LUIZ PAULO DA CRUZ NUNES (1947 - 1968)
Filiação: Lucia da Cruz Nunes e Álvaro Goulart Nunes
Data e local de nascimento: 13/10/1947, Rio de Janeiro (RJ)
Organização política ou atividade: Movimento Estudantil
Data e local da morte: 22/10/1968, Rio de Janeiro (RJ)
O estudante Luiz Paulo da Cruz Nunes cursava o segundo ano da Faculdade de Medicina da UERJ (à época Universidade do Estado da Guanabara), sendo também estagiário em
patologia, quando foi morto, aos 21 anos, no Rio de Janeiro, depois ter sido atingido por um tiro em manifestação estudantil em frente à sua faculdade, no dia 22/10/1968. Internado no
próprio Hospital Pedro Ernesto, local da manifestação, com ferimento no crânio, foi operado mas faleceu na mesma data. A necrópsia foi realizada pelos legistas João Guilherme Figueiredo e Nelson Caparelli.
De acordo com o médico Lafayette Pereira, colega de turma de Luiz Paulo, os dois estiveram com cerca de outros 600 alunos protestando contra o regime militar no dia 22/10/1968, à tarde, em frente ao Hospital Pedro Ernesto, no bairro de Vila Isabel, quando um camburão da polícia estacionou em frente aos manifestantes e cinco pessoas armadas com pistolas calibre 45 saltaram e descarregaram suas armas contra eles. Acuados pela estreita porta de entrada para o hospital, não tiveram para onde correr. Cerca de 10 colegas foram baleados,mas o único com gravidade foi Luiz Paulo, atingido na cabeça. "Faleceu na mesa de cirurgia do hospital que ele, ainda jovem, já gostava de freqüentar como estudante brilhante que foi. Assisti à luta dos neurocirurgiões para salvar-lhe a vida. Teve duas paradas cardíacas que foram recuperadas e uma terceira, definitiva, às 21 horas", contou Lafayette. Cópia da certidão de óbito juntada aos autos estabelece como causa mortis: "Ferida penetrante do crânio com destruição parcial do tecido nervoso e hemorragia das meninges".
O jornal Correio da Manhã de 23/10/1968 estampou: Polícia mata estudante a tiros e ataca Hospital das Clínicas. A matéria descreve: "Pela manhã foram realizadas duas
passeatas e várias assembléias internas. Depois das 12h os estudantes da UEG foram para a porta do Hospital das Clinicas e estavam inaugurando a estátua Liberdade-68
quando foram atacados por agentes do DOPS, a tiros. Três policiais foram feridos em lutas corporais. Depois do primeiro choque os estudantes foram para dentro do hospital,
que funciona junto da Faculdade de Ciências Médicas, em Vila Isabel, e os policiais os cercaram totalmente. Mas numa das salas do hospital a luta continuava: um aluno do
segundo ano de Medicina, Luiz Paulo Cruz Nunes, de 23 anos, baleado no crânio, não resistiu a duas horas de operação, respiração artificial e choques elétricos no coração. Às
nove da noite, estava morto".
Para o relator do processo na CEMDP, "as publicações anexadas provaram ter havido o cerco total do Hospital Pedro Ernesto, na parte da tarde do dia 22 de outubro de 1968.
Luís Paulo, consoante certidão de óbito, faleceu às 21h40. Tendo ele sobrevivido aos tiros e sofrido longa intervenção cirúrgica, é razoável crer ter sido o mesmo atingido ao entardecer do dia em tela, quando, comprovadamente, a dependência universitária, em que os estudantes se haviam refugiado, já estava cercada pela polícia. Não fere à lógica,
portanto, considerar que tenha falecido em dependência policial assemelhada devido ao estado de sítio e cerco total no qual se encontravam". A CEMDP votou o deferimento
do pedido por unanimidade.
LUIS PAULO CRUZ NUNES
Estagiário de Patologia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual
do Rio de Janeiro.
Morto aos 21 anos de idade, no Rio de Janeiro, em 22 de outubro de 1968, quando foi atingido por um tiro em manifestação estudantil em frente à Universidade Estadual do Rio
de Janeiro (UERJ). Levado para o Hospital Pedro Ernesto com ferimento no crânio, foi
operado e faleceu no mesmo dia.
A necrópsia foi realizada pelos Drs. João Guilherme Figueiredo e Nelson Caparelli.
Foi retirado pelo tio, Oscar Freire de Sá Siqueira, e sepultado pela família no Cemitério São Francisco Xavier.
Jornal da Tarde sábado, 25 outubro de 2008
Censura, nunca mais
A turma de 1967 de medicina da Uerj colou grau ontem, 36 anos depois de ter sido proibida de homenagear colega morto por militares e impossibilitada de concluir a formatura iniciada em 13 de dezembro de 1972, durante a ditadura, conforme o JT antecipou na edição do dia 12
Luísa Alcalde
Sob o sol forte de 33 graus que fez ontem no Rio - algumas coisas nunca mudam -, médicos sessentões jogaram para o alto chapéus que cobriam cabelos grisalhos encerrando, com o ato, a formatura da turma de medicina da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) iniciada 36 anos atrás e censurada no meio da festa pela ditadura.
Eles se sentiram de alma lavada. Minutos antes, ouviram pedido de desculpa oficial da reitoria da Uerj pela forma "arbitrária" com que a cerimônia foi encerrada em 13 dezembro de 1972 pelo então diretor da Faculdade de Ciências Médicas, Jayme Landmann, já falecido.
O reitor atual, Ricardo Vieiralves, disse que os antigos estudantes deveriam se sentir, enfim, reconciliados com a universidade. "A ditadura acabou. Muito se passou. Sentimos muito orgulho da luta de cada um de vocês",
testemunhou.
A emoção tomou conta de todos. Houve choro. Principalmente quando o sobrinho do patrono da turma (a de 1967), Luiz Paulo da Cruz Nunes - morto por homens do Dops em 1968 durante manifestação estudantil pacífica em frente ao Hospital Universitário Pedro Ernesto, no segundo ano do curso - fez um discurso emocionado.
Antônio Paulo, também formado médico e representando o tio na formatura, lembrou passagens da infância quando a avó, mãe de Luiz Paulo, o levava para almoçar na cantina dos médicos em frente ao hospital onde o tio foi morto.
No local, dona Lúcia costumava chorar copiosamente, amargurada com o sofrimento do filho. "Eu era muito pequeno e ainda não entendia tudo aquilo. Tanto a minha avó quanto o meu avô Álvaro morreram sem ter aquela ferida cicatrizada", disse Antônio Paulo, aos prantos. "Eu não conheci o Luiz Paulo. Mas conheço o sofrimento da minha família." Foi aplaudido de pé.
Outro momento forte da cerimônia aconteceu quando o orador pôde, 36 anos depois, ler o discurso da turma na íntegra, sem ser interrompido pelas mazelas do regime militar. Na época, a repressão considerou o texto subversivo. Landmann, cumprindo ordens do Dops, proibiu sua leitura.
Texto proibido
Quem fez a vez de orador ontem foi o cirurgião plástico Ricardo Pieranti. Ele leu o texto guardado pelos estudantes esse tempo todo.
"Lá se foi o desventurado Luiz Paulo, para nunca mais, deixando a dor no lar construído por seus pais e fundos ressentimentos no coração de todos nós. Sua juventude em flor somava esperanças que malograram e perdeu-se na estúpida façanha de um policial assassino. Por que incluir no ânimo dos moços a desconfiança implacável? Que fez Luiz Paulo, para ser morto como se o seu instinto fosse o de uma fera? Que trevas terríveis caem sobre todos nós. Seu grande crime: ser digno, brioso e inteligente. Possuir ideal, querer ao estudo e desejar ser, na medicina, para servir ao Brasil e à Humanidade. Quem é o assassino? Que folha corrida haverá de possuir, em confronto com o da vítima? De qual dos dois mais precisaria a nossa Pátria?"
Para ouvir pela primeira vez o discurso de 1972, o médico ortopedista Paulo Afonso Lourega de Menezes, de 60 anos, levou a mãe, Ione, a mulher, Maria Rosita, dois filhos e Clara, neta de dois meses à Capela Ecumênica da Uerj na manhã de ontem. Ione, com 81 anos, não imaginava que ainda iria à formatura do filho. "Naquela época, o encerramento foi um choque. Como tenho idade, imaginei que não veria mais esta festa linda", disse ela.
O grupo fez um minuto de silêncio pelos colegas que se foram. "Devolveram nossa identidade. Uma das maiores violências é impedir que alguém tenha crenças, valores e identidade", afirmou o pneumologista José Valverde, de 60 anos também. "Tomei remédio antes de vir para cá para suportar a emoção."
O paraninfo da turma, Pedro Sampaio, com 98 anos hoje, também leu o discurso que preparara 36 anos antes. "Esses médicos conseguiram transformar noite tão triste numa linda manhã de alegria."
Ostentando crachá no peito com foto da época em que era estudante de medicina, o cirurgião Cláudio de Castro Lázaro disse ter a alegria renovada com a conclusão da formatura. "Para reconhecer os colegas, tenho de olhar nas fotos."
O cirurgião plástico Fernando Pinto Bravo colocou no dedo o anel de formatura nunca usado. O cientista político Valter Ferreira Duarte, mentor intelectual da "reformatura", foi homenageado pelos colegas, assim como o médico Ivan Matias. No dia da manifestação estudantil que tombou Luiz Paulo, Matias encerrava plantão no hospital universitário e pulou o muro para voltar e operar os feridos.
A parte descontraída da festa se deu quando fotos da época de todos os formandos foram exibidas em um telão, ao som de Canção da América, de Milton Nascimento. O grupo se divertiu comentando cortes de cabelo, bigodes e modelos de óculos adotados três décadas atrás. "Estão todos gordos", disse Maria Reis, 75 anos, secretária da turma.
Luis Fernando Ramadon
UERJ - Uma História Apaixonante
O MOVIMENTO ESTUDANTIL DA UERJ - II
O ano de 1968 - O Assassinato de Luiz Paulo da Cruz Nunes - O ano de 1969 -
O ANO DE 1968
O ano de 1968 iniciou de uma forma trágica. No dia 28 de março, morreu baleado o estudante Edson Luiz de Lima Souto, no Restaurante Calabouço, no Centro do Rio. Uma revolta muito grande se instalou no meio estudantil, provocando no dia seguinte, um gigantesco cortejo para o enterro, reunindo cerca de 50.000 pessoas. No dia 1o de abril, os estudantes, com paus e pedras nas mãos, obrigaram cerca de 1.500 policiais, com cassetes e bombas de gás lacrimogêneo, a recuarem, tamanha era a sua disposição. O conflito só terminou quando o Exército ocupou as ruas e matou mais um estudante: Davi de Souza Neiva. No dia 5 de abril, ao final da missa de sétimo dia, na Igreja da Candelária, a cavalaria da PM espancou os participantes, com golpes de sabre e só não houve um massacre em função dos religiosos, que tendo à frente o vigário-geral do Rio de Janeiro, D. José de Castro Pinto, ficaram entre os estudantes e a cavalaria com seus crucifixos levantados, num ato de extrema coragem.
Outro fato que mereceu destaque nacional ocorreu em abril, quando o Capitão Sérgio Miranda de Carvalho, conhecido como "Capitão Sérgio Macaco", do PARA-SAR, da Aeronáutica, se recusou (e denunciou publicamente) a cumprir as ordens do Brigadeiro João Paulo Burnier, Chefe de Gabinete do Ministro da Aeronáutica Márcio de Souza e Mello, de explodir os gasômetros da Avenida Brasil, no Rio de Janeiro, o que ocasionaria milhares de mortes. O ato terrorista seria atribuído à esquerda e serviria de pretexto para se fechar mais ainda o regime. Por seu ato heróico, por ter salvo milhares de vidas, o Capitão Sérgio Macaco foi expulso da Aeronáutica. Veio a falecer em fevereiro de 1994, sem ter desfrutado da sua nomeação como Brigadeiro, que lutava na Justiça desde a Anistia, em 1979.
Neste mesmo mês, no dia 20, uma bomba explodiu no Edifício do Jornal "O Estado de São Paulo", sendo o atentado foi atribuído ao II Exército.
Na UERJ, no dia 25 de abril, através do Ato Executivo no 82, o Reitor regulamentou a participação da representação discente, de acordo com o Decreto-Lei no 228, de 28 de fevereiro de 1967. Além das regulamentações previstas no Decreto-Lei, ficou estabelecido que nenhuma assembléia de alunos poderia ser realizada em unidade universitária sem convocação formalizada com a indicação dos fins, sem autorização do respectivo Diretor e sem a existência do quorum de maioria absoluta de seus membros. Para a eficácia dessas medidas, o Diretor deveria designar um representante para fiscalizar cada assembléia. Foram extintos os percentuais destinados à manutenção das Representações Estudantis. Os membros de qualquer órgão estudantil, tinham a seu dispor a cooperação, em caráter contínuo e permanente de um Assessor de Assuntos Estudantis, lotado no Gabinete do Reitor. O primeiro Assessor foi o Professor Kleber Gallart.
O tempo passava e a situação política do País se tornava mais violenta. Os militares que haviam tomado a nossa liberdade também queriam tomar a nossa dignidade. No dia 19 de junho de 1968, durante uma assembléia realizada na Faculdade de Economia da UFRJ, na Praia Vermelha, a Polícia Militar invadiu a Universidade e espancou os estudantes, cerca de 400, culminando com todos deitados no chão com os policiais urinando em cima deles e passando o cassetete no meio das pernas das moças. O episódio ficou conhecido como "O Massacre da Praia Vermelha".
Em resposta, no dia seguinte ocorreu o que veio se chamar de "Sexta-Feira Sangrenta", que foi uma luta campal, no Centro do Rio, com o povo, do alto dos prédios da avenida Rio Branco, jogando pedras, máquinas de escrever e tudo mais que encontrava pela frente, contra a polícia, que atirava bombas dos helicópteros e com metralhadoras ia acertando os populares. Além de um PM morto devido ao arremesso de um balde de cimento, jogado por um operário de um prédio em construção, diversas pessoas sucumbiram na manifestação.
Na semana seguinte, no dia 26 de junho de 1968, aconteceu, no Centro do Rio, a última grande manifestação popular contra a ditadura, que foi a "Passeata dos Cem Mil". Lá estavam, na linha de frente, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Tônia Carrero, Paulo Autran, Othin Bastos, Edu Lobo, Norma Bengell, Nana Caymmi, Wladimir Palmeira, Franklin Martins, José Dirceu, Marcos Medeiros, Jean-Marc Van der Weid (Presidente da UNE) e todo o povo brasileiro que era a favor da liberdade e da justiça social, presentes, mesmo que de coração. As palavras de ordem eram: "você que é explorado não fique aí parado", "o povo organizado derruba a ditadura", "libertem nossos presos" e "mais verbas, mais vagas, abaixo o MEC-USAID". Desta vez, o que jogavam dos prédios eram papéis picados. A passeata sem incidentes, pois fora autorizada, encerrou com a queima de uma bandeira dos Estados Unidos. Uma comissão formada por lideranças estudantis, foi formada depois da passeata para entregar ao Presidente Marechal Costa e Silva uma série de reivindicações. No dia do encontro, além da comissão ser tratada rispidamente, o Presidente não aceitou nenhuma das argumentações apresentadas.
Na UERJ, uma vitória importante foi conseguida pelo Movimento Estudantil, dois dias depois da "Passeata dos Cem Mil". No dia 28 de junho, o Reitor João Lyra Filho revogou o Ato Executivo no 82, através do Ato Executivo no 95, "em função de seu apreço pelas generalizadas manifestações da comunidade estudantil contra o referido ato, que apenas adjetivava as normas subsistentes no Decreto-Lei no 228"[4]. As manifestações ocorreram no dia anterior, quando os alunos da UEG concentraram-se na porta da Reitoria, exibindo cartazes contra o "Ato 82" e contra o "Decreto Aragão". O Reitor comprometeu-se em colaborar, junto com os membros do Conselho Universitário, no preparo de um novo texto, que consubstanciando uma minuta de anteprojeto, pudesse ser considerado como base de revisão do Decreto-Lei.
Com a finalidade de "promover estágios de serviço para estudantes universitários, objetivando conduzir a juventude a participar do processo de integração nacional", o Presidente Arthur da Costa e Silva instituiu, em 28 de julho de 1968, em caráter permanente, um grupo de trabalho denominado "Projeto Rondon", cujo idealizador foi o Professor da UEG, Wilson Choeri, que organizou uma expedição à Rondônia, em julho de 1967, composta de vinte e sete alunos e dois professores liderados pelo também Professor da UEG, Omir Fontoura. O lema era "Integrar para não entregar".
No final de 68, alguns fatos marcaram o início dos verdadeiros anos de chumbo. No dia 12 de outubro, a polícia prendeu 739 estudantes, durante o XXX Congresso da UNE, numa fazenda em Ibiúna, São Paulo. No dia 22 de outubro, foi assassinado pela polícia, durante uma manifestação de repúdio contra os presos no Congresso da UNE, dentro do Hospital da UEG, o aluno da Faculdade de Medicina Luiz Paulo da Cruz Nunes. E no dia 13 dezembro, entrou em vigor o famigerado Ato Institucional no 5, que decretou o recesso do Congresso Nacional; instituiu a censura prévia; a suspensão dos direitos políticos e das garantias constitucionais ou legais. O preâmbulo deste ato demonstrava claramente, sem meias palavras para que veio:
"... atos nitidamente subversivos, oriundos dos mais distintos setores políticos e culturais, comprovam que os instrumentos jurídicos, que a revolução vitoriosa outorgou à Nação para a sua defesa, desenvolvimento e bem-estar de seu povo, estão servindo de meios para combate-la e destruí-la".
Em 28 de dezembro de 1968, a Lei no 5.540 fez uma profunda modificação no Ensino Superior Brasileiro, com a extinção da Cátedra, até então era vitalícia, como unidade básica de ensino. Estabeleceu que o Departamento passasse a constituir a menor fração da estrutura universitária. Determinou a integração do ensino com a pesquisa e a reunião dos estudos afins das carreiras profissionais em Institutos Centrais de Ciências Básicas. Criou o regime de créditos e estabeleceu a unificação do vestibular.
O sentido desta lei seria a diminuição do custo médio do estudante, permitindo a expansão das matrículas a custos adicionais menos que proporcionais. Esta Lei provocou "uma progressiva aceleração do processo de privatização e do empresariamento do ensino; a crescente desobrigação do Estado com o financiamento das Universidades; e a omissão do poder público na definição de uma política educacional que assegurasse efetivamente condições reais de ensino e pesquisa na produção acadêmica"[5]. O Decreto-Lei no 405, da mesma data, determinava a transferência de recursos financeiros adicionais às escolas superiores com o fim de ampliação das vagas nos vestibulares de 1969.
O ano de 68 terminou com 13 pessoas com seu direitos políticos ou mandatos cassados.
O Assassinato de Luiz Paulo da Cruz Nunes
O ano era o de 1968. A Ditadura avançava com as Leis Suplicy e Aragão. Os estudantes elaboravam formas pacíficas de protesto contra as prisões políticas e o fim da liberdade.
O Movimento Estudantil determinou o dia 22 de outubro, como o "Dia Estadual de Protesto", em função da prisão dos estudantes no XXX Congresso da UNE, em Ibiúna no Estado de São Paulo. O Centro Acadêmico "Sir Alexander Fleming", da Faculdade de Ciências Médicas, da UEG, organizou suas manifestações com a exibição do filme "Os Companheiros", de Monicelli, na parte da manhã e a inauguração de um boneco de seis metros de altura, representando um Policial Militar segurando com uma mão um cassetete e com a outra uma metralhadora, com os seguintes dizeres numa placa: "Estátua da 'Liberdade'/ Brasil-68". Esta atividade teve início às 13:00 horas, e mal os estudantes ocuparam a Boulevard 28 de setembro, em frente ao Hospital Universitário Pedro Ernesto, surgiram os camburões do DOPS, com os policiais atirando e jogando bombas de gás lacrimogêneo. Os alunos responderam às balas com pedras. Diversos estudantes foram feridos. A maioria escondeu-se dentro do Hospital. Os policiais novamente avançaram atirando. Um aluno foi atingido no pulmão, outro ferido no rim e no fígado, mais um outro atingido braço esquerdo, ficou paralítico. E mais outro foi baleado, desta vez na cabeça. Este, também levado para a sala de cirurgia, só que não resistiu e veio a falecer às 21:40 horas.
O aluno assassinado era o Luiz Paulo da Cruz Nunes, do 2o ano de Medicina. O fato mereceu a imediata reação , através de uma nota oficial de repúdio emitida pelo Reitor João Lyra Filho:
"A Universidade do Estado da Guanabara está de luto em face dos deploráveis acontecimentos ocorridos na tarde de hoje, dentro da Faculdade de Ciências Médicas e com extensão, sobretudo, na área do respectivo Hospital das Clínicas. Todos deploramos ao extremo o comportamento dos agentes policiais que invadiram à bala e com lacrimogêneo as dependências do nosocômio. Esperamos que as autoridades, mais uma vez alertadas, adotem providências drásticas no sentido de punir àqueles que, vindos de fora, conturbaram mortalmente o clima de sinceridade da juventude universidade".
O Professor Américo Piquet Carneiro, Diretor da Faculdade de Ciências Médicas e o Professor Jayme Landmann, Diretor do Hospital das Clínicas, emitiram, em conjunto, a seguinte nota oficial:
"A Faculdade de Ciências Médicas, em nome do seu corpo docente e do corpo médico do Hospital das Clínicas, associa-se ao protesto feito pelo Reitor da UEG contra a brutal agressão policial desencadeada contra os estudantes, em manifestações pacíficas, que culminou com a morte de um acadêmico de Medicina e ferimentos graves em mais sete estudantes. Expressa, também, o repúdio ao fato inédito do ataque ao Hospital com bombas de gás lacrimogêneo e projeteis de armas de fogo, sem levar em conta os doentes internados, inclusive crianças recém-nascidas. Professores, educadores e médicos, profundamente preocupados, esperam das autoridades medidas que protejam efetivamente o livre exercício das atividades universitárias, indispensáveis à construção de um destino melhor para o nosso País".
A tragédia comoveu o País, provocando protestos e gestos de solidariedade à atitude do Reitor João Lyra Filho. O Conselho da Ordem dos Advogados do Brasil, a bancada federal do MDB da Guanabara, Parlamentares estaduais e federais, a Universidade de São Paulo - USP, manifestaram-se solidários. A Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro expediu a seguinte nota:
"Vimos, publicamente, condenar a ação sanguinária e criminosa dos que invadiram o Hospital Pedro Ernesto com armas e bombas de gás lacrimogêneo. No recinto hospitalar, transformado pelos truculentos invasores em campo de batalha, atingindo a tudo e todos, por pouco não ocorreu uma explosão de incalculáveis prejuízos em conseqüência do tiroteio contra o depósito de substâncias e medicamentos inflamáveis. O Hospital foi sempre respeitado, mesmo em guerras mais bárbaras do que a verificada. A Sociedade apresenta solidariedade ao Reitor da Universidade do Estado da Guanabara e ao Diretor do Hospital, por fazerem respeitar o ambiente hospitalar. Repudia tais atos vandalescos e criminosos. Transmite ao Senhor Governador do Estado da Guanabara seu mais veemente protesto. Aos médicos, aos estudantes e aos doentes do Hospital da Clínicas estende sua solidariedade e à família enlutada expressa a esperança de que o sangue do filho querido, estudante de Medicina, derramado no Hospital, seja uma semente redentora para a harmonia da Nação".
No dia seguinte, 23 de outubro, às 12:30 horas, o corpo de Luiz Paulo da Cruz Nunes foi enterrado no Cemitério São Francisco Xavier.
Crueldade[6]
"A compunção não exclui a revolta. Lá se foi o desventurado Luiz Paulo, para nunca mais, deixando a dor no lar construído por seus pais e fundos ressentimentos no coração de todos nós. Sua juventude em flor somava esperanças que malograram e perdeu-se na estúpida façanha de um policial assassino. Não houve quem deixasse de abrir a alma e a consciência à solidariedade que ainda reiteramos aos seus colegas. Por que matar um jovem de promessas radiantes? Que fez Luiz Paulo, para ser morto como se o seu instinto fosse o de uma fera? Que trevas terríveis caem sobre nós todos! (...)
No túmulo da vítima inesquecível, escritas na tarja de uma coroa, estes poucos dizeres: "A Luiz Paulo, nossa Universidade". Estamos de luto e sentimos nojo. Os meses e os anos correrão; talvez sejam vorazes. Mas, na corrida, não nos despojaremos da lembrança ensangüentada. A lembrança perdurará. Que sirva de semente; que frutifique na consciência dos responsáveis pela ordem e pelo bem social o dever de banir, para sempre, uma ilustração tão malvada. A funesta verdade é que um jovem estudante morreu, vítima de um sicário; morreu exatamente no momento em que mais a esperança precisava de sua vida: Luiz Paulo da Cruz Nunes, não lhe diremos adeus: A lembrança de sua presença haverá de seguir com a nossa UEG..."
A solenidade de formatura da turma de Luiz Paulo realizou-se em 1972, no Teatro Municipal. O discurso da turma foi quase totalmente censurado pelo DOPS. Após a leitura do discurso, iniciou-se a chamada dos alunos presentes. Após o último nome um estudante gritou: "Luiz Paulo - presente". Os demais aos poucos foram aderindo, até que todos, formandos e convidados, de pé, aplaudiam e repetiam "Luiz Paulo - Presente". A cortina do Teatro foi fechada e a solenidade dada por encerrada, sem que os alunos colassem o Grau, o que ocorreu alguns dias depois na sala do Diretor da FCM.
No dia 10 de abril de 1985, durante a gestão Diretoria "Coração de Estudante", do Diretório Central dos Estudantes - DCE-UERJ, presidida pelo aluno Ricardo Cholbi Tepedino, o Movimento Estudantil resolveu resgatar a memória da UERJ, batizando a nova sala do DCE, como "Sala Luiz Paulo da Cruz Nunes".
O ANO DE 1969
De forma a extinguir os últimos resquícios de liberdade, que pudessem haver nas escolas e faculdades, o Presidente Costa e Silva e os Ministros Luiz Antônio da Gama e Silva e Tarso Dutra, usando das atribuições do "A.I.- 5", definiram infrações disciplinares praticadas por professores, funcionários e alunos de estabelecimentos de ensino, através do Decreto-Lei no 477, no dia 26 de fevereiro de 1969. O Decreto era bem claro quanto às suas pretensões, não deixando dúvidas sobre os seus limites ou a falta de limites:
"É passível de punição: quem aliciar ou incitar à deflagração de movimento que tenha por finalidade a paralisação da atividade escolar e participar nesse movimento; quem atentar contra pessoas ou bens, tanto em prédios ou instalações de qualquer natureza, dentro ou fora dos estabelecimentos de ensino; quem praticar atos destinados à organização de movimentos subversivos, passeatas, desfiles ou comícios não autorizados ou deles participar; quem conduzir ou realizar, imprimir, tenha em depósito, distribuir material subversivo de qualquer natureza; seqüestrar ou manter em cárcere privado qualquer membro da comunidade universitária; usar as dependências escolares para fins de subversão ou para praticar ato contrário à moral e a ordem pública".
As penas previstas para professores e servidores seriam a demissão ou a dispensa e a proibição de serem nomeados, admitidos ou contratados por qualquer outro estabelecimento de ensino pelo prazo de cinco anos. Se fosse aluno, a pena seria o desligamento e a proibição de se matricular em outro estabelecimento de ensino pelo prazo de três anos. Se fosse detentor de bolsa de estudo ou recebesse qualquer benefício público, perderia seus benefícios pelo prazo de cinco anos. Se fosse bolsista estrangeiro seria extraditado.
O prazo para apuração das infrações, mediante processo sumário, foi estipulado em vinte dias. Havendo a suspeita, o dirigente do estabelecimento de ensino, imediatamente providenciaria a instauração de inquérito policial. Ao infrator foi oferecido um prazo de quarenta e oito horas para apresentar a sua defesa, após ser citado pelo encarregado das diligências. Quando a infração estivesse capitulada na lei penal, deveria ser remetida cópia dos autos à autoridade competente.
A Portaria no 149, de 28 de março de 1969, assinada pelo Ministro Tarso Dutra, determinou que em função do Decreto no 477, a apuração das infrações disciplinares seria promovida por iniciativa: a) do dirigente do estabelecimento de ensino a que pertença o professor, aluno, funcionário ou empregado infrator; b) da divisão de Segurança e Informações do Ministério de Educação e Cultura, mediante expediente diretamente encaminhado ao dirigente do estabelecimento de ensino em que houver suspeita de ocorrência de infração; e c) de qualquer outra autoridade ou pessoa.
De forma a driblar as ordens militares, os estudantes começaram a se organizar em centros de estudo. Mas isto, foi percebido pelas autoridades. Na UERJ, em 2 de abril de 1969, através do Ato Executivo no 171, o Reitor determinou que os Centros de Estudos, dirigidos por alunos, somente poderiam ser reconhecidos se fossem diretamente vinculados à orientação do Departamento da Unidade, com a participação de um professor designado pela Direção, para supervisionar e acompanhar os trabalhos, e que de forma alguma fossem vinculados aos Diretórios Acadêmicos.
A UERJ, apesar de ter como Reitor, neste período, o Professor João Lyra Filho, irmão do Ministro do Exército Aurélio Lyra Tavares, e por isto deveria servir de exemplo, como uma ilha de paz e tranqüilidade, utilizou o Decreto-Lei no 477, primeiramente, no dia 14 de abril de 1969, quando a Diretora Maria Edmée de Andrade Jacques da Silva, da Faculdade de Ciências Econômicas, expulsou dois alunos da Faculdade, por infração disciplinar. E, posteriormente, no dia 17 de junho do mesmo ano, quando o Diretor da Faculdade de Engenharia, Professor Paschoal Villaboim Filho, expulsou os alunos Gilson Fernandes de Andréa, Jones Raposo de Freitas e José Antônio de Azevedo, também por infração disciplinar.
Como para cumprir a Lei deveria haver organismos que fiscalizassem sua execução, foi criada em São Paulo, no dia 29 de junho, a Operação Bandeirantes - OBAN, que era a junção do II Exército com a Secretaria Estadual de Segurança Pública, para combater a subversão. Em setembro de 1970, através de decreto presidencial passou a se chamar Destacamento de Operações e Informações / Centro de Operações de Defesa Interna - DOI-CODI, um dos mais repressivos órgãos a serviço do Estado ditatorial.
Um fato político de grande repercussão ocorreu dia 21 de agosto de 1969, com falecimento do Presidente Costa e Silva, devendo assumir a Presidência Vice-Presidente Pedro Aleixo. Entretanto, os militares não aceitaram, de forma alguma, que um civil assumisse o poder. Então, no dia 31 de agosto, assumiu a Presidência uma Junta Militar composta dos Ministros Militares, Augusto Hamann Rademaker Grünewald, da Marinha, Aurélio Lyra Tavares, do Exército (irmão do Reitor da UEG, João Lyra Filho e do Diretor do Instituto de Criminologia da UEG, Roberto Lyra) e Márcio de Souza e Mello, da Aeronáutica.
Na UERJ, não foram só os alunos que foram afastados de suas funções, pois no dia 29 de agosto de 1969, foi publicado no Diário Oficial da União, os decretos de aposentadoria dos Professores Carlos Haroldo Porto Carreiro de Miranda e Hélio Marques da Silva, dos cargos que porventura ocupavam na administração direta ou indireta da União, Estados, Distrito Federal, Territórios ou Municípios, baseado no Ato Institucional no 5. O Reitor João Lyra Filho assinou, à sua revelia, pela UEG, as Portarias 393 e 394, em setembro de 1969, aposentando os respectivos professores. O Reitor João Lyra não queria aposentar os professores e só o fez por determinação legal. Isto ficou bem caracterizado, pelas manifestações de apreço efetuadas pelo Reitor.
A reação à violência "legal", veio através da luta armada. O primeiro ato de repercussão mundial, ocorreu no dia 4 de setembro, quando foi seqüestrado o Embaixador norte-americano Charles Bueke Ellbrick, no Rio. Esta foi a primeira operação do gênero no mundo, na história da guerrilha urbana. Fez parte deste seqüestro o ex-Presidente do Centro Acadêmico de Medicina da UEG, João Lopes Salgado.
Os fatos de maior repercussão, neste final de 1969, ocorreram no dia 17 de outubro, quando a Junta Militar que governava o País outorgou a Emenda Constitucional no 1, que garantiu a posse do Presidente Emílio Garrastazu Médici, no dia 30 de outubro, e incorporou os dispositivos do AI-5, sendo na verdade, uma nova Constituição, face a abrangência de seus 200 artigos; no dia 4 de novembro, quando morreu emboscado em São Paulo, o principal líder da Aliança Libertadora Nacional - ALN, Carlos Mariguella; e no dia 4 de dezembro, quando a 5a Região Militar decretou a prisão do ex-Ministro de Educação no Governo João Goulart, Darcy Ribeiro.
O ano de 1969 fechou com 383 pessoas com os direitos políticos ou mandatos cassados.
domingo, 12 de outubro de 2008
Ditadura de triste lembrança
Médicos retomam formatura congelada pela ditadura por 36 anos
No dia 24, um grupo de médicos vai finalmente concluir sua festa de formatura, iniciada e interrompida há 36 anos pelo regime militar. Dia 13 de dezembro de 1972. Anos de chumbo, época de censura. Cerca de 1.700 pessoas lotam o Teatro Municipal do Rio. São 20h30. Na platéia, em elegantes trajes de festa, estão parentes, amigos e convidados dos 128 formandos do curso de medicina da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). O convite da festa traz ilustrações de Henfil.
A reportagem é de Luísa Alcalde e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 12-10-2008.
Vai começar a cerimônia de colação de grau da turma de 1967, com o juramento de Hipócrates, rito de introdução dos acadêmicos em medicina na vida profissional.
No palco, vestidos de becas pretas com babado branco e capelo na cabeça, os recém-formados estão emocionados, pois entre os convidados está a família de Luiz Paulo da Cruz Nunes, assassinado aos 21 anos, no segundo ano do curso, com um tiro na cabeça disparado por policiais durante repressão a uma pacífica manifestação estudantil no dia 22 de outubro de 1968, em frente ao Hospital Universitário Pedro Ernesto, em Vila Isabel. A ação foi orquestrada pelo Comando do I Exército, DOPS e a PM. Os amigos dizem que o jovem não era ativista político. Estava no local por acaso.
Os parentes de Luiz Paulo, escolhido como patrono, levam flores aos formandos. A direção da UERJ, porém, veta a homenagem dias antes e proíbe qualquer menção ao rapaz. Manda colocar uma tarja preta sobre o nome de Luiz Paulo nos convites, mas isso é feito em apenas alguns deles. A direção garante aos alunos que não mencionará a palavra "patrono" na cerimônia.
O discurso da oradora Telma Ruth Pereira Silveira é submetido à análise dos censores da ditadura e vetado. A alegação: "atentado contra a segurança nacional". Durante a formatura, no momento em que o texto deveria ser lido, Telma caminha até o púlpito segurando cinco páginas em branco. Folheia lentamente, uma a uma, em silêncio, e agradece. É ruidosamente aplaudida.
A atitude irrita o diretor da Faculdade de Ciências Médicas da UERJ, Jaime Landmann. Em seguida, Landmann anuncia que os pais de Luiz Paulo, "colega falecido", vão ler uma carta. Uma voz de homem vinda da platéia corta o silêncio do teatro: "Luiz Paulo foi falecido !". Fingindo ignorar o protesto, Landmann prossegue a cerimônia e anuncia a homenagem ao patrono, imposto pela direção da faculdade: Albert Schweitzer, médico que atende necessitados na África. Em seguida, chama pelo nome de cada um dos formandos. Mas não chama o de Luiz Paulo.
Sem nada combinado, os formandos começam a bradar em coro: "Luiz Paulo, nosso patrono!!!" e a bater os pés no piso. Alguns batem palmas. Imediatamente, Landmann manda fechar as cortinas do palco e encerra a colação de grau. Nenhuma explicação é dada.
Muitos pais morreram sem assistir à formatura dos filhos. O protesto daquela noite foi abafado. Não foi publicada uma linha sequer nos jornais da época. Os formandos foram pedir conselhos ao jurista Heráclito Fontoura Sobral Pinto, famoso por defender presos políticos. A punição, além da abertura de um inquérito para descobrir os culpados pelo protesto, foi obrigar os médicos, separados, um a um, a fazer o juramento da profissão na sala do diretor, no ano seguinte, dois meses depois da formatura.
No dia 24, dois dias após o assassinato de Luiz Paulo completar 40 anos, 104 médicos da turma de medicina de 1967 da UERJ - hoje profissionais renomados inclusive no exterior - vão se reunir na Capela Ecumênica da UERJ, no Maracanã.
Eles vão oficializar a colação de grau da frustrada cerimônia de formatura que não ocorreu 36 anos atrás. E fazem questão de ir trajados de beca, como naquela noite de dezembro de 1972. Os discursos censurados serão lidos. O paraninfo, o neurocirurgião Pedro Sampaio, celebridade em sua área, hoje com 87 anos, já confirmou presença.
Desta vez, vão poder homenagear Luiz Paulo, já que a atual direção da faculdade homologou pedido do grupo. Antônio Augusto, sobrinho de Luiz Paulo, também médico, vai representar a família, pois a mãe e o pai dele já morreram.
P.S. E ainda tem gente que prefere voltar a estes tempos de obscuridade e absoluta falta de liberdade....batem no peito e dizem sem medo e sem censura nos dias de hoje: sou de extrema direita, sou de direita, odeio a esquerda
Postado por Jarosinski Brasil
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segunda-feira, 25 de julho de 2011
MORTOS E DESAPARECIDOS POLITICOS DO BRASIL
IDALÍSIO SOARES ARANHA FILHO (1947–1972)
Filiação: Aminthas Rodrigues Pereira e Idalísio Soares Aranha
Data e local de nascimento: 21/08/1947, Rubim (MG)
Organização política ou atividade: PCdoB
Data do desaparecimento: 12 ou 13/07/1972
Idalísio fez o curso (MG), no Colégio São José. Em 1962, primário em Rubim (MG), sua cidade natal, e o ginasial em Teófilo Otoni mudou-se para Belo Horizonte, onde estudou no ex-Colégio Universitário da Universidade Federal de Minas Gerais. Em 1968 participou da luta dos excedentes por mais vagas na Universidade. Nesse mesmo ano iniciou o curso de Psicologia na UFMG. Em 1970, casou-se com Walkíria Afonso Costa, que seria a última das desaparecidas na guerrilha do Araguaia.
Foi eleito presidente do Centro de Estudos de Psicologia de Minas Gerais e do Diretório Acadêmico da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas em 1971. Em janeiro de 1971, Idalísio e Walkíria, já militantes do PCdoB, decidiram mudar-se para o Araguaia, região do Gameleira.
Como violeiro e cantador, conquistava rapidamente a simpatia daqueles com quem convivia.
Em julho de 1972, seu grupo entrou em combate com uma patrulha do Exército, perto da Grota Vermelha. Idalísio perdeu-se do grupo. Em 12/07/1972, em Perdidos, distante nove léguas a Oeste de Caianos, Idalísio foi emboscado e morto, aos 25 anos de idade, segundo documento dos Fuzileiros Navais entregue anonimamente à Comissão de Representação Externa da Câmara Federal, em 1992. Relatório do Ministério da Marinha diz que Idalísio foi morto, em julho de 1972, “por ter resistido ferozmente”. Na mesma época em que Idalísio morreu no Araguaia, a casa de seus pais, em Belo Horizonte, foi invadida por policiais. Em julho de 1973, foi condenado à revelia pela Justiça Militar.
Segundo o relatório Arroyo, “
em julho, a CM resolveu enviar um grupo de companheiros, chefiados pelo Juca (João Carlos Haas Sobrinho), para conseguir reatar o contato com o C. Faziam parte do grupo: Flávio (Ciro Flávio de Oliveira Salazar), Gil (Manoel José Nurchis), Aparício (Idalísio Soares Aranha Filho) e Ferreira (Antônio Guilherme Ribeiro Ribas), do B. Esta medida se impunha porque o C não atendeu aos pontos previamente estabelecidos. Este grupo caiu numa emboscada do Exército na Grota Vermelha, a uns 50 metros da estrada. Juca levou doistiros: um na perna e outro na coxa, mas conseguiu, juntamente com os outros companheiros, embrenhar-se na mata. Ficaram parados alguns dias para que Juca se restabelecesse.
Durante esse período, Aparício saiu para caçar e se perdeu. Procurou a casa de um morador chamado Peri, por onde sabia que os demais iam passar. Lá ficou à espera. O dono da casa onde se refugiou levou-o para um barraco no mato, próximo à casa. Aí lhe serviam a comida. Dias depois, apareceu o Exército e travou tiroteio com Aparício. Este descarregou todas as balas do revólver que tinha e quando tentava enchê-lo de novo recebeu um tiro e morreu. Não se sabe se o Exército chegou por acaso ou se foi denúncia”.
O livro de Hugo Studart, A Lei da Selva, acrescenta informações que adquirem um tom quase ficcional: “Dossiê dá sua morte em JUL 72.
Entrou em combate com uma equipe de militares da inteligência. Levou 53 tiros de metralhadora, inclusive no rosto, e ainda assim conseguiu escapar pela mata. Foi apanhado pelos militares dois quilômetros adiante, agonizando no chão. Um mateiro o executou com um tiro de espingarda Winchester calibre 44. O tiro atingiu sua cabeça, que foi praticamente arrancada do tronco. Idalísio foi levado numa rede para Xambioá a fim de ser identificado. Foi inicialmente enterrado no cemitério local, na ala dos indigentes. Os militares mataram um cachorro e enterraram em cima do seu corpo para futura identificação”.
Em abril de 2007, as citadas reportagens de Lucas Figueiredo revelam que existe a seguinte passagem no chamado “livro negro do terrorismo no Brasil”, de responsabilidade do CIE e do ex-ministro do Exército Leônidas Pires Gonçalves: “Nesse mês (julho de 1972), no dia 13, num choque com as forças legais em Perdidos, foi morto o subversivo Idalísio
Soares Aranha Filho (Aparício)”
IDALÍSIO SOARES ARANHA FILHO
Militante do PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL (PC do B).
Nasceu em Rubim, Minas Gerais, no dia 27 de Agosto de 1947, filho de Idalísio Soares Aranha e de Aminthas Rodrigues Pereira.
Desaparecido desde 1972 na Guerrilha do Araguaia quando tinha 25 anos.
Afetivo, carinhoso, observador e de pouca conversa – assim era o Idalísio cantador, seresteiro e tocador de violão.
Era o penúltimo de nove irmãos. Fez o curso primário em Rubim e o ginasial em Teófilo Otoni/MG, no Colégio São José. Em 1962, foi para Belo Horizonte, onde estudou até o 2° ano no Colégio Estadual e o 3° ano no ex-Colégio Universitário da UFMG. Em 1968 participou da “luta dos excedentes” por mais vagas na Universidade. Neste mesmo ano iniciou o Curso de Psicologia na UFMG.
Em 1970 casou-se com Walkíria Afonso Costa (desaparecida).
Foi eleito presidente do Centro de Estudos de Psicologia de Minas Gerais e do Diretório Acadêmico da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas em 1971. Numa homenagem póstuma, foi dado o nome de Idalísio Aranha ao Diretório Acadêmico da Faculdade
Em janeiro de 1971, Idalísio e Walkíria, decidiram mudar-se para o Araguaia, região do Gameleira. Como violeiro e cantador, conquistou rapidamente a simpatia daqueles com quem ele convivia. Pouco tempo viveu no Araguaia.
Em julho de 1972, seu grupo entrou em combate com uma patrulha do Exército, perto da Grota Vermelha, em decorrência do qual Idalísio perdeu-se do grupo. Em 12 de julho de 1972, em Perdidos, a 9 léguas a Oeste de Caianos, Idalísio foi emboscado e morto, segundo documento dos Fuzileiros Navais entregue à Comissão de Representação Externa da Câmara Federal, em 1992.
O Relatório do Ministério da Marinha diz que Idalísio foi morto em uma localidade de nome Peri, “por ter resistido ferozmente”.
Na mesma época em que Idalísio foi morto no Araguaia, a casa de seus pais em Belo Horizonte foi invadida por policiais que acusavam a ele e Walquíria de pertencerem ao PC do B.
Em julho de 1973, depois de morto, foi condenado à revelia à pena de prisão pela Justiça Militar.
Seg, 08 de Novembro de 2010 19:25 Heróis do Movimento Estudantil
Idalísio Soares Aranha Filho nasceu no dia 27 de agosto de 1947 na cidade de Rubim, interior de Minas gerais, filho de Idalísio Soares Aranha e de Aminthas Rodrigues Pereira.
Afetivo, carinhoso, observador e de pouca conversa, assim era Idalísio, que também era cantador, seresteiro e tocador de violão.
Grande lutador de nosso povo, participou ativamente do movimento estudantil durante a década de 60. Quando secundarista estudou na principal escola de Minas Gerais, Escola Estadual governador Milton Campos (conhecida como Estadual Central) situada na cidade de Belo Horizonte.
Entrando para o curso de Psicologia na UFMG - Universidade Federal do Estado de Minas Gerais - participa e dirige a grande “Luta dos Excedentes” de 68. A questão dos “excedentes” era bastante grave à época uma vez que o vestibular era classificatório, ou seja, todos que superassem o mínimo de pontos tinham direito à vaga nas universidades. Com o tempo cresceu enormemente o número de alunos aprovados, porém o Estado não atendia mais à demanda e muitos estudantes, mesmo tendo o direito à vaga, ficavam sem ela na prática. Estes eram os excedentes. Logo após essas grandes mobilizações, Idalísio foi eleito presidente do Diretório Acadêmico (DA) de Psicologia.
Junto a outros colegas e militantes do movimento estudantil, lutou em defesa dos interesses dos estudantes, contra o corte de verbas que precarizava cada vez mais o ensino científico; contra o fechamento de restaurantes universitários e cortes na assistência estudantil; contra o acordo MEC/USAID (que expandia a intervenção dos EUA na elaboração das políticas educacionais brasileiras) e o reacionário Decreto-lei 477, que instituía a expulsão de militantes do movimento estudantil das universidades.
Em janeiro de 1971 Idalísio e sua companheira, Walkíria Afonso Costa, ambos militantes do Partido Comunista do Brasil, mudam-se para a região do Araguaia aonde o PC do B concluía os preparativos para a deflagração da luta armada revolucionária, como Guerra Popular Prolongada.
Em 12 de abril de 1972, os militantes do Partido Comunista e camponeses da região iniciam o episódio que marcará a história de nosso país, como a mais alta tentativa já realizada até hoje em nosso país de tomada do Poder para as massas populares: era a gloriosa Guerrilha do Araguaia, que se desenvolveria com a participação da massa de camponeses pobres objetivando cercar a cidade a partir do campo. Em que pesem os erros de concepção, apontados pelo grande dirigente comunista Pedro Pomar em seu relatório “Sobre o Araguaia” (soterrado pela direção revisionista de Amazonas e consortes) essa foi uma grande experiência revolucionária, de grande valor e inapagável lembrança na história de nosso povo.
Já região do Araguaia, Idalísio Aranha foi viver na região do Gameleira e incorporou-se ao Destacamento B comandado por Osvaldo Orlando da Costa – o Osvaldão. Na ocasião a organização militar do Partido dividia os Destacamentos em 3 agrupamentos guerrilheiros e Idalísio compunha o “Grupo do Castanhal”, com mais 5 combatentes, dentre eles sua companheira Walkíria.
Segundo o “Relatório Sobre a Luta no Araguaia”, produzido por Ângelo Arroyo, membro da Comissão Militar do Partido Comunista, Idalísio tombou em combate em julho de 1972. Segue abaixo o trecho do Relatório:
“A Comissão Militar resolveu enviar um grupo de companheiros, chefiados pelo Juca (João Carlos Haas Sobrinho), para conseguir reatar o contato com o Destacamento C. Faziam parte do grupo: Flávio (Ciro Flávio de Oliveira Salazar), Gil (Manoel José Nurchis), Aparício (Idalísio Soares Aranha Filho) e Ferreira (Antônio Guilherme Ribeiro Ribas), do Destacamento B. Esta medida se impunha porque o Destacamento C não atendeu aos pontos previamente estabelecidos. Este grupo caiu numa emboscada do Exército na Grota Vermelha a uns 50 metros da estrada. Juca levou dois tiros: um na perna e outro na coxa, mas conseguiu, juntamente com os outros companheiros, embrenhar-se na mata. Ficaram parados alguns dias para que Juca se restabelecesse. Durante esse período, Aparício saiu para caçar e se perdeu. Procurou a casa de um morador chamado Peri por onde sabia que os demais iriam passar. Lá ficou à espera. O dono da casa onde se refugiou levou-o para um barraco no mato próximo à casa. Nesse local lhe serviam a comida. Dias depois apareceu o Exército e travou tiroteio com Aparício”.
Emboscado e mesmo ferido, Idalísio conseguiu se embrenhar na mata e escapar ainda por dois quilômetros, antes de ser atingido fatalmente. Mesmo o “Relatório Oficial do Ministério da Guerra”, documento em que o podre Estado brasileiro assume suas ações criminosas no Araguaia, destaca que Idalísio Aranha “foi morto por ter resistido ferozmente”.
Mesmo após seu covarde assassinato pelo exército fascista, foi ainda julgado e condenado à prisão pelo Poder Judiciário burguês-latifundiário, esse mesmo que até hoje mantém sua posição anti-povo.
Idalísio foi um, dentre centenas de jovens de uma geração, que deu sua vida pela libertação de nosso povo e pela Revolução. Devemos nos mirar nestes grandes exemplos que, rejeitando o conforto e as facilidades da vida pequeno-burguesa nas cidades, tomaram firme decisão de servir às massas de todo o coração, inclusive no nível mais elevado da luta de classes, que é a luta armada.
Oswaldos, Tucas e Aris
Nunes, Landins, Amauris
Nada se faz em vão
E apesar da noite que disfarça
Apesar dos tiros, dos choques
Da boca que delata
Ainda nos restam as pedras
Os gritos
Os cânticos
Os punhais!
Aos guerrilheiros
do Araguaia/1970
Rendemos honras e glórias a esse grande combatente de nosso povo.
Viva Idalísio Aranha! Viva os heróis do Movimento Estudantil!
MEPR processo por atividades políticas na 2ª Auditoria Militar de São Paulo.”
http://www.fafich.ufmg.br/fil/dep%20histórico.htm
O Grupo Tortura Nunca Mais/RJ lamenta a falta de respeito da universidade por ter trocado o nome de Idalísio pelo de um professor, apesar da importância da trajetória deste, que foi um dos fundadores do curso de Filosofia da UFMG.
Fica aí um fato a pensar sobre o direito que temos à memória e a verdade do período da ditadura militar.
Casamento e morte no Araguaia
Última a ser capturada na guerrilha, Walquíria Afonso Costa foi morta em 1974 aos 27 anos. Ela e o namorado, Idalísio Soares Aranha Filho, morto em 1972 aos 25, se casaram no Araguaia. Os dois mineiros e estudantes da UFMG continuam desaparecidos. Valéria Costa Couto, única irmã de Walquíria, diz não ter esperanças de encontrar a ossada, mas quer esclarecer aquele triste período do país. “Queremos ver os arquivos oficiais. A família e a nação têm esse direito. A história tem que ter começo, meio e fim. Ninguém tem o direito de ocultar nada”, afirma. Segundo Valéria, sua mãe faleceu acreditando na sobrevivência da filha.
Antônia Vitória Soares Aranha viu o irmão Idalísio pela última vez em janeiro de 1971. “Ele disse que ia fazer trabalhos populares, mas não sabia onde. Minha mãe ficou desesperada, mas entendemos que era a opção dele.” Em 1976, Idalísio começou a constar na lista de mortos e desaparecidos. Quando José Genoíno saiu da prisão, disse que o militante do PCdoB havia sido assassinado. “Foi uma coisa dura, indescritível. A gente tem sempre a esperança. A primeira reação é de não enfrentar a realidade.” A notícia, do início de 1978, só foi contada para a mãe no final do mesmo ano. “A reação dela foi uma das mais tristes que já vi. Ela tinha muita expectativa da volta dele.” Hoje, a mãe de Idalísio, Aminthas Rodrigues Pereira, tem 97 anos.
Antônia viu o irmão pela última vez quando tinha 15 anos. “A última imagem que tenho é de alguém dizendo pra mim: ‘Não fica triste porque a gente ainda vai se encontrar.’” Para ela, a perda do irmão “é uma chaga que não fecha nunca. Aprende-se a viver com a dor, mas ela nunca passa. Queria ele aqui tocando violão, não como um herói”.
Idalísio foi um, dentre centenas de jovens de uma geração, que deu sua vida pela libertação de nosso povo e pela Revolução. Devemos nos mirar nestes grandes exemplos que, rejeitando o conforto e as facilidades da vida pequeno-burguesa nas cidades, tomaram firme decisão de servir às massas de todo o coração, inclusive no nível mais elevado da luta de classes, que é a luta armada.
UFMG homenageia estudantes mortos pela ditadura
quinta-feira, 9 de setembro de 2004, às 20h26
Uma homenagem aos quatro alunos da UFMG assassinados pela ditadura militar marcou a abertura, na tarde de quinta-feira, dia 9, da exposição Liberdade, essa palavra, que comemora os 77 anos da Universidade e celebra a resistência do movimento estudantil a um dos períodos mais autoritários da história brasileira.
A memória dos estudantes Gildo Macedo Lacerda, Idalísio Soares Aranha Filho, José Carlos Novaes Mata Machado e Walkíria Afonso Costa ganhou um monumento no gramado da Biblioteca Universitária, materializado por quatro troncos cortados, que simbolizam as vidas ceifadas pelo autoritarismo.
Homenagem
Na abertura da cerimônia, o reitor em exercício, Marcos Borato, lembrou que a homenagem aos quatro estudantes "condensava" a reverência feita pela Universidade ao movimento estudantil, que sempre se envolveu em grandes causas, como a resistência à ditadura militar.
Participaram da cerimônia o secretário nacional de Direitos Humanos, Nilmário Miranda - que descerrou junto com Borato a placa do monumento que homenageou os estudantes - o prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, o deputado federal Sérgio Miranda, além de três ex-reitores da Universidade: Aluísio Pimenta, Tomaz Aroldo da Mota Santos e Celso Vasconcelos Pinheiro.
Ativo militante do movimento estudantil da época, o prefeito Fernando Pimentel disse que a luta dos quatro estudantes e de tantos outros que perderam suas vidas ou foram torturados, cassados e exilados não foi em vão. "Olhando para trás e observando tudo o que passamos, tenho a certeza de que o sacrifício valeu a pena".
A cerimônia foi encerrada com um testemunho do chefe de gabinete, Mauro Braga, outro de intensa atuação no movimento estudantil. Braga relembrou sua convivência com os quatro homenageados. "Com José Carlos participei do Congresso de Ibiúna, de Gildo fui companheiro de prisão", relatou o professor, que foi mais próximo de Walkíria e Idalísio. "Deles, não fui apenas companheiro de militância. Foram meus amigos".
De Walkíria, Mauro Braga não esquece o "riso barulhento e franco" e de Idalísio guarda as noitadas embaladas com o seu violão e a lembrança de ter compartilhado com ele a notícia de um acontecimento que marcaria para sempre aquela geração: a edição do AI-5, em 1968.
A exposição
A exposição Liberdade, essa palavra, em cartaz até o dia 13 de outubro no saguão da Reitoria, reúne cerca de 90 imagens, entre fotos, cartazes, charges e panfletos, que retratam momentos marcantes do movimento estudantil, de 1964 a 1984. Outro destaque está na montagem de uma "trilha sonora", com mais de cem músicas entoadas pelos estudantes da época.
A mostra foi preparada pelo Projeto República, que organizou o seu acervo, e pelo Centro de Comunicação (Cedecom), responsável pela produção do catálogo. A curadoria é do professor Fabrício Fernandino.
[PDF]
Bernardo Joffily
www.mme.org.br/services/.../FileDownload.EZTSvc.asp?...0337...Similares
Algumas pessoas que eram da AP participaram até da guerrilha do Araguaia, como o Idalísio. [Soares Aranha Filho], de Minas. Passei um tempo em Minas e ...
Filiação: Aminthas Rodrigues Pereira e Idalísio Soares Aranha
Data e local de nascimento: 21/08/1947, Rubim (MG)
Organização política ou atividade: PCdoB
Data do desaparecimento: 12 ou 13/07/1972
Idalísio fez o curso (MG), no Colégio São José. Em 1962, primário em Rubim (MG), sua cidade natal, e o ginasial em Teófilo Otoni mudou-se para Belo Horizonte, onde estudou no ex-Colégio Universitário da Universidade Federal de Minas Gerais. Em 1968 participou da luta dos excedentes por mais vagas na Universidade. Nesse mesmo ano iniciou o curso de Psicologia na UFMG. Em 1970, casou-se com Walkíria Afonso Costa, que seria a última das desaparecidas na guerrilha do Araguaia.
Foi eleito presidente do Centro de Estudos de Psicologia de Minas Gerais e do Diretório Acadêmico da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas em 1971. Em janeiro de 1971, Idalísio e Walkíria, já militantes do PCdoB, decidiram mudar-se para o Araguaia, região do Gameleira.
Como violeiro e cantador, conquistava rapidamente a simpatia daqueles com quem convivia.
Em julho de 1972, seu grupo entrou em combate com uma patrulha do Exército, perto da Grota Vermelha. Idalísio perdeu-se do grupo. Em 12/07/1972, em Perdidos, distante nove léguas a Oeste de Caianos, Idalísio foi emboscado e morto, aos 25 anos de idade, segundo documento dos Fuzileiros Navais entregue anonimamente à Comissão de Representação Externa da Câmara Federal, em 1992. Relatório do Ministério da Marinha diz que Idalísio foi morto, em julho de 1972, “por ter resistido ferozmente”. Na mesma época em que Idalísio morreu no Araguaia, a casa de seus pais, em Belo Horizonte, foi invadida por policiais. Em julho de 1973, foi condenado à revelia pela Justiça Militar.
Segundo o relatório Arroyo, “
em julho, a CM resolveu enviar um grupo de companheiros, chefiados pelo Juca (João Carlos Haas Sobrinho), para conseguir reatar o contato com o C. Faziam parte do grupo: Flávio (Ciro Flávio de Oliveira Salazar), Gil (Manoel José Nurchis), Aparício (Idalísio Soares Aranha Filho) e Ferreira (Antônio Guilherme Ribeiro Ribas), do B. Esta medida se impunha porque o C não atendeu aos pontos previamente estabelecidos. Este grupo caiu numa emboscada do Exército na Grota Vermelha, a uns 50 metros da estrada. Juca levou doistiros: um na perna e outro na coxa, mas conseguiu, juntamente com os outros companheiros, embrenhar-se na mata. Ficaram parados alguns dias para que Juca se restabelecesse.
Durante esse período, Aparício saiu para caçar e se perdeu. Procurou a casa de um morador chamado Peri, por onde sabia que os demais iam passar. Lá ficou à espera. O dono da casa onde se refugiou levou-o para um barraco no mato, próximo à casa. Aí lhe serviam a comida. Dias depois, apareceu o Exército e travou tiroteio com Aparício. Este descarregou todas as balas do revólver que tinha e quando tentava enchê-lo de novo recebeu um tiro e morreu. Não se sabe se o Exército chegou por acaso ou se foi denúncia”.
O livro de Hugo Studart, A Lei da Selva, acrescenta informações que adquirem um tom quase ficcional: “Dossiê dá sua morte em JUL 72.
Entrou em combate com uma equipe de militares da inteligência. Levou 53 tiros de metralhadora, inclusive no rosto, e ainda assim conseguiu escapar pela mata. Foi apanhado pelos militares dois quilômetros adiante, agonizando no chão. Um mateiro o executou com um tiro de espingarda Winchester calibre 44. O tiro atingiu sua cabeça, que foi praticamente arrancada do tronco. Idalísio foi levado numa rede para Xambioá a fim de ser identificado. Foi inicialmente enterrado no cemitério local, na ala dos indigentes. Os militares mataram um cachorro e enterraram em cima do seu corpo para futura identificação”.
Em abril de 2007, as citadas reportagens de Lucas Figueiredo revelam que existe a seguinte passagem no chamado “livro negro do terrorismo no Brasil”, de responsabilidade do CIE e do ex-ministro do Exército Leônidas Pires Gonçalves: “Nesse mês (julho de 1972), no dia 13, num choque com as forças legais em Perdidos, foi morto o subversivo Idalísio
Soares Aranha Filho (Aparício)”
IDALÍSIO SOARES ARANHA FILHO
Militante do PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL (PC do B).
Nasceu em Rubim, Minas Gerais, no dia 27 de Agosto de 1947, filho de Idalísio Soares Aranha e de Aminthas Rodrigues Pereira.
Desaparecido desde 1972 na Guerrilha do Araguaia quando tinha 25 anos.
Afetivo, carinhoso, observador e de pouca conversa – assim era o Idalísio cantador, seresteiro e tocador de violão.
Era o penúltimo de nove irmãos. Fez o curso primário em Rubim e o ginasial em Teófilo Otoni/MG, no Colégio São José. Em 1962, foi para Belo Horizonte, onde estudou até o 2° ano no Colégio Estadual e o 3° ano no ex-Colégio Universitário da UFMG. Em 1968 participou da “luta dos excedentes” por mais vagas na Universidade. Neste mesmo ano iniciou o Curso de Psicologia na UFMG.
Em 1970 casou-se com Walkíria Afonso Costa (desaparecida).
Foi eleito presidente do Centro de Estudos de Psicologia de Minas Gerais e do Diretório Acadêmico da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas em 1971. Numa homenagem póstuma, foi dado o nome de Idalísio Aranha ao Diretório Acadêmico da Faculdade
Em janeiro de 1971, Idalísio e Walkíria, decidiram mudar-se para o Araguaia, região do Gameleira. Como violeiro e cantador, conquistou rapidamente a simpatia daqueles com quem ele convivia. Pouco tempo viveu no Araguaia.
Em julho de 1972, seu grupo entrou em combate com uma patrulha do Exército, perto da Grota Vermelha, em decorrência do qual Idalísio perdeu-se do grupo. Em 12 de julho de 1972, em Perdidos, a 9 léguas a Oeste de Caianos, Idalísio foi emboscado e morto, segundo documento dos Fuzileiros Navais entregue à Comissão de Representação Externa da Câmara Federal, em 1992.
O Relatório do Ministério da Marinha diz que Idalísio foi morto em uma localidade de nome Peri, “por ter resistido ferozmente”.
Na mesma época em que Idalísio foi morto no Araguaia, a casa de seus pais em Belo Horizonte foi invadida por policiais que acusavam a ele e Walquíria de pertencerem ao PC do B.
Em julho de 1973, depois de morto, foi condenado à revelia à pena de prisão pela Justiça Militar.
Seg, 08 de Novembro de 2010 19:25 Heróis do Movimento Estudantil
Idalísio Soares Aranha Filho nasceu no dia 27 de agosto de 1947 na cidade de Rubim, interior de Minas gerais, filho de Idalísio Soares Aranha e de Aminthas Rodrigues Pereira.
Afetivo, carinhoso, observador e de pouca conversa, assim era Idalísio, que também era cantador, seresteiro e tocador de violão.
Grande lutador de nosso povo, participou ativamente do movimento estudantil durante a década de 60. Quando secundarista estudou na principal escola de Minas Gerais, Escola Estadual governador Milton Campos (conhecida como Estadual Central) situada na cidade de Belo Horizonte.
Entrando para o curso de Psicologia na UFMG - Universidade Federal do Estado de Minas Gerais - participa e dirige a grande “Luta dos Excedentes” de 68. A questão dos “excedentes” era bastante grave à época uma vez que o vestibular era classificatório, ou seja, todos que superassem o mínimo de pontos tinham direito à vaga nas universidades. Com o tempo cresceu enormemente o número de alunos aprovados, porém o Estado não atendia mais à demanda e muitos estudantes, mesmo tendo o direito à vaga, ficavam sem ela na prática. Estes eram os excedentes. Logo após essas grandes mobilizações, Idalísio foi eleito presidente do Diretório Acadêmico (DA) de Psicologia.
Junto a outros colegas e militantes do movimento estudantil, lutou em defesa dos interesses dos estudantes, contra o corte de verbas que precarizava cada vez mais o ensino científico; contra o fechamento de restaurantes universitários e cortes na assistência estudantil; contra o acordo MEC/USAID (que expandia a intervenção dos EUA na elaboração das políticas educacionais brasileiras) e o reacionário Decreto-lei 477, que instituía a expulsão de militantes do movimento estudantil das universidades.
Em janeiro de 1971 Idalísio e sua companheira, Walkíria Afonso Costa, ambos militantes do Partido Comunista do Brasil, mudam-se para a região do Araguaia aonde o PC do B concluía os preparativos para a deflagração da luta armada revolucionária, como Guerra Popular Prolongada.
Em 12 de abril de 1972, os militantes do Partido Comunista e camponeses da região iniciam o episódio que marcará a história de nosso país, como a mais alta tentativa já realizada até hoje em nosso país de tomada do Poder para as massas populares: era a gloriosa Guerrilha do Araguaia, que se desenvolveria com a participação da massa de camponeses pobres objetivando cercar a cidade a partir do campo. Em que pesem os erros de concepção, apontados pelo grande dirigente comunista Pedro Pomar em seu relatório “Sobre o Araguaia” (soterrado pela direção revisionista de Amazonas e consortes) essa foi uma grande experiência revolucionária, de grande valor e inapagável lembrança na história de nosso povo.
Já região do Araguaia, Idalísio Aranha foi viver na região do Gameleira e incorporou-se ao Destacamento B comandado por Osvaldo Orlando da Costa – o Osvaldão. Na ocasião a organização militar do Partido dividia os Destacamentos em 3 agrupamentos guerrilheiros e Idalísio compunha o “Grupo do Castanhal”, com mais 5 combatentes, dentre eles sua companheira Walkíria.
Segundo o “Relatório Sobre a Luta no Araguaia”, produzido por Ângelo Arroyo, membro da Comissão Militar do Partido Comunista, Idalísio tombou em combate em julho de 1972. Segue abaixo o trecho do Relatório:
“A Comissão Militar resolveu enviar um grupo de companheiros, chefiados pelo Juca (João Carlos Haas Sobrinho), para conseguir reatar o contato com o Destacamento C. Faziam parte do grupo: Flávio (Ciro Flávio de Oliveira Salazar), Gil (Manoel José Nurchis), Aparício (Idalísio Soares Aranha Filho) e Ferreira (Antônio Guilherme Ribeiro Ribas), do Destacamento B. Esta medida se impunha porque o Destacamento C não atendeu aos pontos previamente estabelecidos. Este grupo caiu numa emboscada do Exército na Grota Vermelha a uns 50 metros da estrada. Juca levou dois tiros: um na perna e outro na coxa, mas conseguiu, juntamente com os outros companheiros, embrenhar-se na mata. Ficaram parados alguns dias para que Juca se restabelecesse. Durante esse período, Aparício saiu para caçar e se perdeu. Procurou a casa de um morador chamado Peri por onde sabia que os demais iriam passar. Lá ficou à espera. O dono da casa onde se refugiou levou-o para um barraco no mato próximo à casa. Nesse local lhe serviam a comida. Dias depois apareceu o Exército e travou tiroteio com Aparício”.
Emboscado e mesmo ferido, Idalísio conseguiu se embrenhar na mata e escapar ainda por dois quilômetros, antes de ser atingido fatalmente. Mesmo o “Relatório Oficial do Ministério da Guerra”, documento em que o podre Estado brasileiro assume suas ações criminosas no Araguaia, destaca que Idalísio Aranha “foi morto por ter resistido ferozmente”.
Mesmo após seu covarde assassinato pelo exército fascista, foi ainda julgado e condenado à prisão pelo Poder Judiciário burguês-latifundiário, esse mesmo que até hoje mantém sua posição anti-povo.
Idalísio foi um, dentre centenas de jovens de uma geração, que deu sua vida pela libertação de nosso povo e pela Revolução. Devemos nos mirar nestes grandes exemplos que, rejeitando o conforto e as facilidades da vida pequeno-burguesa nas cidades, tomaram firme decisão de servir às massas de todo o coração, inclusive no nível mais elevado da luta de classes, que é a luta armada.
Oswaldos, Tucas e Aris
Nunes, Landins, Amauris
Nada se faz em vão
E apesar da noite que disfarça
Apesar dos tiros, dos choques
Da boca que delata
Ainda nos restam as pedras
Os gritos
Os cânticos
Os punhais!
Aos guerrilheiros
do Araguaia/1970
Rendemos honras e glórias a esse grande combatente de nosso povo.
Viva Idalísio Aranha! Viva os heróis do Movimento Estudantil!
MEPR processo por atividades políticas na 2ª Auditoria Militar de São Paulo.”
http://www.fafich.ufmg.br/fil/dep%20histórico.htm
O Grupo Tortura Nunca Mais/RJ lamenta a falta de respeito da universidade por ter trocado o nome de Idalísio pelo de um professor, apesar da importância da trajetória deste, que foi um dos fundadores do curso de Filosofia da UFMG.
Fica aí um fato a pensar sobre o direito que temos à memória e a verdade do período da ditadura militar.
Casamento e morte no Araguaia
Última a ser capturada na guerrilha, Walquíria Afonso Costa foi morta em 1974 aos 27 anos. Ela e o namorado, Idalísio Soares Aranha Filho, morto em 1972 aos 25, se casaram no Araguaia. Os dois mineiros e estudantes da UFMG continuam desaparecidos. Valéria Costa Couto, única irmã de Walquíria, diz não ter esperanças de encontrar a ossada, mas quer esclarecer aquele triste período do país. “Queremos ver os arquivos oficiais. A família e a nação têm esse direito. A história tem que ter começo, meio e fim. Ninguém tem o direito de ocultar nada”, afirma. Segundo Valéria, sua mãe faleceu acreditando na sobrevivência da filha.
Antônia Vitória Soares Aranha viu o irmão Idalísio pela última vez em janeiro de 1971. “Ele disse que ia fazer trabalhos populares, mas não sabia onde. Minha mãe ficou desesperada, mas entendemos que era a opção dele.” Em 1976, Idalísio começou a constar na lista de mortos e desaparecidos. Quando José Genoíno saiu da prisão, disse que o militante do PCdoB havia sido assassinado. “Foi uma coisa dura, indescritível. A gente tem sempre a esperança. A primeira reação é de não enfrentar a realidade.” A notícia, do início de 1978, só foi contada para a mãe no final do mesmo ano. “A reação dela foi uma das mais tristes que já vi. Ela tinha muita expectativa da volta dele.” Hoje, a mãe de Idalísio, Aminthas Rodrigues Pereira, tem 97 anos.
Antônia viu o irmão pela última vez quando tinha 15 anos. “A última imagem que tenho é de alguém dizendo pra mim: ‘Não fica triste porque a gente ainda vai se encontrar.’” Para ela, a perda do irmão “é uma chaga que não fecha nunca. Aprende-se a viver com a dor, mas ela nunca passa. Queria ele aqui tocando violão, não como um herói”.
Idalísio foi um, dentre centenas de jovens de uma geração, que deu sua vida pela libertação de nosso povo e pela Revolução. Devemos nos mirar nestes grandes exemplos que, rejeitando o conforto e as facilidades da vida pequeno-burguesa nas cidades, tomaram firme decisão de servir às massas de todo o coração, inclusive no nível mais elevado da luta de classes, que é a luta armada.
UFMG homenageia estudantes mortos pela ditadura
quinta-feira, 9 de setembro de 2004, às 20h26
Uma homenagem aos quatro alunos da UFMG assassinados pela ditadura militar marcou a abertura, na tarde de quinta-feira, dia 9, da exposição Liberdade, essa palavra, que comemora os 77 anos da Universidade e celebra a resistência do movimento estudantil a um dos períodos mais autoritários da história brasileira.
A memória dos estudantes Gildo Macedo Lacerda, Idalísio Soares Aranha Filho, José Carlos Novaes Mata Machado e Walkíria Afonso Costa ganhou um monumento no gramado da Biblioteca Universitária, materializado por quatro troncos cortados, que simbolizam as vidas ceifadas pelo autoritarismo.
Homenagem
Na abertura da cerimônia, o reitor em exercício, Marcos Borato, lembrou que a homenagem aos quatro estudantes "condensava" a reverência feita pela Universidade ao movimento estudantil, que sempre se envolveu em grandes causas, como a resistência à ditadura militar.
Participaram da cerimônia o secretário nacional de Direitos Humanos, Nilmário Miranda - que descerrou junto com Borato a placa do monumento que homenageou os estudantes - o prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, o deputado federal Sérgio Miranda, além de três ex-reitores da Universidade: Aluísio Pimenta, Tomaz Aroldo da Mota Santos e Celso Vasconcelos Pinheiro.
Ativo militante do movimento estudantil da época, o prefeito Fernando Pimentel disse que a luta dos quatro estudantes e de tantos outros que perderam suas vidas ou foram torturados, cassados e exilados não foi em vão. "Olhando para trás e observando tudo o que passamos, tenho a certeza de que o sacrifício valeu a pena".
A cerimônia foi encerrada com um testemunho do chefe de gabinete, Mauro Braga, outro de intensa atuação no movimento estudantil. Braga relembrou sua convivência com os quatro homenageados. "Com José Carlos participei do Congresso de Ibiúna, de Gildo fui companheiro de prisão", relatou o professor, que foi mais próximo de Walkíria e Idalísio. "Deles, não fui apenas companheiro de militância. Foram meus amigos".
De Walkíria, Mauro Braga não esquece o "riso barulhento e franco" e de Idalísio guarda as noitadas embaladas com o seu violão e a lembrança de ter compartilhado com ele a notícia de um acontecimento que marcaria para sempre aquela geração: a edição do AI-5, em 1968.
A exposição
A exposição Liberdade, essa palavra, em cartaz até o dia 13 de outubro no saguão da Reitoria, reúne cerca de 90 imagens, entre fotos, cartazes, charges e panfletos, que retratam momentos marcantes do movimento estudantil, de 1964 a 1984. Outro destaque está na montagem de uma "trilha sonora", com mais de cem músicas entoadas pelos estudantes da época.
A mostra foi preparada pelo Projeto República, que organizou o seu acervo, e pelo Centro de Comunicação (Cedecom), responsável pela produção do catálogo. A curadoria é do professor Fabrício Fernandino.
[PDF]
Bernardo Joffily
www.mme.org.br/services/.../FileDownload.EZTSvc.asp?...0337...Similares
Algumas pessoas que eram da AP participaram até da guerrilha do Araguaia, como o Idalísio. [Soares Aranha Filho], de Minas. Passei um tempo em Minas e ...
MORTOS E DESAPARECIDOS POLITICOS DO BRASIL
ROSALINDO DE SOUZA (1940–1973)
Filiação:
Lindaura Correia Silva e Rosalvo Cypriano Sousa
Data e local de nascimento:
02/01/1940, Caldeirão Grande (BA)
Organização política ou atividade:
PCdoB
Data do desaparecimento:
entre 16/08 e setembro/1973
Baiano de Caldeirão Grande mudou-se para a cidade de Itapetinga, em 1945, com a família, onde concluiu o curso ginasial no Centro Educacional Alfredo Dutra. Em 1957, já em
Salvador, interrompeu os estudos, no terceiro ano, para ingressar no serviço militar. No Exército, fez os cursos de cabo e sargento, dando baixa em 1960.
Em 1961, trabalhou como diretor da secretaria da Câmara Municipal de Itapetinga. Em 1963, iniciou o curso de Direito na Universidade Federal da Bahia, sendo nomeado na mesma
época escriturário do Instituto de
Aposentadoria e Pensão dos Comerciários. Cinco anos depois, já militante do PCdoB, foi eleito presidente do Diretório Acadêmico Rui Barbosa da Faculdade de Direito da UFBA, quanto teve início a sua perseguição política. Tornou-se dirigente estadual do PCdoB na Bahia.
Após o AI-5, foi impedido de se matricular em sua faculdade e mudou-se para o Rio de Janeiro, em 1969, onde residiu por algum tempo com o casal Dinalva e Antonio Carlos, seus amigos da Bahia, também combatentes e mortos no Araguaia. Rosalindo terminou o curso de Direito na Faculdade Cândido Mendes e se inscreveu na OAB em 31/03/1970. Voltou a
Itapetinga e montou um escritório de advocacia. No ano seguinte, foi denunciado perante a Justiça Militar e julgado à revelia no dia 13/05/1971, sendo condenado a dois anos e dois meses
Conforme o relatório Arroyo, “
Alfredo (Antônio Alfredo) na ocasião insistiu com Zé Carlos (André Grabois) para que fossem apanhar dois porcos dele que se encontravam numa roça próxima. Os porcos ajudariam a alimentação dos guerrilheiros. Zé Carlos considerou temerário o projeto de Alfredo. Chegou a dizer: ‘Não vamos morrer pela boca’. Sabia que o Exército provavelmente estaria emboscado na roça onde se encontravam os porcos. No dia seguinte, saíram cinco companheiros para apanhar farinha num depósito e, se nada de anormal notassem, poderiam ir apanhar os porcos. Mas no caminho decidiram ir, primeiramente, apanhar os porcos. Lá chegaram cerca das 9 horas. Mataram os porcos com quatro tiros e os levaram para um lugar limpo a fim de retalhá-los. Fizeram fogo de palha para pelar os porcos. Uma hora depois estava terminado o serviço. Mas quando foram carregar a carne, as alças das mochilas quebraram. Alfredo resolveu então improvisar um atado de cipó (vira-mundo) para carregar nas costas. Quando terminou o último atado eram já 12 horas. Estavam presentes os companheiros: Zé Carlos (André), Nunes (Divino Ferreira de Souza), Alfredo, Zebão (João Gualberto) e João (Dermeval da Silva Pereira). Preparavam-se para sair quando Alfredo ouviu um barulho esquisito. Chamou a atenção de João.
Este, porém, achou que era uma palha de coqueiro que tinha caído.
Ato contínuo, apareceram os soldados, apontando suas armas. Atiraram sobre o grupo. João conseguiu escapar, os outros foram mortos. Não tiveram tempo nem de pegar as
armas (14/10/73)”.
Matérias publicada no jornal O Globo, em 02/05/96 com os títulos, “Ex-guia mostra onde os corpos foram enterrados”, “De Xambioá a Marabá, o roteiro dos cemitérios” e“Moradores
contam a prisão e a morte de guerrilheiros”, assinadas por Amaury Ribeiro Jr., trouxeram depoimento de uma testemunha ocular do ocorrido. Segundo o guia Manuel Leal Lima, o
Vanu, contou ao jornalista, “ele guiava o pelotão de 15 soldados, comandados pelos oficiais Cid e Adulpro, por volta das 2h da tarde. Famintos, os quatro guerrilheiros
carregavam nas costas três porcos abatidos na Fazenda do Caçador, de propriedade de Geraldo de Souza, um ex-delegado de São Domingos que trabalhava como guia do
Exército. O barulho dos tiros dos guerrilheiros para matar os porcos alertou a patrulha. Segundo Vanu, o Exército chegou na fazenda atirando.
Alfredo ainda tentou reagir, disparando dois tiros que se perderam na mata.
Foi fuzilado em seguida. João Gualberto também foi morto, quando tentou se esconder atrás de uma castanheira. André Grabois foi o primeiro a ser atingido, morrendo em
seguida. Depois de recolher a munição e as armas dos guerrilheiros – sete quilos de munição e cinco revólveres 38 – o major Cid ordenou ao guia: - Ponha os corpos em cima do
burro e enterre os terroristas a três quilômetros de distância em direção ao rio. As covas têm que ficar a um quilômetro e meio de distância uma da outra. - As cabeças dos‘paulistas’ iam balançando no burro lentamente, totalmente arrebentadas.
Depois de enterrar os corpos, fui resgatado por um helicóptero que levou o Nunes, ferido com vários tiros, até o DNER, onde ele e mais 20 outros guerrilheiros foram enterrados –
conta Vanu”.
Dias antes do julgamento, em 22/04/1971, viajou para o Araguaia, região de Caianos, integrou-se ao Destacamento C e ficou conhecido como Mundico. Lá, desenvolveu o hábito de fazer cordéis, sendo de sua autoria um que aborda os 27 pontos da União de Luta pelos Direitos do Povo – ULDP. Esse cordel chegou a ser recitado por moradores da região.
Quanto à data de sua morte, existe uma referência ao dia 16 de agosto, mas também existe o registro do mês setembro. Ângelo Arroyo comenta em seu relatório: “
...acontecimentos negativos ocorreram também em setembro: a morte de Mundico, do C, por acidente com a arma que portava..”.. No entanto, segundo o Relatório do Ministério do Exército, entregue em 1993 ao ministro da Justiça Maurício Corrêa, Rosalindo “teria sido morto no dia 6 Ago 73, em combate com as forças de segurança”. Já o relatório da Marinha, do mesmo ano, também marca setembro: “relacionado entre os que estiveram ligados à tentativa de implantação de guerrilha rural, levada a efeito pelo comitê central do PCdoB, em Xambioá. Morto em SET 73”.
Em declaração prestada ao Ministério Público, em São Geraldo do Araguaia, em 19/07/01, Sinésio Martins Ribeiro, ex-colaborador do Exército na região, conta que quando ainda estava preso no curral da base de Xambioá, viu a cabeça do Mundico. Isto se deu entre agosto e setembro, “porque as roças ainda não tinham sido queimadas e quem descobriu a sepultura foi o João do Buraco, proprietário do local onde estava enterrado o Mundico. As terras do João do Buraco eram freqüentadas pelos guerrilheiros e João do Buraco, ao ser preso pelo Exército, mostrou a sepultura. O Exército não havia travado combates neste local e por isso disse que foram os guerrilheiros que mataram o Mundico.
O Exército chegou lá por volta de 4 ou 5 dias após, cavou a sepultura, cortou a cabeça e enterrou novamente o corpo. A cabeça foi levada para a base e mostrada aos presos
para reconhecimento. Ela estava meio destruída, o cabelo solto e João do Buraco reconheceu o Mundico.
Os documentos estavam com o morto e a cabeça do Mundico ficou exposta uns dois dias perto do barracão do Exército e foi enterrada perto de um pé de jatobá que ficava perto da base”.
Importa registrar, aqui, que nos dois livros mais recentes sobre o episódio histórico do Araguaia, os autores dão guarida a uma versão que militares participantes da repressão à
guerrilha sustentam, taxativamente, de que Mundico teria sido “justiçado” pelos próprios guerrilheiros.
Vale registrar que tal informação também pode representar mais uma tentativa de desmoralizar os militantes mortos, como era prática rotineira dos órgãos de segurança do regime militar, conforme já relatado em inúmeros casos deste livro-relatório.
ROSALINDO SOUZA
Militante do PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL (PC do B).
Nasceu a 2 de janeiro de 1940, em Caldeirão Grande, Estado da Bahia, filho de Rosalvo Cypriano Sousa e Lindaura Correia de Sousa
Desaparecido desde 1973 na Guerrilha do Araguaia, aos 33 anos.
Mudou-se com sua família, em 1945, para Itapetinga, onde concluiu o curso ginasial no Centro Educacional Alfredo Dutra.
Em 1961 trabalhou como diretor da secretaria da Câmara Municipal de Itapetinga, Bahia.
Indo para Salvador, iniciou o científico no Colégio Antônio Vieira, em 1957, interrompeu o curso no 3° ano para ingressar no serviço militar. No Exército, fez os cursos de Cabo e Sargento, dando baixa em 1960. Também em Salvador, fez o curso de contabilidade no Instituto Valença.
Em 1963 iniciou o curso de Direito na UFBa e nesta mesma época foi nomeado escriturário do IAPETEC (Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Comerciários).
Em 1968 foi eleito presidente do Diretório Acadêmico Rui Barbosa da Faculdade de Direito da UFBa, quanto teve início a perseguição política.
No ano seguinte, foi impedido de se matricular, indo para o Rio de Janeiro, onde terminou o curso na Faculdade Cândido Mendes. Inscreveu-se na OAB em 31 de março de 1970, sob o n° 3106. Voltou a Itapetinga, montando escritório de advocacia, em 1970. Também era poeta.
Foi indiciado na Justiça Militar com outros 10 estudantes e julgado à revelia no dia 13 de maio de 1971, sendo condenado a 2 anos e 2 meses de reclusão. Dias antes do julgamento, em 22 de abril de 1971, viajou para o Araguaia para a região de Caiano, integrando-se ao Destacamento C da Guerrilha.
O Relatório do Ministério do Exército diz que foi “morto em confronto com as forças de segurança em 16 de agosto de 1973.”
Poema de Rosalindo, publicado no “O Anuário do Colégio Antônio Vieira”, em 1958:
GRANDEZAS
Aos píncaros mais altos
Sonhei um dia subir,
Galgar em grandes saltos
A glória de um belo porvir.
Imaginava grandeza
Em tudo, não sei porque.
O futuro uma beleza,
Ser grande, queria ser.
Sonhei viver abastado,
Senti o amor nascer,
Sonhei na glória e honrado,
Sonhei meu nome crescer...
As dificuldades chegaram
Trazendo mil confusões,
Os sonhos elas levaram
Deixando desilusões.
Vivo hoje acabrunhado,
Cismando, só a pensar,
Me sentindo o culpado
Deixando o tempo passar.
Mas não morre a esperança
De uma glória eu alcançar,
Porque fica na lembrança
A vontade de lutar!!
ROSALINDO DE SOUZA (1940-1973)
Baiano de Caldeirão Grande, Rosalindo mudou-se em 1945, com a família, para a cidade de Itapetinga, onde concluiu o curso ginasial no Centro Educacional Alfredo Dutra. Em 1957, já em Salvador, interrompeu os estudos no terceiro ano do ensino médio, para ingressar no serviço militar,dando baixa em 1960. Em 1963, iniciou o curso de Direito na Universidade Federal da Bahia e, já militante do PCdoB, foi eleito presidente do diretório acadêmico.
Após o AI-5, foi impedido de se matricular em sua faculdade. Em 1969, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde residiu por algum tempo com o casal Dinalva e Antonio Carlos, seus amigos da Bahia, também combatentes e mortos no Araguaia.
Rosalindo viajou para a região de Caianos em abril de 1971, dias antes de ser condenado à revelia a dois anos e dois meses de prisão pela Justiça Militar. No Araguaia, integrou-se ao Destacamento C da guerrilha e ficou conhecido como Mundico. Era um artista, fez canções, poemas, peças de teatro.
Desenvolveu o hábito de fazer cordéis, sendo de sua autoria um que aborda os 27 pontos da União de Luta pelos Direitos do Povo – ULDP. Esse cordel chegou a ser recitado por moradores da região.
Quanto à data de sua morte, existem referências ao dia 16 de agosto e também ao mês de setembro.
Ângelo Arroyo comenta em seu relatório: “[...] acontecimentos negativos ocorreram também em setembro: a morte de Mundico, do C, por acidente com a arma que portava...”. No entanto, segundo o relatório do Ministério do Exército, de 1993, Rosalindo “teria sido morto no dia 6 Ago 73, em combate com as forças de segurança”. O relatório da Marinha marca setembro.
Em declaração prestada ao Ministério Público, em São Geraldo do Araguaia, em 19 de julho de 2001, Sinésio Martins Ribeiro, ex-colaborador do Exército na região, conta que, quando ainda estava preso no curral da base de Xambioá, viu a cabeça de Rosalindo. Isto se deu entre agosto e setembro porque as roças ainda não tinham sido queimadas e quem descobriu a sepultura foi o João do Buraco, proprietário do local onde estava enterrado o Mundico. As terras do João do Buraco eram frequentadas
pelos guerrilheiros e João do Buraco, ao ser preso pelo Exército, mostrou a sepultura. O Exército não havia travado combates neste local e por isso disse que foram os guerrilheiros que mataram o Mundico. O Exército chegou lá por volta de 4 ou 5 dias após, cavou a sepultura, cortou a cabeça e enterrou novamente o corpo. A cabeça foi levada para a base e mostrada aos presos para
reconhecimento. Ela estava meio destruída, o cabelo solto e João do Buraco reconheceu o Mundico.
Os documentos estavam com o morto e a cabeça do Mundico ficou exposta uns dois dias perto do barracão do Exército e foi enterrada perto de um pé de jatobá que ficava na base.
Nos dois livros mais recentes sobre o episódio histórico do Araguaia, os autores dão guarida à versão que militares participantes da repressão à guerrilha sustentam, taxativamente, de que Mundico teria sido “justiçado” pelos próprios guerrilheiros. Tal informação, entretanto, poderia representar mais uma tentativa de desmoralizar os militantes mortos, como era prática rotineira dos órgãos de segurança.
(do livro Habeas Corpus)
Monumento aos Mortos e Desaparecidos Políticos da Bahia
O Monumento aos Mortos e Desaparecidos Políticos da Bahia foi edificado na praça Tancredo Neves e inaugurado em 9 de julho de 1998, por iniciativa do Grupo Labor – Assessoria, Documentação e Pesquisa. O monumento presta homenagem àqueles que foram submetidos aos horrores da Ditadura Militar, instalada no Brasil, em 1964. Traz uma figura humana vazada, dando o sentido de ausência. A arte é dos conquistenses Romeu Ferreira e Ana Palmira Cassimiro. Os nomes dos baianos, vítimas fatais do Regime Militar, são os seguintes:
Antonio Carlos Monteiro Teixeira
Aderval Alves Coqueiro
Carlos Marighela
Demerval da Silva Pereira
Dinaelza Soares Santana Coqueiro
Dinalva Oliveira Teixeira
Ednaldo Gomes da Silva
José Lima Piauhy Dourado
João Carlos Cavalcante Reis
José Campos Barreto
Joel Vasconcelos Santos
Jorge Leal Gonçalves Pereira
Luis Antonio Santa Bárbara
Mário Alves de Sousa Vieira
Maurício Grabois
Nelson Lima Piauhy Dourado
Nilda Carvalho Cunha
Péricles Gusmão Régis
Pedro Domiense de Oliveira
Otoniel Campos Barreto
Rosalindo Souza
Sérgio Landulfo Furtado
Stuart Edgard Angel Jones
Uirassú de Assis Batista
Vandick Reidner Pereira Coqueiro
Vitorino Alves Martinho
Walter Ribeiro Novaes
Filiação:
Lindaura Correia Silva e Rosalvo Cypriano Sousa
Data e local de nascimento:
02/01/1940, Caldeirão Grande (BA)
Organização política ou atividade:
PCdoB
Data do desaparecimento:
entre 16/08 e setembro/1973
Baiano de Caldeirão Grande mudou-se para a cidade de Itapetinga, em 1945, com a família, onde concluiu o curso ginasial no Centro Educacional Alfredo Dutra. Em 1957, já em
Salvador, interrompeu os estudos, no terceiro ano, para ingressar no serviço militar. No Exército, fez os cursos de cabo e sargento, dando baixa em 1960.
Em 1961, trabalhou como diretor da secretaria da Câmara Municipal de Itapetinga. Em 1963, iniciou o curso de Direito na Universidade Federal da Bahia, sendo nomeado na mesma
época escriturário do Instituto de
Aposentadoria e Pensão dos Comerciários. Cinco anos depois, já militante do PCdoB, foi eleito presidente do Diretório Acadêmico Rui Barbosa da Faculdade de Direito da UFBA, quanto teve início a sua perseguição política. Tornou-se dirigente estadual do PCdoB na Bahia.
Após o AI-5, foi impedido de se matricular em sua faculdade e mudou-se para o Rio de Janeiro, em 1969, onde residiu por algum tempo com o casal Dinalva e Antonio Carlos, seus amigos da Bahia, também combatentes e mortos no Araguaia. Rosalindo terminou o curso de Direito na Faculdade Cândido Mendes e se inscreveu na OAB em 31/03/1970. Voltou a
Itapetinga e montou um escritório de advocacia. No ano seguinte, foi denunciado perante a Justiça Militar e julgado à revelia no dia 13/05/1971, sendo condenado a dois anos e dois meses
Conforme o relatório Arroyo, “
Alfredo (Antônio Alfredo) na ocasião insistiu com Zé Carlos (André Grabois) para que fossem apanhar dois porcos dele que se encontravam numa roça próxima. Os porcos ajudariam a alimentação dos guerrilheiros. Zé Carlos considerou temerário o projeto de Alfredo. Chegou a dizer: ‘Não vamos morrer pela boca’. Sabia que o Exército provavelmente estaria emboscado na roça onde se encontravam os porcos. No dia seguinte, saíram cinco companheiros para apanhar farinha num depósito e, se nada de anormal notassem, poderiam ir apanhar os porcos. Mas no caminho decidiram ir, primeiramente, apanhar os porcos. Lá chegaram cerca das 9 horas. Mataram os porcos com quatro tiros e os levaram para um lugar limpo a fim de retalhá-los. Fizeram fogo de palha para pelar os porcos. Uma hora depois estava terminado o serviço. Mas quando foram carregar a carne, as alças das mochilas quebraram. Alfredo resolveu então improvisar um atado de cipó (vira-mundo) para carregar nas costas. Quando terminou o último atado eram já 12 horas. Estavam presentes os companheiros: Zé Carlos (André), Nunes (Divino Ferreira de Souza), Alfredo, Zebão (João Gualberto) e João (Dermeval da Silva Pereira). Preparavam-se para sair quando Alfredo ouviu um barulho esquisito. Chamou a atenção de João.
Este, porém, achou que era uma palha de coqueiro que tinha caído.
Ato contínuo, apareceram os soldados, apontando suas armas. Atiraram sobre o grupo. João conseguiu escapar, os outros foram mortos. Não tiveram tempo nem de pegar as
armas (14/10/73)”.
Matérias publicada no jornal O Globo, em 02/05/96 com os títulos, “Ex-guia mostra onde os corpos foram enterrados”, “De Xambioá a Marabá, o roteiro dos cemitérios” e“Moradores
contam a prisão e a morte de guerrilheiros”, assinadas por Amaury Ribeiro Jr., trouxeram depoimento de uma testemunha ocular do ocorrido. Segundo o guia Manuel Leal Lima, o
Vanu, contou ao jornalista, “ele guiava o pelotão de 15 soldados, comandados pelos oficiais Cid e Adulpro, por volta das 2h da tarde. Famintos, os quatro guerrilheiros
carregavam nas costas três porcos abatidos na Fazenda do Caçador, de propriedade de Geraldo de Souza, um ex-delegado de São Domingos que trabalhava como guia do
Exército. O barulho dos tiros dos guerrilheiros para matar os porcos alertou a patrulha. Segundo Vanu, o Exército chegou na fazenda atirando.
Alfredo ainda tentou reagir, disparando dois tiros que se perderam na mata.
Foi fuzilado em seguida. João Gualberto também foi morto, quando tentou se esconder atrás de uma castanheira. André Grabois foi o primeiro a ser atingido, morrendo em
seguida. Depois de recolher a munição e as armas dos guerrilheiros – sete quilos de munição e cinco revólveres 38 – o major Cid ordenou ao guia: - Ponha os corpos em cima do
burro e enterre os terroristas a três quilômetros de distância em direção ao rio. As covas têm que ficar a um quilômetro e meio de distância uma da outra. - As cabeças dos‘paulistas’ iam balançando no burro lentamente, totalmente arrebentadas.
Depois de enterrar os corpos, fui resgatado por um helicóptero que levou o Nunes, ferido com vários tiros, até o DNER, onde ele e mais 20 outros guerrilheiros foram enterrados –
conta Vanu”.
Dias antes do julgamento, em 22/04/1971, viajou para o Araguaia, região de Caianos, integrou-se ao Destacamento C e ficou conhecido como Mundico. Lá, desenvolveu o hábito de fazer cordéis, sendo de sua autoria um que aborda os 27 pontos da União de Luta pelos Direitos do Povo – ULDP. Esse cordel chegou a ser recitado por moradores da região.
Quanto à data de sua morte, existe uma referência ao dia 16 de agosto, mas também existe o registro do mês setembro. Ângelo Arroyo comenta em seu relatório: “
...acontecimentos negativos ocorreram também em setembro: a morte de Mundico, do C, por acidente com a arma que portava..”.. No entanto, segundo o Relatório do Ministério do Exército, entregue em 1993 ao ministro da Justiça Maurício Corrêa, Rosalindo “teria sido morto no dia 6 Ago 73, em combate com as forças de segurança”. Já o relatório da Marinha, do mesmo ano, também marca setembro: “relacionado entre os que estiveram ligados à tentativa de implantação de guerrilha rural, levada a efeito pelo comitê central do PCdoB, em Xambioá. Morto em SET 73”.
Em declaração prestada ao Ministério Público, em São Geraldo do Araguaia, em 19/07/01, Sinésio Martins Ribeiro, ex-colaborador do Exército na região, conta que quando ainda estava preso no curral da base de Xambioá, viu a cabeça do Mundico. Isto se deu entre agosto e setembro, “porque as roças ainda não tinham sido queimadas e quem descobriu a sepultura foi o João do Buraco, proprietário do local onde estava enterrado o Mundico. As terras do João do Buraco eram freqüentadas pelos guerrilheiros e João do Buraco, ao ser preso pelo Exército, mostrou a sepultura. O Exército não havia travado combates neste local e por isso disse que foram os guerrilheiros que mataram o Mundico.
O Exército chegou lá por volta de 4 ou 5 dias após, cavou a sepultura, cortou a cabeça e enterrou novamente o corpo. A cabeça foi levada para a base e mostrada aos presos
para reconhecimento. Ela estava meio destruída, o cabelo solto e João do Buraco reconheceu o Mundico.
Os documentos estavam com o morto e a cabeça do Mundico ficou exposta uns dois dias perto do barracão do Exército e foi enterrada perto de um pé de jatobá que ficava perto da base”.
Importa registrar, aqui, que nos dois livros mais recentes sobre o episódio histórico do Araguaia, os autores dão guarida a uma versão que militares participantes da repressão à
guerrilha sustentam, taxativamente, de que Mundico teria sido “justiçado” pelos próprios guerrilheiros.
Vale registrar que tal informação também pode representar mais uma tentativa de desmoralizar os militantes mortos, como era prática rotineira dos órgãos de segurança do regime militar, conforme já relatado em inúmeros casos deste livro-relatório.
ROSALINDO SOUZA
Militante do PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL (PC do B).
Nasceu a 2 de janeiro de 1940, em Caldeirão Grande, Estado da Bahia, filho de Rosalvo Cypriano Sousa e Lindaura Correia de Sousa
Desaparecido desde 1973 na Guerrilha do Araguaia, aos 33 anos.
Mudou-se com sua família, em 1945, para Itapetinga, onde concluiu o curso ginasial no Centro Educacional Alfredo Dutra.
Em 1961 trabalhou como diretor da secretaria da Câmara Municipal de Itapetinga, Bahia.
Indo para Salvador, iniciou o científico no Colégio Antônio Vieira, em 1957, interrompeu o curso no 3° ano para ingressar no serviço militar. No Exército, fez os cursos de Cabo e Sargento, dando baixa em 1960. Também em Salvador, fez o curso de contabilidade no Instituto Valença.
Em 1963 iniciou o curso de Direito na UFBa e nesta mesma época foi nomeado escriturário do IAPETEC (Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Comerciários).
Em 1968 foi eleito presidente do Diretório Acadêmico Rui Barbosa da Faculdade de Direito da UFBa, quanto teve início a perseguição política.
No ano seguinte, foi impedido de se matricular, indo para o Rio de Janeiro, onde terminou o curso na Faculdade Cândido Mendes. Inscreveu-se na OAB em 31 de março de 1970, sob o n° 3106. Voltou a Itapetinga, montando escritório de advocacia, em 1970. Também era poeta.
Foi indiciado na Justiça Militar com outros 10 estudantes e julgado à revelia no dia 13 de maio de 1971, sendo condenado a 2 anos e 2 meses de reclusão. Dias antes do julgamento, em 22 de abril de 1971, viajou para o Araguaia para a região de Caiano, integrando-se ao Destacamento C da Guerrilha.
O Relatório do Ministério do Exército diz que foi “morto em confronto com as forças de segurança em 16 de agosto de 1973.”
Poema de Rosalindo, publicado no “O Anuário do Colégio Antônio Vieira”, em 1958:
GRANDEZAS
Aos píncaros mais altos
Sonhei um dia subir,
Galgar em grandes saltos
A glória de um belo porvir.
Imaginava grandeza
Em tudo, não sei porque.
O futuro uma beleza,
Ser grande, queria ser.
Sonhei viver abastado,
Senti o amor nascer,
Sonhei na glória e honrado,
Sonhei meu nome crescer...
As dificuldades chegaram
Trazendo mil confusões,
Os sonhos elas levaram
Deixando desilusões.
Vivo hoje acabrunhado,
Cismando, só a pensar,
Me sentindo o culpado
Deixando o tempo passar.
Mas não morre a esperança
De uma glória eu alcançar,
Porque fica na lembrança
A vontade de lutar!!
ROSALINDO DE SOUZA (1940-1973)
Baiano de Caldeirão Grande, Rosalindo mudou-se em 1945, com a família, para a cidade de Itapetinga, onde concluiu o curso ginasial no Centro Educacional Alfredo Dutra. Em 1957, já em Salvador, interrompeu os estudos no terceiro ano do ensino médio, para ingressar no serviço militar,dando baixa em 1960. Em 1963, iniciou o curso de Direito na Universidade Federal da Bahia e, já militante do PCdoB, foi eleito presidente do diretório acadêmico.
Após o AI-5, foi impedido de se matricular em sua faculdade. Em 1969, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde residiu por algum tempo com o casal Dinalva e Antonio Carlos, seus amigos da Bahia, também combatentes e mortos no Araguaia.
Rosalindo viajou para a região de Caianos em abril de 1971, dias antes de ser condenado à revelia a dois anos e dois meses de prisão pela Justiça Militar. No Araguaia, integrou-se ao Destacamento C da guerrilha e ficou conhecido como Mundico. Era um artista, fez canções, poemas, peças de teatro.
Desenvolveu o hábito de fazer cordéis, sendo de sua autoria um que aborda os 27 pontos da União de Luta pelos Direitos do Povo – ULDP. Esse cordel chegou a ser recitado por moradores da região.
Quanto à data de sua morte, existem referências ao dia 16 de agosto e também ao mês de setembro.
Ângelo Arroyo comenta em seu relatório: “[...] acontecimentos negativos ocorreram também em setembro: a morte de Mundico, do C, por acidente com a arma que portava...”. No entanto, segundo o relatório do Ministério do Exército, de 1993, Rosalindo “teria sido morto no dia 6 Ago 73, em combate com as forças de segurança”. O relatório da Marinha marca setembro.
Em declaração prestada ao Ministério Público, em São Geraldo do Araguaia, em 19 de julho de 2001, Sinésio Martins Ribeiro, ex-colaborador do Exército na região, conta que, quando ainda estava preso no curral da base de Xambioá, viu a cabeça de Rosalindo. Isto se deu entre agosto e setembro porque as roças ainda não tinham sido queimadas e quem descobriu a sepultura foi o João do Buraco, proprietário do local onde estava enterrado o Mundico. As terras do João do Buraco eram frequentadas
pelos guerrilheiros e João do Buraco, ao ser preso pelo Exército, mostrou a sepultura. O Exército não havia travado combates neste local e por isso disse que foram os guerrilheiros que mataram o Mundico. O Exército chegou lá por volta de 4 ou 5 dias após, cavou a sepultura, cortou a cabeça e enterrou novamente o corpo. A cabeça foi levada para a base e mostrada aos presos para
reconhecimento. Ela estava meio destruída, o cabelo solto e João do Buraco reconheceu o Mundico.
Os documentos estavam com o morto e a cabeça do Mundico ficou exposta uns dois dias perto do barracão do Exército e foi enterrada perto de um pé de jatobá que ficava na base.
Nos dois livros mais recentes sobre o episódio histórico do Araguaia, os autores dão guarida à versão que militares participantes da repressão à guerrilha sustentam, taxativamente, de que Mundico teria sido “justiçado” pelos próprios guerrilheiros. Tal informação, entretanto, poderia representar mais uma tentativa de desmoralizar os militantes mortos, como era prática rotineira dos órgãos de segurança.
(do livro Habeas Corpus)
Monumento aos Mortos e Desaparecidos Políticos da Bahia
O Monumento aos Mortos e Desaparecidos Políticos da Bahia foi edificado na praça Tancredo Neves e inaugurado em 9 de julho de 1998, por iniciativa do Grupo Labor – Assessoria, Documentação e Pesquisa. O monumento presta homenagem àqueles que foram submetidos aos horrores da Ditadura Militar, instalada no Brasil, em 1964. Traz uma figura humana vazada, dando o sentido de ausência. A arte é dos conquistenses Romeu Ferreira e Ana Palmira Cassimiro. Os nomes dos baianos, vítimas fatais do Regime Militar, são os seguintes:
Antonio Carlos Monteiro Teixeira
Aderval Alves Coqueiro
Carlos Marighela
Demerval da Silva Pereira
Dinaelza Soares Santana Coqueiro
Dinalva Oliveira Teixeira
Ednaldo Gomes da Silva
José Lima Piauhy Dourado
João Carlos Cavalcante Reis
José Campos Barreto
Joel Vasconcelos Santos
Jorge Leal Gonçalves Pereira
Luis Antonio Santa Bárbara
Mário Alves de Sousa Vieira
Maurício Grabois
Nelson Lima Piauhy Dourado
Nilda Carvalho Cunha
Péricles Gusmão Régis
Pedro Domiense de Oliveira
Otoniel Campos Barreto
Rosalindo Souza
Sérgio Landulfo Furtado
Stuart Edgard Angel Jones
Uirassú de Assis Batista
Vandick Reidner Pereira Coqueiro
Vitorino Alves Martinho
Walter Ribeiro Novaes
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