e doloroso. Darcy permaneceu mais de 40 dias na cadeia. Foi pressionada psicologicamente, mas não sofreu violência física. Dermi ficou cerca de quatro meses no xadrez. Apanhou muito. Quando já não suportava mais a dor, invocava o nome d’Ele: “Ai, meu Deus. Meu Deus.” Enquanto Darcy esteve atrás das grades, Carlos Alexandre foi cuidado pelos avós – e continuou a sofrer as consequências de escolhas que não foram suas. “Em certos momentos, tive raiva porque meus pais expuseram os filhos. Mas depois senti orgulho porque eles lutaram contra os abusos dos militares e fazem parte da história do Brasil”, diz. Carlos Alexandre padece de um transtorno chamado pela ciência de fobia social: um medo excessivo e persistente de se expor à avaliação alheia. Quem tem esse distúrbio se esquiva sistematicamente de contatos interpessoais – principalmente com pessoas do sexo oposto, desconhecidas ou autoridades – porque teme ser humilhado ou rejeitado.
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Dermi Azevedo, jornalista, pai de Carlos Alexandre, em frente ao prédio onde funcionava o Deops
O diagnóstico foi mencionado pela psicóloga Ana Maria Falvino, que tratou de Carlos Alexandre, num documento encaminhado à Comissão de Anistia. No texto, a psicóloga detalha a evolução do transtorno no paciente e situações relatadas pela família Azevedo. Mas não afirma categoricamente que o problema dele é consequência direta de tortura.  As situações vividas por CarlosAlexandre, no entanto, o inserem no grupo de risco descrito pela medicina. De acordo com o médico Márcio Bernik, coordenador do Ambulatório de  Transtornos de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, cerca de 30% dos casos de fobia social têm origem genética. Os outros  70% se devem a vivências complexas.Os pais são o primeiro modelo para a criança. Observar como eles lidam com  as adversidades, se enxergam o ambiente social como fonte de prazer e alegria ou como algo desconfortável e ameaçador, se são tímidos ou têm muitos amigos, é de extrema importância para o bom desenvolvimento infantil. Bernik afirma que crianças provocadas e maltratadas por colegas e que vivem experiências marcantes de rejeição e de sofrimento são mais suscetíveis à fobia social na vida adulta. Logo que Dermi deixou a prisão, em maio de 1974, a família toda se mudou para a sua terra natal, o Rio Grande do Norte. Primeiro foi para  Currais Novos, no interior do Estado. Em seguida para a capital, Natal. A violência psicológica e as agressões físicas – como as intermináveis sessões no pau de arara e os repetidos golpes na cabeça, chamados nos porões da ditadura de “telefone” – derrubaram Dermi. Durante um bom período, ele não foi capaz sequer de sair da cama. Passava o tempo todo coberto. Teve crises de paranoia e medo de tudo. Não podia trabalhar. O aperto financeiro desestabilizava ainda mais a família. Ele foi recuperando devagar a coragem de se levantar, ir à esquina, andar sozinho.
“Meses depois de sair da prisão, soube que o meu filho tinha sido vÍtima de choques elétricos e outras sevÍcias. ele foi jogado no chão e bateu a cabeça. maltratar um bebê é o suprassumo da crueldade”
“Dermi não se destruiu. Transformou o trauma numa batalha pela vida e continua lutando pela dignidade humana”,  avalia a psicanalista Miriam Schnaiderman, codiretora do documentário “Sobreviventes”, que narra experiências de pessoas que passaram por situações-limite. Enquanto Dermi tentava se recuperar, Darcy tinha de se desdobrar para dar conta da casa e dos filhos – do primogênito e de dois meninos que vieram depois. Carlos Alexandre demonstrou os primeiros sinais de isolamento já em Currais Novos. Não interagia com outras crianças, tornou-se agressivo e andava sempre triste. Às vezes, acordava agitado procurando pela mãe: “Mamãe, onde é o barulho do trem?” A sede do Deops, onde ele esteve detido durante algumas horas, era na região da Estação da Luz. De lá, dava para ouvir o som do vai e vem das composições. Apesar de a família estar longe de São Paulo, onde a perseguição seria mais severa, os Azevedo eram constantemente vigiados pelos militares locais e discriminados pela vizinhança. Viviam sendo apontados como “bandidos”, “terroristas” e tratados como se tivessem alguma doença contagiosa. Carlos Alexandre cresceu sob intensa pressão, testemunhando as crises do pai e a inquietude da mãe. Chorava para não ir à escola. Não suportava ficar distante dos pais. A instabilidade e a dinâmica familiar contribuíram para aumentar o afastamento de Carlos Alexandre. “A perseguição afetou os outros filhos, mas não de maneira tão intensa quanto ele”, relata Dermi. As mudanças de casa e de cidade eram constantes a ponto de os meninos não serem capazes de criar laços de amizade ou se adaptar completamente à escola.
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Darcy Andozia, pedagoga aposentada, mãe de Carlos Alexandre
O único período de relativa calmaria e imobilidade durou cerca de quatro anos – entre 1981 e o início de 1985, quando os Azevedo moraram em Piracicaba, no interior paulista. A filha mais nova nasceu lá. Todos eram respeitados. Darcy e Dermi tinham vínculo com uma universidade do município – já não eram encarados como “bandidos” ou “terroristas”, mas como intelectuais. E a ditadura militar caminhava para o fim. A saída de Piracicaba foi traumática para Carlos Alexandre. “Era o único lugar em que eu tinha amigos. Foi aí que me isolei de vez. Parei de estudar e me tranquei em casa”, lembra. Carlos Alexandre tinha acabado de entrar na adolescência. No interior paulista, costumava brincar na rua, jogar bola e frequentar festinhas vestindo short e camiseta. Não se importava muito com o figurino. Os novos desafios da cidade grande o fizeram submergir no medo.  Ele já não era mais convidado para festas, se sentia incapaz de dançar com as meninas e apanhava dos garotos cotidianamente. Quando tentava revidar, era pior. Apanhava mais. “Por ser introvertido, não ser muito bonito nem me vestir como eles, eu era humilhado e vivia sendo alvo de chacotas”, afirma. Carlos Alexandre sucumbiu à crueldade adolescente e se enterrou nas próprias fragilidades. Afirma ter passado cerca de sete anos (dos 13 aos 20) praticamente sem sair de casa. Tentou frequentar a escola. Não conseguiu. Nos momentos de nervosismo intenso, quebrava tudo o que encontrasse pela frente. Engordou 40 quilos em seis meses. Tentou o suicídio “algumas vezes”. Quando decidiu enfrentar o medo da rua, trabalhou como auxiliar de escritório.
“O meu filho apanhou dos policiais do deops porque estava chorando de fome. levou um tapa tão forte que cortou os lábios"
Ficou um ano no emprego – seu recorde com carteira assinada. Depois atuou como operador de microcomputador e diagramador. Interagir era tão penoso que Carlos Alexandre pediu demissão e foi demitido diversas vezes porque não suportava conviver com os colegas de trabalho. “As pessoas começavam a perguntar da minha vida: o que eu fazia, se tinha estudado, se tinha namorada, quem eu era, aonde eu ia. Acabava ficando um clima ruim”, conta. “Estar no meio de muitas pessoas é muito cansativo para mim. Falar também. Sair de casa e sentar num bar é um incômodo muito grande. Mas hoje já não entro em pânico porque estou em tratamento.” Um ou dois amigos visitam Carlos Alexandre esporadicamente. Vão ao apartamento que ele divide com a mãe na região central de São Paulo. Seus outros – raros – amigos são todos virtuais. Ao optar pela rede, ele se protege da sociedade. “Quando rompo o ciclo vicioso, consigo até ter uma vida. Mas tenho muito medo de recaídas”, diz. Atualmente, ele costuma sair três vezes por semana para ir à academia. De vez em quando, vai à banca comprar gibis japoneses. Sua rotina é singela. Mas Carlos Alexandre quer mais. “Não sou feliz. Sinto vergonha de não trabalhar. Também gostaria de ter uma família minha, com mulher e filhos. Mas tenho consciência de que devo dar um passo de cada vez. Talvez, com um pouco de sorte, eu consiga recomeçar. Mesmo estando com 37 anos.”
COMPORTAMENTO
|  N° Edição:  2099 |  29.Jan.10 - 21:00 |  Atualizado em 17.Fev.13 - 16:15
 ISTO É
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terça-feira, 12 de fevereiro de 2013


O instinto da Loba e a batalha da Maria Antonia


Emiliano José*

Eu passei pela Consolação outro dia, subindo, olhei pro lado, e pensei na Maria Antônia, na batalha de Maria Antônia. Foi ali que conheci Zé Dirceu, que convivi com Travassos, que ouvi Genoíno na tribuna, que me aproximei de Adura mais e mais, de Trindade, de tantos outros. Era uma espécie de comitê central do movimento estudantil, para onde todos nós, universitários e secundaristas, acorríamos em busca de luzes, de diretrizes para a continuidade da luta contra a ditadura que assustava o País, menos a nós, que nos considerávamos invencíveis ou ao menos nunca queríamos retroceder. Coisas dos nossos ideais e de nossa juventude, e ainda bem que em muitos de nós ainda sobra disposição para a luta nos dias que correm.
O hoje Centro Cultural Maria Antonia. Ícone de exibição de monicaewagner Foto: Galeria de monicaewagner/Flickr
O hoje Centro Cultural Maria Antonia. Ícone de exibição de monicaewagner
Foto: Galeria de monicaewagner/Flickr
Não quero falar de tudo isso. Fica pra outra hora. Quero apenas falar da Loba e de seu instinto de luta e de amor pela vida – quero retornar no tempo, chegar a 3 de outubro daquele extraordinário ano de 1968, outubro, já próximo da tragédia do AI-5, do qual nós, na nossa inocência e triunfalismo, sequer desconfiávamos. Falar de Mirtes – se quiserem o nome todo já revelo: Mirtes Semeraro de Alcântara Nogueira, hoje recolhida à beira das praias de Fortaleza, cheia de carinho com seus netos.
Foi protagonista da já famosa Batalha da Maria Antônia, embate que envolveu estudantes do Mackenzie vinculados ao Comando de Caça aos Comunistas (CCC) e os da Faculdade de Filosofia da USP, unidades que ficavam frente a frente todo dia, e que naquele dia enfrentaram-se. Aqueles constituindo-se como um grupo paramilitar, armados das mais variadas maneiras. Os da USP, reagindo com paus e pedras. Mirtes estava lá, no meio do fogo, na ousadia, no vigor e no frescor de seus 16 anos.
Em maio daquele ano, fora expulsa do Colégio Estadual Justiniano de Serpa, em Fortaleza, por decisão da diretora Adísia Sá. Simples: como presidente do Grêmio, opôs-se à cobrança de taxas no estabelecimento. A expulsão de Mirtes provocou reações, ganhando corpo com “A revolta das saias”, impressionante sublevação estudantil feminina, e a diretora acabou caindo, sem, no entanto, desistir da perseguição: delatou Mirtes à repressão.
A casa dela foi invadida por militares fortemente armados, metralhadoras em punho. Escalou muros e se abrigou no forro da casa de um vizinho. Cedo, muito cedo, teve que se tornar uma clandestina. A ditadura a empurrou para isso.
Mirtes era, também, da diretoria do Centro de Estudantes Secundaristas do Estado do Ceará (CESC) e já militava na organização revolucionária Ação Popular (AP). Foi escolhida para representar os estudantes secundaristas cearenses no Encontro Nacional da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), que se realizou em Guaratinguetá, São Paulo, fim de setembro, início de outubro.
Nesse encontro, fui eleito um dos vice-presidentes da entidade, e foi quando conheci Mirtes, de pernas tão lindas, me desculpem o detalhe, e mais à frente o leitor compreenderá. A diretoria tinha Marco Melo na presidência, e vários vice-presidentes, entre os quais Bernardo Jofilly, Antonio Luís, Euler Ivo, Fernando, e a minha memória não alcança os demais.
O pretexto dos mackenzistas da extrema-direita foi um pedágio organizado pelos secundaristas na Maria Antonia, em frente ao prédio da USP e ao do Mackenzie, naturalmente. Queriam conseguir recursos para voltar aos seus estados de origem, procedimento muito comum do movimento estudantil de então, e sempre muito bem recebido pela população.
De repente, o fogo. Um ataque cerrado contra a meninada, e os universitários da USP vieram em socorro deles, inclusive Luís Travassos, presidente da UNE, e Zé Dirceu, além de outros dirigentes que estavam na Maria Antonia. Os secundaristas e os universitários da USP tentaram arrombar os portões do Mackenzie em reação a tanta violência. Medo não era coisa que habitava nossos corações àquela época e àquela idade.
Mirtes, de repente, sentiu algo quente, muito quente, cair nela, em suas pernas.
- Puta que pariu! Estão jogando mijo na gente! Baixinho, o fedor é grande! ela gritou, num quase pedido de socorro.
Caiu.
E percebeu que fora atingida gravemente:
- Tô ferrada. Não consigo ficar em pé, cara!
Fora atingida por duas garrafas de ácido sulfúrico. Isso mesmo: ácido sulfúrico. A direita em fúria não brinca.
Travassos viu quando ela caiu. Correu, estreitou-a nos braços, suspendeu-a, deu-lhe colo, carregou-a, que Mirtes não conseguia mais andar.
Era um cenário de guerra: Socorro, secundarista de Goiás, também sentiu o ácido em seu corpo, outro estudante experimentou o ácido na proximidade dos olhos e na barriga e mais tarde os mackenzistas balearam e mataram José Guimarães, um secundarista. Lembro apenas desses exemplos para evidenciar que o CCC estava disposto a matar e a ferir, como matou e feriu.  A direita em fúria não brinca.
Travassos carregou Mirtes para o prédio da Faculdade de Filosofia, e os primeiros socorros dos colegas universitários consistiram em leite e manteiga nas queimaduras que se agravavam. Como a polícia estava pronta para invadir, tiraram-na de lá, junto com os outros feridos, e levaram-na para o Hospital das Clínicas. Alunos quintanistas prestavam os primeiros socorros, quando se soube que policiais chegavam em busca dos que tinham sido atingidos.
Mirtes foi retirada em cadeira de rodas para o subsolo do hospital, onde funcionava a ortopedia. De lá, ela e Socorro, depois de algum tempo escondidas, foram levadas para o Conjunto Residencial da Cidade Universitária da USP (CRUSP). Na primeira noite, Jean Marc, que seria o próximo presidente da UNE, dormiu ao lado de Mirtes e Socorro.
O CRUSP, entanto, rapidamente deixou de ser seguro. Havia ameaça de invasão iminente. Um médico do CRUSP olhou as pernas de Mirtes, e manifestou muita apreensão: havia risco de gangrena, e isso reclamava cuidados médicos e hospitalares urgentes, impossíveis ali. A todos, ainda por cima, causava horror a condição das pernas de Mirtes, que já fediam, os curativos desmanchavam-se.
Após três dias, Mirtes e os demais foram retirados do CRUSP. Poucas horas depois, tropas invadiram o conjunto residencial. Mirtes terminou acolhida por um anjo protetor e destemido, que é como ela chama Therezinha Zerbini. A mãe de Therezinha, dona de farmácia, disse que as gazes deviam ser retiradas, e as feridas, limpas. Chamou o médico Samuel Pessoa, que insistiu na gravidade do caso e do risco de gangrena.
Alguns dias transcorreram, as queimaduras se agravavam e o risco de perder uma das pernas, crescia. Therezinha se decidiu: levou-a ao Hospital Samaritano: é minha afilhada, queimou-se numa experiência de química. Mirtes fez várias cirurgias, enxertos, e as marcas no corpo e na alma nunca se dissiparam, sem que isso tudo conseguisse torná-la uma mulher amarga.
Cinco médicos se debruçaram amorosamente sobre suas feridas, quatro cirurgias, três raspagens para a retirada dos tecidos necrosados, acompanhadas de tratamento tópico para debelar o processo infeccioso e inflamatório, com muito antibiótico. Para passar o tempo, Mirtes deu-se de cartomante, e lia a mão de todo mundo: atendia funcionários, pacientes e acompanhantes de todos os andares do hospital, distribuía aconselhamentos a torto e a direito, não sabe se tão úteis e precisos assim. Que fez sucesso, fez. E que isso ajudava a amenizar o sofrimento dela, não há dúvida.
Há algum humor no sofrimento, senão como resistir? Dois companheiros nossos, da diretoria da UBES, Antonio Luís, de Minas Gerais, e Euler Ivo, de Goiás, resolveram visitá-la. Mirtes pôs-se a descrever todos os aspectos da enfermidade e do tratamento a que estava sendo submetida. Já não havia mais tecidos necrosados em suas pernas, mas por baixo dos algodões, gases e ataduras, embebidos em soro fisiológico e líquido de Daken, havia uma infecção purulenta amarelo-esverdeada. Mirtes ponderou que não era aconselhável que assistissem à troca de curativo que estava prestes a acontecer: “vocês podem se impressionar, levar um susto, não aguentar”.
Reagiram ofendidos, estavam com ela no melhor e no pior, como não ficar pra ver? Quando algodões gases e ataduras foram removidos, e os dois depararam com as pernas fétidas e desfiguradas, os nobres e valentes cavalheiros subitamente empalideceram e simplesmente desmaiaram. O hospital cuidou carinhosamente dos dois até que voltassem a si e compreendessem que as mulheres conhecem até onde os homens podem ir. E grosso modo, podem menos do que elas.
Voltou para o Ceará. Meados de 1969, foi presa numa pichação contra Rockfeller. Ao ser liberada, um mês depois, caiu na mais absoluta clandestinidade, sempre na AP. Avó de José Lucas, Carlos Eduardo e Clarice, sobreviveu recordando Leon Bloy – “sofrer passa, ter sofrido não passa nunca”. Lembra-se sempre, para falar de coisas boas da humanidade, de seus anjos bons – além de Therezinha Zerbini, recorda-se de Ada, de Jovina Pessoa, de Samuel Pessoa, do doutor Madeira, todos profundamente solidários e dispostos a correr todos os riscos, e nenhum deles tinha qualquer relação anterior com ela.
Conheci Therezinha Zerbini, estive na casa dela em 1968, ou 1969, e poucos não estiveram naqueles ásperos tempos. Mais conhecida que as outras, dela não preciso falar, Paulo Moreira Leite a apresentou brilhantemente no seu livro A mulher que era o general da casa. Jovina Pessoa, também conhecida. De Ada Oliveira, gostaria de falar muito, mas não será aqui. Foi uma lutadora rara, dessas mães à Gorki, me lembro de sua casa na Zuquim, caminho da roça para o Jaçanã à época, onde eu morava. Mãe de Pedro, de Ana, de Luiz, de Marina e de Ângela, sua casa era um abrigo acolhedor e intelectualizado da esquerda em Santana. Ela e Therezinha e Jovina lideravam o movimento “Mães Paulistas Contra a Violência”.  
Já fiz isso num outro artigo para o jornal A Tarde: dou a palavra a Mirtes, palavras escolhidas a esmo de seu conto – ou novela ou confissões de um tempo que não passa – denominadoEstrovenga:
“Aviso: sigo minha própria sombra, nado em fumaças. Vasta chuva no molhado e a inspiração de brumas. Alucinação ou fumaça, meu intervalo de culpas prega-se em fios. Débil grito principio, entretanto venho aos uivos, quase instinto de loba. A tosse do século passado remonta-se. Barulheira sob túmulos. Página virada, volto à estrada caminho de luzes. Um dia nosso pouso será todo paz.”

*Emiliano José é jornalista e escritor

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013


Zé Dirceu  uni-se  definitivamente à nossa luta  para provar os erros  do STF  que a Revista Retrato do Brasil publicou inocentando o companheiro Henrique Pizzolato. Acredito que agora o PT se unirá em torno de um objetivo comum... Provar os erros do STF e inocentar  Henrique Pizzolato para que seja desfeita  na sua base  a frasa de tudo isso.
Não houve desvios do Banco do Brasil! Podemos provar!
O PT sabe disso!
O Banco do Brasil sabe disso!
O Joaquim Barbosa sabia disso!
E agora, mesmo sem a ajuda da mídia... O povoo sabe disso e pode verificar nos documentos oficiais!
Acabou a farsa!
Precisamos ser multiplicadores!



 
É preciso enfrentar a ofensiva que a direita está fazendo no país contra o nosso projeto político
Publicado em 31-Jan-2013
ImageO título deste post foi tirado de uma das minhas declarações dadas ontem no excelente encontro no Rio na sede da ABI (Associação Brasileira de Imprensa) para discutir o julgamento da AP 470, chamado pela imprensa de julgamento do mensalão, no qual fui condenado sem provas. Mais de seiscentas pessoas estiveram no local.

O debate foi organizado pela CUT em parceria com o Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé. Também estiveram presentes os jornalistas Raimundo Pereira e Altamiro Borges, o advogado Adriano Pilatti, professor da PUC-Rio, e Fernanda Carísio, integrante da Executiva do PT-RJ e ex-presidente do Sindicato dos Bancários do Rio.

Mas quero começar destacando alguns trechos da excelente fala da jornalista Hildegard Angel, que também esteve lá:

"Venho, como cidadã, como jornalista, que há mais de 40 anos milita na imprensa de meu país, e como vítima direta do Estado Brasileiro em seu último período de exceção, quando me roubou três familiares, manifestar publicamente minha indignação e sobretudo minha decepção, meu constrangimento, meu desconforto, minha tristeza, perante o lamentável espetáculo que nosso Supremo Tribunal Federal ofereceu ao país e ao mundo, durante o julgamento da Ação Penal 470, apelidada de Mensalão, que eu pessoalmente chamo de Mentirão."

Image“Vimos aquele show de deduções, de indícios, de ausências de provas, de contorcionismos jurídicos, jurisprudências pós-modernas, criatividades inéditas nunca dantes aplicadas serem retiradas de sob as capas e utilizadas para as condenações.”  

“A grande maioria dos que conheço não pensa como eu. Os que leem minhas colunas sociais não pensam como eu. Os que eu frequento as festas também não pensam. Mas eles estão bem protegidos. Importa-me os que não conheço e não me conhecem, o grande Brasil, o que está completamente fragilizado e exposto à manipulação de uma mídia voraz, impiedosa e que só vê seus próprios interesses. Grandes e poderosos. E que para isso não mede limites. Esta mídia que manipula, oprime, seduz, conduz, coopta, esta não me encanta. E é ela que manda.”

Clique aqui para ler a íntegra da fala de Hildegard Angel  E vejaaqui o vídeo.

Ofensiva da direita

No debate, eu chamei atenção para a importância de levarmos adiante a luta política, não apenas pelas condenações sem provas impostas pelo STF, mas também porque ela se dá em uma escala mais ampla. É uma ofensiva conservadora e midiática contra o PT, contra o ex-presidente Lula e contra o nosso governo.

Destaco abaixo alguns trechos da minha fala no debate:

"A necessidade dessa luta política não é apenas pelo julgamento. É enfrentar a ofensiva que está havendo contra o companheiro Lula e contra o governo da presidenta Dilma. É preciso enfrentar a ofensiva que a direita está fazendo no país contra o nosso projeto político."

"Sempre que digo para ir às ruas, dizem que é uma afronta à democracia e ao STF. Pelo contrário, é um serviço que fazemos à democracia e à Suprema Corte. Temos que fazer a disputa do que foi o julgamento, o julgamento do julgamento. Temos que fazer uma anticampanha. Foi feito uma campanha para criar as condições para que o julgamento se desse como se deu.”

"Onde estão os nossos? Quando o procurador da República diz que vai enviar para os procuradores de primeira instância as denúncias do Marcos Valério sobre as relações com o presidente Lula, quem é que foi para a tribuna denunciar isso?"

"Sofri uma devassa da Receita por três anos, de 2006 a 2009. Recebi um atestado de honestidade. Mas toda a imprensa divulga como se eu tivesse me enriquecido no governo e no mensalão. Há uma campanha de tentar nos desmoralizar."

"O julgamento teve quatro meses e parou de julgar toda a sua pauta, por algo que era transmitido por TV aberta. Algo que não existe. Sendo assim, se transformou num julgamento de exceção. Perdemos essa batalha. Foi a primeira derrota que tivemos desde 2002.”

E deixei claro mais uma vez que vou lutar até que a verdade seja provada:

"Pode ser regime fechado, pode ser segurança máxima, pode ser solitária. Não vão me calar. Eu vou lutar."

“Eu optei por lutar, apesar do linchamento e da violência da imprensa. Sabia que era um julgamento do governo Lula, do PT e do nosso projeto.”

“Vou percorrer todo o Brasil. É uma luta longa que só está começando.”


"Quem fala em nome da nação é o Congresso Nacional, o parlamento brasileiro. Ministro do Supremo não fala em nome da nação."


Eu também falei sobre o temor que os meios de comunicação tem da regulamentação da mídia, algo que já existe em diversos outros países democráticos, mas que aqui é atacado violentamente. Aí a imprensa parte para a ofensiva de desmoralizar os políticos para impedir esse debate:

"É o caminho das ditaduras, uma tentativa de desmoralizar a política, os políticos e o Congresso."

"No dia em que o Congresso não tiver medo da Globo, da mídia, faz a regulação."

"É uma batalha dificílima contra o monopólio dos meios de comunicação. Há uma perda de qualidade e conteúdo nos jornais, porque passaram a partidarizar qualquer análise econômica, com campanhas de sabotagem sobre a própria economia do país.”

 “Se existisse democracia nos meios de comunicação não estaríamos aqui. Seriamos absolvidos.”

Ainda vou tratar mais desse encontro nos próximos posts, com importantes trechos de outros participantes também. Mas já queria compartilhar com vocês como foi um pouco desse evento no Rio.

Clique nas imagens abaixo e confira os vídeos:
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Parte 2


Leia também: Setores do Ministério Público têm atuação partidária, diz Falcão

(Fotos: Clarisse Chalréo)
in http://www.zedirceu.com.br/index.php?option=com_content&task=blogcategory&id=1&Itemid=2