domingo, 31 de julho de 2011

TERRORISTA LOURO DE OLHOS AZUIS







Preconceitos, como mentiras, nascem da falta de informação (ignorância) e excesso de repetição. Se pais de uma criança branca se referem em termos pejorativos a negros e indígenas, judeus e homossexuais, dificilmente a criança, quando adulta, escapará do preconceito.
A mídia usamericana incutiu no Ocidente o sofisma de que todo muçulmano é um terrorista em potencial. O que induziu o papa Bento XVI a cometer a gafe de declarar, na Alemanha, que o Islã é originariamente violento e, em sua primeira visita aos EUA, comparecer a uma sinagoga sem o cuidado de repetir o gesto numa
mesquita.
Em qualquer aeroporto de países desenvolvidos um passageiro em trajes islâmicos ou cujos traços fisionômicos lembrem um saudita, com certeza será parado e meticulosamente revistado.
Ali reside o perigo... alerta o preconceito infundido.
Ora, o terrorismo não foi inventado pelos fundamentalistas islâmicos.
Dele foram vítimas os árabes atacados pelas Cruzadas e os 70 milhões de indígenas mortos na América Latina, no decorrer do século 16, em decorrência da colonização ibérica.
O maior atentado terrorista da história não foi a queda, em Nova York, das torres gêmeas, há 10 anos, e que causou a morte de 3 mil pessoas.
Foi o praticado pelo governo dos EUA: as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945. Morreram 242.437 mil civis, sem contar as mortes posteriores por efeito da contaminação.
Súbito, a pacata Noruega – tão pacata que, anualmente, concede o Prêmio Nobel da Paz – vê-se palco de dois atentados terroristas que deixam dezenas de mortos e muitos feridos.


A imagem bucólica do país escandinavo é apenas aparente. Tropas norueguesas também intervêm no Afeganistão e deram apoio aos EUA na guerra do Iraque.
Tão logo a notícia correu mundo, a suspeita recaiu sobre os islâmicos.


O duplo atentado, no gabinete do primeiro-ministro e na ilha de Utoeya, teria sido um revide ao assassinato de Bin Laden e às caricaturas de Maomé publicadas pela imprensa escandinava.
O preconceito estava entranhado na lógica ocidental.
A verdade, ao vir à tona, constrangeu os preconceituosos. O autor do hediondo crime foi o jovem norueguês Anders Behring Breivik, 32 anos, branco, louro, de olhos azuis, adepto da fisicultura e dono de uma fazenda de produtos orgânicos.
O tipo do sujeito que jamais levantaria suspeitas na alfândega dos EUA.


Ele "é dos nossos”, diriam os policiais condicionados a suspeitar de quem não tem a pele suficientemente clara nem olhos azuis ou verdes.
Democracia é diversidade de opiniões. Mas o que o Ocidente sabe do conceito de terrorismo na cabeça de um vietnamita, iraquiano ou afegão?
O que pensa um líbio sujeito a ser atingido por um míssil atirado pela OTAN sobre a população civil de seu país, como denunciou o núncio apostólico em Trípoli?
Anders é um típico escandinavo. Tem a aparência de príncipe. E alma de viking. É
o que a mídia e a educação deveriam se perguntar: o que estamos incutindo na cabeça
das pessoas? Ambições ou valores?
Preconceitos ou princípios? Egocentrismo ou ética?
O ser humano é a alma que carrega. Amy Winehouse tinha apenas 27 anos, sucesso mundial como compositora e intérprete, e uma fortuna incalculável. Nada disso a fez uma mulher feliz. O que não encontrou em si ela buscou nas drogas e no álcool. Morreu prematuramente, solitária, em casa.
O que esperar de uma sociedade em que, entre cada 10 filmes, 8 exaltam a violência; o pai abraça o filho em público e os dois são agredidos como homossexuais; o motorista de um Porsche se choca a 150km por hora com
uma jovem advogada que perece no acidente e ele continua solto; o político fica indignado com o bandido que assaltou a filha dele e, no entanto, mete a mão no dinheiro público e ainda estranha ao ser demitido?
Enquanto a diferença gerar divergência permaneceremos na pré-história do projeto civilizatório verdadeiramente humano.




[Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Marcelo Gleiser e Waldemar Falcão, de "Conversa sobre a fé e a ciência”.

PASTOR LUCIUS WALKER

Cinzas do pastor americano que desafiou embargo dos EUA vão repousar em Cuba



HAVANA — As cinzas do pastor americano Lucius Walker, organizador de uma inúmeros comboios de ajuda a Cuba e que desafiou o embargo de Washington, repousam este sábado no centro cubano evangélico Memorial Martin Luther King (CMMLK), informou a imprensa local.
Seguidores Walker entregaram a urna aos evangélicos cubanos em uma cerimônia no Memorial José Martí, na Praça da Revolução, na presença do vice-presidente Esteban Lazo e do presidente do Parlamento, Ricardo Alarcon.


Walker, líder das caravanas "Pastores pela Paz", que buscavam romper o embargo que Washington mantém contra Cuba há meio século, morreu em setembro, em Nova York, aos 80 anos, de um ataque cardíaco.
O pastor, amigo do ex-presidente cubano Fidel Castro, a quem conheceu em julho passado, em sua última viagem à ilha, tinha expressado seu desejo de que suas cinzas repousassem em Cuba, de acordo com seus parentes.


O reverendo Raul Suarez, diretor do CMMLK, disse ao receber a urna que "a obra de Lucius Walker tem muito significado como testemunho da fé cristã comprometida com a paz, justiça e solidariedade".
A entrega das cinzas foi realizada no âmbito da vigésima caravana de solidariedade, que chegou à ilha há uma semana com 100 toneladas de ajuda humanitária, liderada pela filha do líder religioso, Gail Walker.

sábado, 30 de julho de 2011

DONA HELENA GRECO. PRESENTE


HELENA GRECO. PRESENTE


HELENA GRECO. PRESENTE

http://www.dzai.com.br/ipad/video/playvideo?tv_vid_id=134603

sexta-feira, 29 de julho de 2011

DONA HELENA GRECO

O corpo de Helena Greco, uma das fundados do PT e a primeira da legenda a ocupar uma vaga na Câmara Municipal de Belo Horizonte, MG, foi enterrado na manhã de hoje em cemitério da cidade. Dona Helena, como era conhecida, morreu nesta quarta-feira aos 95 anos, vítima de uma insuficiência cardíaca.






Em nota, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lamentou a morte da colega de partido. Segundo Lula, o nome de Helena estará ligado para sempre à causa dos direitos humanos do país. Ele disse ainda que ela foi uma “lutadora incansável contra a ditadura e pela redemocratização do país”.


Veja a íntegra da nota:


“O nome de Helena Greco está ligado para sempre à causa dos direitos humanos no Brasil. Foi lutadora incansável contra a ditadura e pela redemocratização do país. Seu destemor a tornou uma das principais referências da campanha pela anistia irrestrita. Posteriormente, dedicou-se com a mesma coragem e determinação à defesa dos trabalhadores e de todos os oprimidos.


Participou com entusiasmo da criação do PT, tendo integrado a direção nacional do partido, vindo a ser a primeira vereadora da legenda de Belo Horizonte. Mulher admirável, granjeou o respeito e o carinho de todos os que tiveram a felicidade de conhecê-la.


A querida Helena Greco ficará em nossos corações como um exemplo extraordinário de dignidade e espírito de justiça.”



quinta-feira, 28 de julho de 2011

A NOSSA QUERIDA DONA HELENA GRECO.

 A NOSSA QUERIDA DONA HELENA GRECO.

Conheci Dona Helena Greco no início dos anos 80 no PT, achava maravilhoso ver aquela senhora, como disse Dirlene, bem mais Velha e tão animada nas discussões e nas saudosas disputas de alto nível dentro do PT. Ah! ... que saudade daquele tempo em que o PT era PT , o Partido inovador, onde nós os trabalhadores e trabalhadoras de fato participávamos e éramos felizes, bons tempos ... e nós lembramos, nossa memória não é curta, como temos costume de ouvir.
Centelha, DS, PT de Massa, PRC, Convergência Socialista, Libilu, quantas siglas e quanta utopia, quanta garra e desejo de mudanças. Éramos movidos pelos sonhos, pela crença de estar participando de um processo histórico de abertura política, de democracia e criação e crescimento de nosso Partido dos Trabalhadores.
Lembro-me chegando eu, minha saudosa irmã já falecida Carminha, Raimunda, Dimas e mais alguns, correndo dentro de seu gabinete na Câmara dos Vereadores na Rua Tamoios, pedindo socorro por termos perdido a convenção e termos sido tão maltratados dentro do PARTIDO. Dona Helena nos recebeu e fomos ali acalentados por aquela mulher que sabia no fundo do coração o que nós PT de Massa, da base , do Caetano Furquim queríamos. Queríamos colo, pois estávamos triste por termos sido derrotados e queríamos quebrar a Sede do PT, pelos erros que achávamos que teria acontecido dentro daquela convenção, apenas imaturidade de nossa parte.
Saímos dali, ainda mais animados com o nosso partido e entendemos que um dia se perde, mas também que em outro se ganha, mesmo achando que estávamos certos, este é o jogo da democracia.
Ela era nossa Vereadora, não pela tendência, e sim nossa representante política dentro da Câmara.
Crescemos assim e principalmente a partir daquela fala carinhosa sobre o que era o processo democrático e que precisávamos entendê-lo.
Ela estava sempre em tudo que o Partido realizava e tínhamos nela a referência de mulher, brava, guerreira e de voz embolada e pousada, era impar e nunca se dobrou aos machistas das correntes do PT.
Poderia aqui rememorar vários momentos , ela sempre na frente das marchas, dos atos políticos, onde a polícia viciada com a ditadura ainda agia covardemente em cima de nós militantes e sobre o gás lacrimogêneo distribuído democraticamente em cima de todos nós que lutávamos por democracia e as vezes os momentos de luta nos fazia correr Afonso Pena a fora e correr também lágrimas nos olhos de dor e desespero nos corações de tantos que ali estavam presentes.
Não tenho saudade da crueldade do tempo, mas saudade dos lindos momentos vividos e compartilhados, dos ensinamentos na hora do sufoco, saudade do Espaço cultural Dona Helena Greco do Sindicato dos Bancários em sua Homenagem. Espaço este, onde as tribos se misturavam e dali nascia muita poesia , articulações e alegrias , porque a Luta é esta! Sempre Continua!
Salve Dona Helena, salve seu Tempo, sua Coragem, Determinação e Garra, salve suas filhas, sua família e seguidoras, Salve tudo que você deixou de bom, seus ensinamentos e sua solidariedade ao Movimento Negro.
Salve tudo que você deixou de bom para quem quis aprender!


HELENA GRECO PRESENTE ! SEMPRE PRESENTE NA NOSSA LUTA E NO NOSSO CORAÇÃO!


Cleide Hilda
Presidente da Fundação Centro de Referência da Cultura Negra- CONEN MINAS


"Escrever é procurar entender,


é procurar reproduzir o irreproduzível,


é sentir até o último fim o sentimento
que permaneceria apenas vago e sufocador.


Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada."


(Clarice Lispector)


"Escrever é procurar entender,


é procurar reproduzir o irreproduzível,


é sentir até o último fim o sentimento


que permaneceria apenas vago e sufocador.


Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada."


(Clarice Lispector)

quarta-feira, 27 de julho de 2011

DONA HELENA GRECO. PRESENTE

FALECEU HOJE , QUARTA FEIRA, DIA 27/07/2011, as 5:30 da MANHÃ, DONA HELENA GRECO.
PERDA HISTÓRICA.
DONA HELENA GRECO .PRESENTE

MORTOS E DESAPARECIDOS POLITICOS DO BRASIL

FRANCISCO JOSÉ DE OLIVEIRA (1943-1971)

Filiação: Maria das Neves Knalfec Oliveira e Olívio Oliveira
Data e local de nascimento: 05/04/1943, Cabrália Paulista (SP)
Organização política ou atividade: MOLIPO
Data e local da morte: 05/11/1971, São Paulo (SP)
Relator: Suzana Keniger Lisbôa
Deferido em: 18/03/1996 por 6x1 (voto contra do general Oswaldo Pereira Gomes)
Francisco José de Oliveira, conhecido pelos amigos como "Chico Dialético", era aluno de Ciências Sociais na USP, participante do Movimento
Estudantil e foi militante da DISP até 1968. Ingressou na ALN em 1969 e conseguiu escapar, em 03/09/1969, da perseguição policial
que levou à morte de José Wilson Sabag, em São Paulo. Pouco depois desse episódio, decidiu refugiar-se em Cuba, onde participou de
treinamentos de guerrilha. Retornou ao Brasil em 1971, como militante do MOLIPO.
Segundo a versão oficial, Chico morreu em São Paulo (SP), no dia 05/11/1971, após enfrentamento com agentes do DOI-CODI/SP na rua Turiassu, zona oeste da capital paulista. Comunicado dos órgãos de segurança informou que, no tiroteio ocorrido, teria sido baleado na
perna o delegado Antonio Vilela, que servia naquele DOI. Conseguiu escapar do cerco policial a militante do MOLIPO Maria Augusta Thomaz, que relatou a seus companheiros de clandestinidade ter visto Francisco sendo atingido por disparos dos policiais. Ela também seria morta em 1973 e seu nome integra a lista de 136 desaparecidos políticos anexa à Lei nº 9.140/95 .
Antes do exame da documentação sobre o caso no processo formado junto à CEMDP, os familiares denunciavam que Francisco José tinha sido morto naquela rua, alvejado por uma rajada de metralhadora nas costas, quando tentava fugir. Enterrado com nome falso no Cemitério Dom Bosco, em Perus, seus restos mortais foram colocados na vala comum descoberta em 1990, conforme já mencionado neste livro-relatório.
Existe a possibilidade de que corresponda a ele uma das ossadas que aguardam identificação científica a partir dos exames de DNA,
sob os cuidados da CEMDP.
O laudo de necropsia foi lavrado com o nome falso de Dario Marcondes, sendo assinado pelos legistas Mario Nelson Matte e José Henrique
da Fonseca, que descrevem vários tiros, entre eles um que provavelmente abateu Francisco: o projétil penetrou na região lombar, linha
média, contornou a coluna, lesou alças intestinais delgadas e se alojou na parede anterior do abdômen, ao nível da cicatriz umbilical. A relatora do processo na CEMDP destacou que o laudo registra ainda outros seis tiros, sendo digno de nota um que sugere ter sido disparado
quando Francisco já estava abatido: o projétil penetrou no ângulo nasogeniano esquerdo, lesou a língua, desceu por diante da coluna
cervical, passou por trás da clavícula esquerda e se exteriorizou na região axilar direita.
Contradição flagrante foi detectada na comparação entre esse laudo, que não descreve edemas e escoriações no rosto, queixo, olho direito e pescoço, e a foto do IML onde esses sinais estão perfeitamente visíveis. Além disso, o laudo está lavrado com nome falso, embora haja
anotações ao lado com a identidade verdadeira. A requisição de exame ao IML, marcada com um "T" (terrorista) em vermelho e registrada
como homicídio, foi feita em nome de Dario Marcondes, apesar de ter sido fichado e fotografado, conforme requisição encontrada no DOPS, com a data de 5 de novembro, 16 horas.
No verso da requisição, a data de entrada no necrotério é do dia 4, às 20 horas. Seu corpo, portanto, teria dado entrada no IML, sem
roupas, antes da data da morte no suposto tiroteio, mas teria saído para o Cemitério de Perus às 10h do dia 06/11. A mesma requisição
de exame foi encontrada no DOPS com o nome verdadeiro - Francisco José de Oliveira, vulgo Amaro - e sem a identificação da ocorrência de homicídio.
A relatora na CEMDP ponderou em seu voto que Francisco dera entrada no necrotério quase 24 horas antes de ser morto, com nome falso
e fotografado como desconhecido, apesar de identificado pelos órgãos de segurança. Concluiu pela evidente tentativa de ocultação da
prisão, tortura e morte, votando pelo deferimento, no que foi acompanhada pelos demais integrantes da Comissão Especial, com exceção de um voto discordante.


FRANCISCO JOSÉ DE OLIVEIRA

Militante do MOVIMENTO DE LIBERTAÇÃO POPULAR (MOLIPO).


Nascido em Cabrália Paulista a 22 de fevereiro de 1943, filho de Olívio Oliveira e
Maria das Neves Knafelc.
Estudante de Ciências Sociais na USP.
Morto no dia 5 de novembro de 1971, na Rua Turiassú, bairro de Pompéia, em São Paulo.
Francisco e uma companheira foram surpreendidos em uma lanchonete na rua
Turiassú. Assim que foram reconhecidos, iniciou-se um violento tiroteio, no qual Francisco foi ferido gravemente. A companheira conseguiu fugir. Francisco, embora ferido, tentou ainda escapar dos policiais chefiados pelo delegado Antônio Vilela, mas foi atingido pelas costas por uma rajada de metralhadora.Além do delegado Vilela, participou do seu assassinato, o investigador Osvaldo Pinheiro do Amaral.


O laudo de necrópsia, assinado pelos médicos legistas Mário Nelson Matte e José Henrique da Fonseca, é feito com o nome falso de Dario Marcondes, sendo que, em anotação feita à mão está o nome verdadeiro Francisco José de Oliveira.
No doc. 30-Z-165-118, encontrado no arquivo do DOPS/SP, ao lado de um xerox de identidade de nome Dario Marcondes, está anotado à máquina, nome, filiação e data de nascimento de Francisco José de Oliveira. No entanto, a certidão de óbito é feita em nome de Dario Marcondes, mostrando a intenção dos órgãos de repressão de manter escondida a sua verdadeira identidade.
Sepultado como indigente no Cemitério Dom Bosco foi colocado na Vala de Perus e, encontra-se hoje na UNICAMP para ser identificado.
Segundo os Relatórios dos Ministérios da Aeronáutica e da Marinha, "no dia
5/11/71, em São Paulo/SP, ao encontrar-se com outro terrorista, agentes de segurança tentaram realizar a sua prisão, reagindo a tiros, sendo morto".


Francisco José de Oliveira
Militante do MOVIMENTO DE LIBERTAÇÃO POPULAR (MOLIPO).
Nascido em Cabrália Paulista a 22 de fevereiro de 1943, filho de Olívio Oliveira e Maria das Neves Knafelc.
Estudante de Ciências Sociais na USP.
Morto no dia 5 de novembro de 1971, na Rua Turiassú, bairro de Pompéia, em São Paulo.
Francisco e uma companheira foram surpreendidos em uma lanchonete na rua Turiassú. Assim que foram reconhecidos, iniciou-se um violento tiroteio, no qual Francisco foi ferido gravemente. A companheira conseguiu fugir. Francisco, embora ferido, tentou ainda escapar dos policiais chefiados pelo delegado Antônio Vilela, mas foi atingido pelas costas por uma rajada de metralhadora.
Além do delegado Vilela, participou do seu assassinato, o investigador Osvaldo Pinheiro do Amaral.
O laudo de necrópsia, assinado pelos médicos legistas Mário Nelson Matte e José Henrique da Fonseca, é feito com o nome falso de Dario Marcondes, sendo que, em anotação feita à mão está o nome verdadeiro Francisco José de Oliveira.
No doc. 30-Z-165-118, encontrado no arquivo do DOPS/SP, ao lado de um xerox de identidade de nome Dario Marcondes, está anotado à máquina, nome, filiação e data de nascimento de Francisco José de Oliveira. No entanto, a certidão de óbito é feita em nome de Dario Marcondes, mostrando a intenção dos órgãos de repressão de manter escondida a sua verdadeira identidade.
Sepultado como indigente no Cemitério Dom Bosco foi colocado na Vala de Perus e, encontra-se hoje na UNICAMP para ser identificado.
Segundo os Relatórios dos Ministérios da Aeronáutica e da Marinha, "no dia 5/11/71, em São Paulo/SP, ao encontrar-se com outro terrorista, agentes de segurança tentaram realizar a sua prisão, reagindo a tiros, sendo morto".
Perus abrigou cadáveres sem identificação
Folha de São Paulo, 25 de maio de 2003
DA SUCURSAL DO RIO
Construído no começo dos anos 1970, o cemitério de Perus foi depósito de cadáveres sem identificação (alguns de vítimas do esquadrão da morte), de ativistas de esquerda e indigentes.


Desde o final daquela década as famílias começaram a descobrir os restos de militantes políticos enterrados no local, conforme o livro "Mortos e Desaparecidos Políticos: Reparação ou Impunidade?" (Humanitas, 2000), da historiadora Janaína Teles.


Em 1990, foi descoberta uma vala clandestina. Em 1992, as famílias supuseram ter encontrado os restos de Torigoe e de outro militante, Luiz José da Cunha (neste caso não há confirmação).
As ossadas -1.049 da vala e algumas dos anos seguintes- foram levadas para a Unicamp, a fim de identificar quais seriam de desaparecidos políticos.
Na universidade, passaram boa parte do tempo armazenadas sem os devidos cuidados técnicos, com sacos abertos e restos de móveis jogados por cima.
Em 2000, a pedido das famílias, foram transferidas para a USP, cujo Departamento de Medicina Legal as está analisando, sob a coordenação do professor Daniel Muñoz.
Mais corpos
As famílias dos mortos estimam que, além dos restos de Hiroaki Torigoe, ainda estão em Perus, com certeza, os de Luiz Hirata e de José Milton Barbosa.
"Deve haver mais", diz Suzana Lisboa, cujo corpo do marido, o guerrilheiro Luiz Eurico Lisboa, foi desenterrado nos anos 1980 no cemitério paulistano.
Suspeita-se que nas ossadas recolhidas na vala estejam as de Flávio Molina, Dimas Casemiro, Francisco José de Oliveira e Grenaldo de Jesus da Silva.
Se não estiverem na USP, estão no cemitério, cujos livros registram que lá foram enterradas na vala. Os restos de cinco mortos (dois deles da vala) foram identificados nos anos 1990. Antes, pelo menos seis, todos de covas individuais. (MM)


FRANCISCO JOSÉ DE OLIVEIRA (1943-1971)
Paulista de Cabrália Paulista, Francisco era conhecido pelos amigos como "Chico Dialético". Era aluno de Ciências Sociais na USP, participante do movimento estudantil e militante da Disp (Dissidência Universitária de São Paulo - PCB) até 1968, tendo ingressado na ALN em 1969. Conseguiu escapar, em 3 de setembro de 1969, da perseguição policial que levou à morte de José Wilson Sabag, em São Paulo. Refugiado em Cuba, recebeu treinamento de guerrilha e retornou ao Brasil em 1971, como militante do Molipo.
Segundo a versão oficial, Francisco morreu no dia 5 de novembro de 1971, após enfrentamento com agentes do DOI-Codi/SP na rua Turiassu, zona oeste da capital paulista. Comunicado dos órgãos de
segurança informou que, no tiroteio ocorrido, teria sido baleado na perna o delegado Antonio Vilela, que servia naquele DOI. Conseguiu escapar do cerco policial a militante do Molipo Maria Augusta Thomaz, que relatou a seus companheiros ter visto Francisco sendo atingido por disparos dos policiais. Ela
também seria morta em 1973.
Antes do exame da documentação sobre o caso no processo formado junto à CEMDP, os familiares denunciavam que Francisco tinha sido morto naquela rua, alvejado por uma rajada de metralhadora nas costas, quando tentava fugir. Enterrado com nome falso no cemitério Dom Bosco, em Perus, seus restos
mortais foram colocados na vala comum descoberta em 1990. Existe a possibilidade de que corresponda a ele uma das ossadas que aguardam identificação.
O laudo de necropsia foi lavrado com o nome falso e assinado pelos legistas Mario Nelson Matte e José Henrique da Fonseca, que descrevem vários tiros. Contradição flagrante foi detectada na comparação entre esse laudo, que não descreve edemas e escoriações no rosto, queixo, olho direito e
pescoço, e a foto do IML onde esses sinais estão perfeitamente visíveis. Há, além disso, anotações ao lado que indicam a identidade verdadeira.
A requisição de exame ao IML, marcada com um "T" (terrorista) em vermelho e registrada como homicídio, foi feita em nome de Dario Marcondes, apesar de Francisco ter sido fichado e fotografado, conforme requisição encontrada no Dops, com a data de 5 de novembro, 16h. No verso da requisição,
a data de entrada no necrotério é do dia 4, às 20h. Seu corpo, portanto, teria dado entrada no IML, sem
roupas, antes da data da morte no suposto tiroteio, mas teria saído para o Cemitério de Perus às 10h do dia 6 de novembro. A mesma requisição de exame foi encontrada no Dops com o nome verdadeiro -
Francisco José de Oliveira, vulgo Amaro - e sem a identificação da ocorrência de homicídio.
A relatora na CEMDP ressaltou a contradição de que Francisco, segundo consta, teria dado entrada no necrotério quase 24 horas antes de ser morto, com nome falso e fotografado como desconhecido, apesar de identificado pelos órgãos de segurança. Concluiu pela evidente tentativa de ocultação da
prisão, tortura e morte.


FRANCISCO JOSÉ DE OLIVEIRA
Militante do MOVIMENTO DE LIBERTAÇÃO POPULAR (MOLIPO). Nascido em Cabrália Paulista a 22 de fevereiro de 1943, [...] Estudante de Ciências Sociais na USP. Morto no dia 5 de novembro de 1971, na Rua Turiassú, bairro de Pompéia, em são Paulo. Francisco e uma companheira foram surpreendidos em uma lanchonete na Rua Turiassú. Assim que foram reconhecidos, iniciou-se em violento tiroteio, no qual Francisco foi gravemente ferido, tentou ainda escapar dos policiais chefiados pelo delegado Antônio Vilela, ma foi atingido pelas costas por uma rajada de metralhadora. Além do delegado Vilela, participou do seu assassinato, o investigador Osvaldo Pinheiro do Amaral. O laudo da necrópsia, assinado pelos médicos legistas Mário Nelson Matte e José Henrique da Fonseca, é feito com o nome de Dário Marcondes, sendo que, em anotação feita à mão está o nome verdadeiro Francisco José de Oliveira. No doc. 30-Z165-118, encontrado no DOPS/SP, ao lado de um Xerox de identidade de nome Dário Marcondes, está anotado à máquina, nome, filiação e data de nascimento de Francisco Joe de Oliveira. No entanto, a certidão de óbito é feita em nome de Dario Marcondes, mostrando a intenção dos órgãos de repressão de manter escondida a sua verdadeira identidade. Sepultado como indigente no Cemitério Dom Bosco foi colocado na Vala de Perus e, encontra-se hoje na UNICAMP para ser identificado. Segundo os Relatórios dos Ministérios da Aeronáutica e da Marinha, "no dia 5/11/71, em São Paulo/SP, ao encontrar-se com outro terrorista, agentes de segurança tentaram realizar a sua prisão, reagindo a tiros, sendo morto.


Legistas identificam ossadas de militantes. Diário Popular, São Paulo, 10 jul. 1991. p. 3. Artigo sobre a identificação de algumas ossadas encontradas no Cemitério Dom Bosco, em Perus, São Paulo, SP, pela equipe chefiada pelo legista Fortunato Badan Palhares, da Universidade de Campinas (UNICAMP). Foram identificados os desaparecidos Dênis Casemiro, Antônio Carlos Bicalho Lana e Sônia Maria Lopes de Moraes. Houve uma cerimônia na qual participaram a prefeita Luíza Erundina e o secretário de Segurança Pública, Pedro Franco de Campos, entre outras autoridades. Segundo o delegado Jair Cesário da Silva, que conduz o inquérito sobre a vala comum em Perus, esses fatos são novos e podem levar à responsabilização criminal dos envolvidos nos crimes políticos da ditadura. A família de Sônia pretende processar a União, lembrando que os torturadores continuam impunes. Em Perus podem estar também as ossadas de Dimas Antonio Casemiro, Flávio Carvalho Molina, Francisco José de Oliveira, Frederico Eduardo Mayr e Grenaldo de Jesus Silva. Para isso, as ossadas foram divididas em cinco grupos, conforme as condições de identificação, e a UNICAMP está solicitando verbas para a compra de equipamento para a realização de exames de DNA. As informações dadas pelas famílias dos desaparecidos foram fundamentais para a identificação das ossadas, pois seus laudos necroscópicos não descreviam todas as lesões sofridas pelas vítimas. Luíza Erundina voltou a exigir que os arquivos do DOPS fossem liberados pela Polícia Federal, passando para o Arquivo do Estado de São Paulo, lembrando a importância dessas informações para as investigações da UNICAMP.
Relatório
Documento do arquivo do DOPS intitulado "Relação de aparelhos estourados nos meados de julho de 1971 a fevereiro de 1972". Entre outros, cita os aparelhos do MOLIPO pertencentes a Aylton Adalberto Mortati, na Rua Cervantes, Vila Prudente, Francisco José de Oliveira, na Rua Capote Valente, Flávio Carvalho Molina, na Rua Gonçalves Dias, Eduardo Antônio da Fonseca, na Praça Laurindo de Brito, e Frederico Eduardo Mayr, na Rua Arujá, em São Paulo, SP.
Relatório
Documento do Ministério do Exército, de 19/09/77, comunicando "estouro" pelo DOI-CODI de um "aparelho" do Movimento de Libertação Popular (MOLIPO) na Vila Prudente, São Paulo, SP, onde residiam Aylton Adalberto Mortati, José Roberto Arantes de Almeida e Maria Augusta Thomaz. Cita que, dentre inúmeros materiais e documentos, foi encontrado passaporte adulterado de Flora Frisch para Floro Frisch, utilizado por Francisco José de Oliveira, morto em 05/11/71, em parte de seu trajeto de Cuba para o Brasil. O documento apresenta carimbo do DOPS.
Relatório
Documento do Ministério da Aeronáutica, de 08/12/71. Traz relação de nomes de pessoas que fizeram curso de "terrorismo" em Cuba e de pessoas banidas do território nacional que retornaram ao país, dando continuidade às suas atividades políticas. O documento possui carimbo do DOPS.
Relatório
Documento da Comissão Especial - Lei 9.140/95, em 18/03/96. Relatora:Suzana Keniger Lisboa. Referente ao requerimento de Nella Oliveira Menin, irmã de Francisco José de Oliveira, para o reconhecimento da morte e inclusão de seu nome nos termos da Lei 9.140/95. Traz as circunstâncias da morte de Francisco e a conclusão de Suzana favorável ao deferimento do pedido.
Relatório
Relatório das circunstâncias da morte de Francisco José de Oliveira, elaborado pela Comissão dos Familiares dos Mortos e Desaparecidos

terça-feira, 26 de julho de 2011

A ONDA FILME PARTE V

A ONDA FILME PARTE IV

A ONDA FILME PARTE III

A ONDA - FILME

A ONDA - FILME

A ONDA - FILME

A onda’ e o irracionalismo dos grupos*


(comentário sobre o filme “A onda”)


O filme “A onda” [The wave][1] tem início com o professor de história Burt Ross explicando aos seus alunos a atmosfera da Alemanha, em 1930, a ascensão e o genocídio nazista. Os questionamentos dos alunos levam o professor a realizar uma arriscada experiência pedagógica que consiste em reproduzir na sala de aula alguns clichês do nazismo: usariam o slogan “Poder, Disciplina e Superioridade”, um símbolo gráfico para representar “A onda”, etc.
O professor Ross se declara o líder do movimento da “onda”, exorta a disciplina e faz valer o poder superior do grupo sobre os indivíduos. Os estudantes o obedecem cegamente. A tímida recusa de um aluno o obriga a conviver com ameaças e exclusão do grupo. A escola inteira é envolvida no fanatismo d’A onda, até que um casal de alunos mais consciente alerta ao professor ter perdido o controle da experiência pedagógica que passou ao domínio da realidade cotidiana da comunidade escolar.
O desfecho do filme é dado pelo professor ao desmascarar a ideologia totalitária que sustenta o movimento d’A onda , denuncia aos estudantes o sumiço dos sujeitos críticos diante de poder carismático de um líder e do fanatismo por uma causa.


Embora o filme seja uma metáfora de como surgiu o nazi-fascismo e o poder de seus rituais, pode conscientizar os estudantes sobre o poder doutrinário dos movimentos ideológicos políticos ou religiosos. O uso de slogans, palavras de ordem e a adoração a um suposto “grande líder” se repetem na história da humanidade: aconteceu na Alemanha nazista, na Itália fascista, e também no chamado ‘socialismo real’ da União Soviética, principalmente no período stalinista, na China com a “revolução cultural” promovida por Mao Tsé Tung, na Argentina com Perón, etc. Ainda, recentemente, líderes neo-populistas da América Latina, valendo-se de um discurso tosco anti-americano, conseguem enganar uma parte da esquerda resistente a aprender com a história.
Experiência pedagógica e política
Feito para a televisão, ‘A onda’ [The wave], foi baseado em um incidente real ocorrido em uma escola secundária norte-americana em 1967, em Palo Alto, Califórnia. Antes de virar filme, foi romanceado em livro. A idéia do filme, com 45 minutos, era para fazer parte do currículo da escola, para estudar, refletir e se prevenir contra a onda nazi-fascista que começou no final da década de 30. Com a derrota do nazi-fascismo na 2ª. Guerra Mundial e o surgimento da ‘guerra fria’, filmes assim, podem funcionar como alerta contra pregações doutrinárias que fazem apologia aos totalitarismos de direita ou de esquerda[2]. Muitas vezes, o doutrinamento pró-totalitarismo ocorre no âmbito
universitário, como se fosse ensino ‘científico’, onde a democracia é considerada uma má invenção ‘burguesa’ e a política uma prática a ser superada por um ‘novo’ sistema desenhado pelo abstracionismo teórico.


“A Onda” é uma metáfora que se aplica, mais ou menos, a qualquer movimento de massa respondente aos apelos de um líder carismático ou de uma causa mítica irracional. Foi assim com os atos criminosos da Ku Klux Klan, o macartismo que desencadeou a “caça às bruxas”[3] perseguindo todos os supostos “comunistas” nos EUA, os governos de direita da América Latina com traços totalitários como foi o de Pinochet (Chile), o regime de apartheid da África do Sul (antes de Nelson Mandela), o processo de “limpeza étnica” conduzida pelos sérvios nos Bálcãs, os grupos neonazistas skinheads espalhados pelo mundo, os carecas do ABC paulista, e o movimento separatista do Iguaçu, no Paraná, entre outros menos conhecidos. Também, os partidos políticos neonazistas abrigados no regime democrático, na Áustria, chefiado por J.Haidern, e na França, por Jean Marie Le Pen. Devem ser, ainda, incluídos os líderes com traços protofascistas (Eco, 1995): Berlusconi, que passou pelo governo da Itália, e líderes totalitários com traço imperial, como King Jon Il (Coréia do Norte), Assad (Síria), ou de milícias que ocupam o vazio do Estado (Hizbolá, Hamas, FARC, PCC) cujos atos truculentos faz semelhança com tantos movimentos fascistas italiano, espanhol, e mesmo o integralismo, no Brasil. No período da ditadura militar, depois 1964, no Brasil, surgem grupos de extrema-direita, como a TFP (Sociedade da Tradição, Família e Propriedade) e o CCC (Comando de Caça aos Comunistas), ambos com intenções de causar uma ‘onda’ de cooptação dos jovens para a sua luta ideológica e até terrorista[4].


Também líderes eleitos democraticamente, mas cujas manobras deixam transparecer traços totalitários (George W. Bush, Hugo Chávez, Mahmoud Ahmadinejad). Notamos que o traço comum entre estes líderes é a capacidade de fanatizar as massas por uma causa racional ou irracional, se valendo de métodos antidemocráticos como a censura, perseguições, prisões arbitrárias, elogios aos feitos do suposto ‘grande líder’, etc.


Também podem ser incluídos, hoje, como parte da onda protofascista (sic) os movimentos fundamentalistas (cristão, judaico, islâmico). O ‘fundamentalismo’[5] é a interpretação restrita do livro sagrado de forma a repudiar tudo e todos que não concordem com tal interpretação; trata-se de um “terrível simplificador” que pretende explicar e fornecer uma moral para o passado, o presente e o futuro da humanidade. Lembrando alguns traços do fascismo ou ‘protofascimo’ elaborado por Umberto Eco (1995), têm conquistado visibilidade na mídia as paradas dos “homens-bomba”, (que incluem crianças e mulheres), e as escolas de doutrinação islâmica ou madrassas, usadas como perversão do islamismo e impondo à população a cultura obscurantista Talibã, no Afeganistão[6]. O auge de visibilidade dos efeitos da doutrinação islamofascista parece ser representado pela organização global da Al Qaeda, cujo líder Bin Laden, que nada tem de socialista ou marxista, diz lutar por uma causa supostamente “santa” contra os “infiéis do mundo ocidental”[7].


A atitude fascista não morreu


O nazi-fascismo foi derrotado na 2ª. Grande Guerra, em 1945, mas ele não morreu. O que hoje acontece no cenário mundial nos leva a suspeitar que “ele não morrerá entre nós”, alerta o psicanalista francês C. Melman (2000).


A fundação do Partido Nazista, nos EUA, é de 1970. Recente levantamento realizado nos EUA contou 474 grupos de extrema direita, organizados naquele país, alguns agindo abertamente em diversos setores governamentais, inclusive com atos contra a democracia e ao governo legitimamente constituído. A “Nação Ariana’ e a ‘Identidade Cristã’, são considerados pelo FBI como os dois grupos mais perigosos e ameaçadores dos EUA. O ataque terrorista que destruiu todo o edifício do governo federal, em Oklahoma City, em 1995, foi ato de um membro da extrema direita com ligações com o grupo ‘Identidade Cristã’. “O uso da religião para propósitos fascistas e a perversão da religião em um instrumento de propaganda de ódio, como um cruzada antidemocrática em nome da salvação da democracia, é uma tática disseminada entre os grupos de extrema direita” (Carone, 2003).


Balizas para comentar esse filme:


Nosso olhar sobre o filme “A onda” focaliza três linhas de análise para comentários visando estimular o debate:
(1) o nazi-fascismo como ideologia política totalitária de direita;
 (2) a psicologia de massas e a servidão voluntária dos indivíduos a um líder, grupo ou causa mítica;
 (3) a propaganda política e ideológica
 (4) o recurso da ‘experiência pedagógica’, como meio de ir para além do mero aprendizado de conceitos teóricos. Notar que o professor do filme adota a experimentação com grupo como recurso didático ‘vivencial’ [Dinâmica de Grupo e Sociodrama], que sempre implica em algum risco de perder o controle da experiência pedagógica. O “sócio-grupo” seria o grupo tarefa estruturado e orientado em função da execução ou cumprimento de uma tarefa, e o “psico-grupo” ou grupo estruturado, orientado e polarizado em função dos próprios membros que constituem o grupo, foram criados por Kurt Lewin – judeu alemão emigrado para os EUA - tinham como propósito serem não somente técnicas de aprendizagem alternativa à aula tradicional, considerada chata ou enfadonha mas de efetivamente trabalhar a dimensão afetiva e emocional de cada grupo enquanto gestalt, onde estão presentes preconceitos, dogmatismo, coesão, fé cega num líder, bloqueios, filtragens, enganos e auto-enganos na comunicação entre seus membros[8] etc.


Apesar de não ser um grande filme, e ainda prejudicado com o uso de cópias desgastadas, gravadas da televisão aberta[9], “A onda’ têm a virtude de levar o telespectador a não ficar indiferente aos fenômenos de massificação, fanatismo e intolerância do ser humano. Contudo, o filme é um sério alerta para:
 a) o risco do “sujeito” perder a “liberdade” e “autonomia”, submetendo-se incondicionalmente ao poder do grupo, sua “causa absoluta” veiculadas por slogans e palavras que ordenam uma ação automática, fazendo desaparecer o sujeito[10] ;
 b) problematiza a possibilidade de ressurgimento do nazi-fascismo, ou dos totalitarismos de direita ou de esquerda, tendo em vista o desgaste das democracias representativas de nossa época;
c) conscientiza a formação de grupites de adolescentes e gangues potencialmente intolerantes e criminosas. Há uma tendência narcisista nesses grupos que, geralmente, são atraídos pela proposta de igualdade e novo sentido existencial-no-mundo, a fundação na vivência da territorialidade, o desenvolvimento de um código de linguagem próprio onde os atos de rejeição dos “mais fracos”, “desgarrados” ou “diferentes” parecem legítimos e morais. Basta ver o recreio de qualquer escola onde os membros dos grupos reproduzem sua imagem narcísica no modo de ser, vestir, falar, pensar etc. Evidentemente, tal atitude faz parte do processo de desenvolvimento da personalidade em busca de identidade própria, mas pode também ser a base para a formação de um traço de caráter ‘blindado’, conforme o estudo de W.Reich.


O trote seria um tipo de onda?


O tradicional trote universitário é um ritual de violência sádica de um grupo “mais velho” sobre os “novos” ou calouros. O trote pode ser tipificado como uma formação protofascista, no sentido proposto por Eco (1995), na medida em que um grupo visa humilhar os supostamente mais fracos? Que fazer para quebrar essa “tradição de família” presente ainda em algumas universidades? O que esse ritual de passagem representa na cultura universitária? Será que aulas, palestras, leis, punições, bastam para conscientizar e levar à nova geração evitar essa prática? Será que medidas impostas pelos colegiados de cada instituição, investidos de autoridade, devem proibir com rigor o trote violento, por exemplo, reinventando regras com o sentido da pró-solidariedade? Que metodologia ou técnicas de ensino e aprendizagem poderiam ser usadas para quebrar essa tradição e instaurar uma consciência verdadeiramente crítica e historicamente elaborada sobre tal fenômeno?


Ascensão do irracional?


O retorno do irracional em forma de ‘onda’ ou de ‘massa’ parece ser uma resposta desesperada de algumas culturas resistindo à modernização ocidental liberal-burguesa-democrática; a globalização econômica em que pese o seu sentido capitalista excludente também tem produzido novas idéias e tecnologias que beneficiam toda a humanidade, embora causem em alguns grupos mais tradicionais o medo de perder sua identidade comunitária, tal como analisa Castells (1999) e Japiassu (2001).


Aos educadores, é imprescindível trabalhar junto com os alunos, desde cedo, a ética da tolerância, o respeito à diversidade cultural e as diferenças demasiadamente humanas, bem como o desenvolvimento do espírito democrático e pluralista, onde a paz e a liberdade devem ser ativas.


O conhecimento científico, a informação e a tecnologia são insuficientes para melhorar o ser humano. É preciso desenvolver uma nova educação que encare o mundo complexo e promova, além da pesquisa que aspira o conhecimento novo, também uma sabedoria prática para se viver a vida pessoal e coletiva em tempos tão sombrios.


Os sintomas atuais de ascensão do irracional humano vem se revelando não só através de grupos nazi-fascistas que formam uma ‘onda’ pregando a “supremacia da raça branca”, a perseguição de judeus, negros, índios, homossexuais, nordestinos do Brasil, feministas, esquerdistas, democratas, etc. O fundamentalismo religioso (cristão, islâmico e judaico), os atos dos criminosos ligados ao narcotráfico, o terrorismo protofascista de grupos ou de Estado, sem projeto político, podem ser considerados sintomas de “ascensão do irracional” (em nosso artigo, em http://www.espacoacademico.com.br/004/04ray.htm, observamos três sintomas do protofascimo no terrorismo: o desprezo do diálogo pelo ato – do ato pelo ato; o argumento pela emoção. Para Eco (1995) é a “a ação pela ação’ e a “luta pela luta”. Na leitura psicanalítica é representado pelo ‘mais-gozar’ da ação e o ‘mais-gozar’ da luta sem fim).


O filme “A onda” focaliza, por um lado, o imperativo da ordem e disciplina e, por outro, o desejo de controlar a pulsão agressiva dos seres humanos travestido em organização fascista aspirando ser moral.


“A onda” pode ser vista através de alguns movimentos políticos-ideológicos de nossa história: quando atuou em nome de uma suposta “superioridade da raça ariana”, causou o genocídio nazista; quando levantou a bandeira da “causa do proletariado” milhares foram estigmatizados de ‘anti-revolucionários’, ‘reacionários burgueses’, ‘intelectuais inúteis’; quando surgiu com o nome de “revolução cultural” fez o povo quase perder suas tradições; quando “em nome de Deus” milhares são assassinados; quando “em nome do Bem contra o Mal”, da “causa justa” ou da “democracia”, invadiu países, destruindo prédios e vidas; Enfim, quanto o irracional está a serviço da racionalidade, o resultado é a imoralidade, o sofrimento e a morte em massa. Quando a intolerância quer ser reconhecida como moral e legal, justificando que a repressão da autonomia dos sujeitos é necessária “para o bem de todos”, a razão se faz cínica[11]. Assim, é preciso reconhecer que ser racional não basta para singularizar o que é ‘ser humano’, ou seja, falta saber se ser racional é condição sine qua non para ser razoável e capaz de estabelecer empatia para com o nosso semelhante.




Depois do filme
Outras experiências pedagógicas foram realizadas e filmadas depois de “A onda”, que parecem ter sido influenciadas pelas pesquisas dos laboratórios de dinâmica de grupo e experimentação cientificamente controlada, desde a década de 1970. Recomendamos aos pedagogos, psicólogos, historiadores, filósofos, sociólogos, antropólogos, entre outros, assistirem aos documentários: “Olhos azuis”[12], coordenado pela professora Jane Elliott e “Zoológico humano”, conduzido pelo psicólogo P. Zimbardo (Stanford University). Ao conduzir a experiência dos grupos, a professora Elliot evidencia o racismo, os fenômenos de grupo, a liderança, a submissão voluntária, etc. No “Zoológico humano”, recomendamos maior atenção para a 2ª. Parte, que trata da submissão do sujeito ao grupo. Em ambos, podemos observar fenômenos como ‘conformidade’, ‘disciplina’, ‘bloqueios’, ‘filtragens’, ‘contágio social’, a influência do ‘poder’, a ‘submissão’, as ‘distâncias sociais’, ‘barreiras psicológicas’, a ‘psicose de massa’, o ‘vigiar e punir” de uns contra outros para que ninguém seja a si próprio, a delação ou dedurismo como prática corriqueira de difícil verificação e confrontação com a verdade, o ‘narcisismo das pequenas diferenças’ proposto por Freud, a ‘regressão dos indivíduos a condição de massa ’ (conforme dito de Adorno: o fascismo ao manipular as massas, faz “psicanálise às avessas”), etc.


Continua sendo atual o discurso do professor Ross, proferido no final de “A onda”:


“Vocês trocaram sua liberdade pelo luxo de se sentirem superiores. Todos vocês teriam sido bons nazi-fascistas. Certamente iriam vestir uma farda, virar a cabeça e permitir que seus amigos e vizinhos fossem perseguidos e destruídos. O fascismo não é uma coisa que outras pessoas fizeram. Ele está aqui mesmo em todos nós. Vocês perguntam: como que o povo alemão pode ficar impassível enquanto milhares de inocentes seres humanos eram assassinados? Como alegar que não estavam envolvidos. O que faz um povo renegar sua própria história? Pois é assim que a história se repete. Vocês todos vão querer negar o que se passou em “A onda’. Nossa experiência foi um sucesso. Terão ao menos aprendido que somos responsáveis pelos nossos atos. Vocês devem se interrogar: o que fazer em vez de seguir cegamente um líder? E que pelo resto de suas vidas nunca permitirão que a vontade de um grupo usurpe seus direitos individuais. Como é difícil ter que suportar que tudo isso não passou de uma grande vontade e de um sonho”.










TUTORIAL PARA DOWNLOAD DO FILME "A ONDA Clicando em http://paginas.terra.com.br/arte/culturainformacao/  clicando, cai direto em “Cultura e informação” e ver “dicas e notícias” sobre como fazer download do filme “A onda” http://www.cefetsp.br/edu/eso/laerte/






Também indica outro endereço para este filme só que em inglês: http://www.xenutv.com/cults/wave.htm






O endereço da comunidade "A onda - The wave"  no Orkut: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1262617












* Texto produzido para orientar meus comentários sobre o filme “A onda”. Agradecimentos especiais a Moisés Storch (Movimento Paz Agora) pela valiosa revisão e sugestões do texto, e Sergio Becker pelo retorno crítico.






[1] Filme: “A onda” [ The wave] – Dur.: 45 minutos – Direção: Alex Grasshof - País: EUA - Ano: 1981 Elenco: Bruce Davison, Lori Lethins, John Putch, Jonny Doran,Pasha Gray, Valery Ann Pfening. Obs: o filme foi exibido uma única vez no início da década de 1980 (1981 ou 1982). Depois, a TV Educativa-Rio também o exibiu, realizando um excelente debate com convidados de diferentes áreas do conhecimento.


[2] Conferir o estudo de HARENDT, Hanna. O sistema totalitário. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1978.


[3] Ver o filme “As bruxas de Salen”, baseado na peça The Crucible [O sacrifício], de Arthur Miller.


[4] “O Atentado do Riocentro foi um ataque a bomba frustrado contra o Pavilhão Riocentro no dia 30 de abril de 1981. Na data realizava-se no edifício um show em homenagem ao Dia do Trabalho. Cerca de 21:30, com o evento já em andamento, uma bomba explodiu dentro de um carro no estacionamento. A bomba seria instalada no edifício mas explodiu antes da hora, matando um dos passageiros do carro e ferindo gravemente o outro. O Puma levava dois passageiros, o capitão Wilson Luís Alves Machado e o sargento Guilherme Pereira do Rosário. Ambos trabalhavam para o DOI-Codi do estado do Rio de Janeiro e o sargento Rosário tinha treinamento do Exército em montagem de explosivos. Na ocasião o governo acusou como culpado pelo atentado os integrantes radicais da esquerda. Essa hipótese já não tinha sustentação na época e atualmente já se comprovou, inclusive por confissão, de que o atentado no Riocentro foi uma tentativa de setores mais radicais dentro da ditadura (principalmente o CIE e o SNI) de fazer crer que era necessária uma nova onda de repressão e paralisar a lenta abertura política que estava em andamento. Uma segunda explosão ocorreu a alguns quilômetros de distância na miniestação elétrica responsável pelo fornecimento de energia do Riocentro. A bomba foi jogada por cima do muro da miniestação, mas explodiu em seu pátio e a eletricidade do pavilhão não chegou a ser interrompida. Esse episódio é um dos que marcam a decadência do regime militar no Brasil que daria lugar dali a quatro anos ao restabelecimento da democracia (Cf.: http://pt.wikipedia.org/wiki/Atentado_do_Riocentro).


[5] Cf.: ROUANET, S. P. “Os terríveis simplificadores”. Folha de S. Paulo, 11.jan.2001.


[6] A identificação de traços protofascistas em alguns movimentos fundamentalistas (Hizbolá, Hamas, xiitismo iraniano, etc) é um posicionamento contestado com argumentos vagos, por exemplo, pelo escritor Tarik Ali (Ver debate no programa Roda Viva, da TV Cultura-SP).


[7] “Não que seja uma causa real, mas a usam. Não é estranho que grupos neonazistas adorem Bin Laden. Muitos substituíram a imagem de Hitler pela dele”, disse Pilar Rahola, (Folha de S.Paulo, 25 de ago 2006). Nascida em Barcelona em 1958, Pilar Rahola, ex-deputada espanhola de esquerda, é doutora em Filologia Hispânica e também em Filologia Catalã (Cf.: GABRIEL BRUST "Há uma esquerda traindo a liberdade".Entrevista com Pilar Rahola).


[8] Cf.: MAILHIOT, G. B. Dinâmica e gênese dos grupos. São Paulo: Duas cidades, 1976.


[9] A maioria das cópias que existem nas faculdades foi originalmente gravadas na TV Globo ou na TV Educativa do Rio de Janeiro, que, após a exibição, promoveu um debate com convidados. O pessoal do Café Filosófico (Docentes Responsáveis: LAERTE MOREIRA DOS SANTOS, PATRICIA HETTI, LOURDES CARRIL) está disponibilizando na Internet como fazer download.  http://www.cefetsp.br/edu/eso/laerte/






http://paginas.terra.com.br/arte/culturainformacao/






Também indica outro endereço para este filme só que em inglês:






http://www.xenutv.com/cults/wave.htm
 e o endereço da comunidade "A onda - The wave" no Orkut: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1262617






[10] Não apenas desaparece o “sujeito” submetido ao poder do grupo, como também o nazi-fascismo fez desaparecer os sujeitos, primeiramente pelas metáforas animais (comparavam os judeus, comunistas, homossexuais, a ratos, répteis, insetos como piolhos, traças, e germes “que devoram os pilares da vida econômica, social, religiosa e política da nação...”. Em verdade, “a parasifobia é tão masoquista quanto sádica, pois a base recalcada pode ser transformada em perseguição à ameaça externalizada, em destrutividade paranóica” (Carone, 2003).






[11] Cf.: ZIZEK, S. Eles não sabem o que fazem. O sublime objeto da ideologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990






[12] “Olhos azuis” tem a versão com adultos e outra com adolescentes. Foram exibidos no Brasil pelo canal GNT do sistema Net.







MORTOS E DESAPARECIDOS POLITICOS DO BRASIL

MIGUEL PEREIRA DOS SANTOS (1943-1972)


Nascido em Recife, Miguel começou a trabalhar quando tinha apenas 13 anos. Em 1964, mudou-se com a família para São Paulo e, nesse mesmo ano, concluiu o curso científico no Colégio de Aplicação da USP. Iniciou cedo sua participação na vida política, filiando-se ao PCdoB. Em 1965, teve de assumir militância clandestina devido à perseguição política. Em 1968, agentes do DOPS, ao procurarem Miguel, interrogaram sua mãe, a quem foram mostradas fotocópias de documentos que teriam sido enviadas pela Central Intelligence Agency – CIA –, dos Estados Unidos, dizendo que ele estivera na China. Por este motivo, a casa de sua mãe foi várias vezes invadida pela polícia política.


Quando trocou São Paulo pelo interior do país, residiu na Praia Chata, norte de Goiás, às margens do Rio Tocantins e, posteriormente, no sul do Pará, na localidade de Pau Preto. Integrou o Destacamento C dos guerrilheiros, entre os quais era conhecido como Cazuza. Teria sido morto no dia 20 de setembro
de 1972, conforme informação do general Bandeira, responsável pelos interrogatórios no Pelotão de Investigações Criminais da Polícia do Exército. Segundo Regilena Carvalho Leão de Aquino, uma das poucas sobreviventes do Araguaia, a mão direita de Miguel foi cortada para identificação de suas impressões pelos órgãos de segurança.


Nos arquivos secretos do DOPS do Paraná, Miguel está incluso em um fichário com 17 militantes classificados como falecidos. O relatório do Ministério do Exército, de 1993, afirma que ele “participou ativamente da Guerrilha do Araguaia, onde teria desaparecido em 1972”. O “livro secreto” do Exército, divulgado em abril de 2007 pelo jornalista Lucas Figueiredo, registra na página 724 outra data: “Nesse dia (27 de setembro de 1972), o terrorista Miguel Pereira dos Santos (Cazuza), do destacamento C, foi morto numa emboscada”.


Em A Lei da Selva, Hugo Studart apresenta duas datas para a morte de Miguel. Na página 135, escreve: “No dia 25, um tenente (Felipe Macedo Junior) é ferido com um tiro de espingarda. Nada grave. A 26 de setembro, tomba em combate um guerrilheiro, o primeiro na Operação Papagaio – Miguel Pereira dos Santos, o Cazuza”. E na página 372: “MIGUEL PEREIRA DOS SANTOS, Cazuza [...] Foi um dos guerrilheiros mais atuantes, dos mais citados por Velho Mário em seu Diário.


MIGUEL PEREIRA DOS SANTOS


Militante do PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL (PC do B).


Nascido a 12 de julho de 1943, em Recife/PE, filho de Pedro Francisco dos Santos e Helena Pereira dos Santos.


Desaparecido na Guerrilha do Araguaia aos 29 anos.


Muito cedo, quando contava apenas 13 anos, começou a trabalhar. Em 1964, mudou-se
com a família para São Paulo e, neste mesmo ano concluiu o curso científico no Colégio de
Aplicação da USP. Trabalhava no Banco Intercontinental do Brasil. No ano seguinte entrou na clandestinidade por perseguição política.


Em 1968, o DOPS, ao procurar Miguel, interrogou sua mãe, ocasião em que o


Delegado Wanderico mostrou-lhe fotocópias de documentos de Miguel que teriam sido enviadas pela CIA, e dizendo que Miguel estivera na China. Várias vezes a casa de sua mãe foi invadida pela polícia política.


Indo para o campo, residiu inicialmente na Praia Chata, ao norte de Goiás às margens
do Rio Tocantins e, posteriormente no sul do Pará, na localidade de Pau Preto, integrando
o Destacamento C da guerrilha.


Segundo Regilena, ex-guerrilheira do Araguaia, Miguel foi morto no dia 20 de
setembro de 1972, conforme informação do General Bandeira de Melo, responsável pelos
interrogatórios no Pelotão de Investigações Criminais da Polícia do Exército, em Brasília,
onde a mesma se encontrava presa.


O Relatório do Ministério do Exército afirma que Miguel “participou ativamente da
Guerrilha do Araguaia, onde teria desaparecido em 1972.”


No movimento guerrilheiro Miguel era conhecido como Cazuza.






Qui, 07 de Abril de 2011 15:29


O golpe, os desaparecidos e o direito à verdade Destaque


Escrito por FRANCISCO BICUDO


(Blog do Borges de Jesus)


As lembranças inocentes da primeira infância me dizem que eram tempos estranhos. Não entendia muito bem a movimentação e a correria na praça da igreja matriz, as tropas marchando nas ruas, a cavalaria, as bombas de gás lacrimogêneo, os professores agitados e tensos, os comerciantes apressados fechando suas lojas, as pessoas caminhando com passos largos e acelerados querendo chegar logo em suas casas, os semblantes carrancudos e nervosos espalhados pelas esquinas. Aos sete anos, reconheço que, sem saber ao certo o que estava acontecendo, ficava feliz quando as aulas eram suspensas e saíamos mais cedo da escola, o saudoso colégio São José. Em casa, vivíamos uma espécie de pacto do silêncio motivado pelo medo: eu desconfiava que algo não ia bem, mas não perguntava; como não eram provocados, meus pais não respondiam. São as primeiras memórias que guardo da ditadura militar, na minha São Bernardo, ABC paulista, em 1979.
Muitos anos depois, morando então na capital paulista, já tinha conseguido escapar dos limites dos segredos para começar a montar essa história e perceber o tamanho da tragédia que havia se abatido sobre o Brasil no dia 1 de abril de 1964, com o golpe militar - e as perseguições, prisões, censura, exílios, torturas, mortes e desaparecimentos. Ao final da graduação, ao decidir o tema de meu Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo (ECA/USP), conheci Helena Pereira dos Santos, àquela época presidenta do Grupo Tortura Nunca Mais de São Paulo.
Nascida em Ilha das Flores, interior de Pernambuco, em 1919, Helena conheceu uma infância sofrida, vagando pelas usinas de açúcar da região, com o pai sempre em busca de trabalho. Sonhava ser professora. O pai proibiu. Casada muito jovem, veio para São Paulo em busca do eldorado em março de 1954, já com dois filhos, Miguel e Misael. Enfrentou na megalópole toda sorte de preconceitos - "o nordestino atrasado e preguiçoso, que chega para tirar os nossos empregos". Começou a trabalhar como costureira.
Para orgulho da mãe, Miguel, o filho mais velho, terminou o ensino secundário na Escola de Aplicação da Universidade de São Paulo e entrou em Agronomia na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, a Esalq, em Piracicaba. Pouco mais de um ano depois, em 1965, aos 19 anos, abandonaria o curso, dizendo para a mãe que "queria conhecer o mundo". Terminou um namoro de quatro anos. Mergulhou na militância política e logo caiu na clandestinidade, para finalmente participar da Guerrilha do Araguaia, integrando o exército revolucionário popular mantido pelo Partido Comunista do Brasil (PC do B).


Helena passou anos sem ter notícias do primogênito. Com a Anistia, conseguiu confirmar que Miguel combatera mesmo no Araguaia. Em 1979, decidiu procurar José Genoino, que a colocou em contato com João Amazonas. Consternado, o então presidente do PC do B confirmou a morte de Miguel na guerrilha, vítima das forças de repressão. "Ele me disse que foi uma perda irreparável, que o Miguel era muito dedicado e preparado, que era ele quem abria os caminhos na selva para os companheiros passarem", me contou Helena, durante a produção do TCC.
Os anos restantes da vida dela foram incansavelmente dedicados a buscar informações sobre as condições da morte - e o corpo - do filho, que a ditadura (e depois a democracia) insistia em lhe negar. Participou de caravanas ao Araguaia, de reuniões com representantes dos governos e das forças armadas, presidiu o Grupo Tortura Nunca Mais de São Paulo. Faleceu em 28 de novembro de 1996, sem conseguir reencontrar e enterrar Miguel. Quando viu o filho pela última vez, em 1967, estava doente, tinha sido operada e se recuperava da cirurgia. Foram apenas 15 minutos. "Ele estava muito maltratado, magro, um bigode enorme. Quase nem reconheci. Chorou nos meus braços", lembrou, sempre em nossos encontros para o TCC.


Miguel Pereira dos Santos, conhecido também pelo codinome Cazuza, é um dos 379 mortos e desaparecidos políticos assassinados pela ditadura militar brasileira. De acordo com depoimentos de companheiros, foi morto pelas forças armadas em 20 de setembro de 1972. Na Argentina, foram julgados e condenados 486 ex-militares por terrorismo de Estado ou violações de direitos humanos cometidas durante o regime militar que governou o país vizinho (1976-1983). No Brasil, torturadores e militares que participaram da repressão seguem impunes. Muitos dos arquivos produzidos sobre o período continuam fechados, secretos e inacessíveis. A História recente do país vem sendo apagada.


"Lamentavelmente, temos que dizer que as forças armadas brasileiras, as daquele período histórico, têm as mãos sujas de sangue. Essa gente tem nome e sobrenome. Daí a importância do resgate da verdade. Se ainda estão vivos, torturadores e assassinos precisam ser punidos, e o primeiro passo é o conhecimento da verdade. Não há prescrição para esse tipo de crime. Não pode haver. À luz do direito internacional, do nosso direito e à luz dos direitos humanos", escreve o jornalista e deputado federal Emiliano José (PT/SP), em artigo publicado pela Agência Carta Maior. Ele continua: "a Comissão da Verdade quer apenas a verdade, o exercício do direito à verdade, à memória. O direito que tem qualquer pai, qualquer mãe de família, qualquer parente de saber o que ocorreu com seus entes queridos, muitos deles desaparecidos, milhares torturados pelos criminosos fardados ou não sob as ordens dos generais-presidentes entre 1964 e 1985".


Em entrevista publicada originalmente pelo jornal "O Estado de São Paulo", o cientista político Paulo Sergio Pinheiro afirmou que "é preciso saber a verdade sobre os crimes cometidos pelos agentes do Estado. O que aconteceu com os dissidentes estamos cansados de saber". Segundo o pesquisador, "as pesquisas mostram que nos países onde houve Comissões da Verdade as democracias tornaram-se muito mais eficientes, os crimes contra os direitos humanos diminuíram e se tortura muito menos. No Brasil, os torturadores atuais continuam torturando, apesar de ser crime. Eles acham que está tudo numa boa, que não acontecerá nada".


Basta. O silêncio é também criminoso, nefasto. Não é mais possível aceitar que a História nos seja negada. Nesse aspecto, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva representou profunda decepção. Espera-se que a presidenta Dilma Rousseff, que carrega no corpo e na alma as marcas da tortura, crie finalmente a Comissão da Verdade, com poderes para investigar, publicizar e estabelecer responsabilidades pelos crimes cometidos pelas forças da ditadura, entre 1964 e 1985. Para que não caiam no esquecimento as trajetórias de sonhos, de esperanças, de lutas e de resistências de Helena e de Miguel Pereira dos Santos, a quem presto reverência e homenagem, na semana em que o golpe completa 47 anos.
Francisco Bicudo é jornalista e professor de Comunicação na Universidade Anhembi Morumbi.


Blog:
http://www.oblogdochico.blogspot.com/

segunda-feira, 25 de julho de 2011

MORTOS E DESAPARECIDOS POLITICOS DO BRASIL

LUIZ PAULO DA CRUZ NUNES (1947 - 1968)

Filiação: Lucia da Cruz Nunes e Álvaro Goulart Nunes
Data e local de nascimento: 13/10/1947, Rio de Janeiro (RJ)
Organização política ou atividade: Movimento Estudantil
Data e local da morte: 22/10/1968, Rio de Janeiro (RJ)
O estudante Luiz Paulo da Cruz Nunes cursava o segundo ano da Faculdade de Medicina da UERJ (à época Universidade do Estado da Guanabara), sendo também estagiário em
patologia, quando foi morto, aos 21 anos, no Rio de Janeiro, depois ter sido atingido por um tiro em manifestação estudantil em frente à sua faculdade, no dia 22/10/1968. Internado no
próprio Hospital Pedro Ernesto, local da manifestação, com ferimento no crânio, foi operado mas faleceu na mesma data. A necrópsia foi realizada pelos legistas João Guilherme Figueiredo e Nelson Caparelli.
De acordo com o médico Lafayette Pereira, colega de turma de Luiz Paulo, os dois estiveram com cerca de outros 600 alunos protestando contra o regime militar no dia 22/10/1968, à tarde, em frente ao Hospital Pedro Ernesto, no bairro de Vila Isabel, quando um camburão da polícia estacionou em frente aos manifestantes e cinco pessoas armadas com pistolas calibre 45 saltaram e descarregaram suas armas contra eles. Acuados pela estreita porta de entrada para o hospital, não tiveram para onde correr. Cerca de 10 colegas foram baleados,mas o único com gravidade foi Luiz Paulo, atingido na cabeça. "Faleceu na mesa de cirurgia do hospital que ele, ainda jovem, já gostava de freqüentar como estudante brilhante que foi. Assisti à luta dos neurocirurgiões para salvar-lhe a vida. Teve duas paradas cardíacas que foram recuperadas e uma terceira, definitiva, às 21 horas", contou Lafayette. Cópia da certidão de óbito juntada aos autos estabelece como causa mortis: "Ferida penetrante do crânio com destruição parcial do tecido nervoso e hemorragia das meninges".
O jornal Correio da Manhã de 23/10/1968 estampou: Polícia mata estudante a tiros e ataca Hospital das Clínicas. A matéria descreve: "Pela manhã foram realizadas duas
passeatas e várias assembléias internas. Depois das 12h os estudantes da UEG foram para a porta do Hospital das Clinicas e estavam inaugurando a estátua Liberdade-68
quando foram atacados por agentes do DOPS, a tiros. Três policiais foram feridos em lutas corporais. Depois do primeiro choque os estudantes foram para dentro do hospital,
que funciona junto da Faculdade de Ciências Médicas, em Vila Isabel, e os policiais os cercaram totalmente. Mas numa das salas do hospital a luta continuava: um aluno do
segundo ano de Medicina, Luiz Paulo Cruz Nunes, de 23 anos, baleado no crânio, não resistiu a duas horas de operação, respiração artificial e choques elétricos no coração. Às
nove da noite, estava morto".
Para o relator do processo na CEMDP, "as publicações anexadas provaram ter havido o cerco total do Hospital Pedro Ernesto, na parte da tarde do dia 22 de outubro de 1968.
Luís Paulo, consoante certidão de óbito, faleceu às 21h40. Tendo ele sobrevivido aos tiros e sofrido longa intervenção cirúrgica, é razoável crer ter sido o mesmo atingido ao entardecer do dia em tela, quando, comprovadamente, a dependência universitária, em que os estudantes se haviam refugiado, já estava cercada pela polícia. Não fere à lógica,
portanto, considerar que tenha falecido em dependência policial assemelhada devido ao estado de sítio e cerco total no qual se encontravam". A CEMDP votou o deferimento
do pedido por unanimidade.
LUIS PAULO CRUZ NUNES
Estagiário de Patologia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual
do Rio de Janeiro.
Morto aos 21 anos de idade, no Rio de Janeiro, em 22 de outubro de 1968, quando foi atingido por um tiro em manifestação estudantil em frente à Universidade Estadual do Rio
de Janeiro (UERJ). Levado para o Hospital Pedro Ernesto com ferimento no crânio, foi
operado e faleceu no mesmo dia.
A necrópsia foi realizada pelos Drs. João Guilherme Figueiredo e Nelson Caparelli.
Foi retirado pelo tio, Oscar Freire de Sá Siqueira, e sepultado pela família no Cemitério São Francisco Xavier.
Jornal da Tarde sábado, 25 outubro de 2008
Censura, nunca mais
A turma de 1967 de medicina da Uerj colou grau ontem, 36 anos depois de ter sido proibida de homenagear colega morto por militares e impossibilitada de concluir a formatura iniciada em 13 de dezembro de 1972, durante a ditadura, conforme o JT antecipou na edição do dia 12
Luísa Alcalde
Sob o sol forte de 33 graus que fez ontem no Rio - algumas coisas nunca mudam -, médicos sessentões jogaram para o alto chapéus que cobriam cabelos grisalhos encerrando, com o ato, a formatura da turma de medicina da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) iniciada 36 anos atrás e censurada no meio da festa pela ditadura.
Eles se sentiram de alma lavada. Minutos antes, ouviram pedido de desculpa oficial da reitoria da Uerj pela forma "arbitrária" com que a cerimônia foi encerrada em 13 dezembro de 1972 pelo então diretor da Faculdade de Ciências Médicas, Jayme Landmann, já falecido.
O reitor atual, Ricardo Vieiralves, disse que os antigos estudantes deveriam se sentir, enfim, reconciliados com a universidade. "A ditadura acabou. Muito se passou. Sentimos muito orgulho da luta de cada um de vocês",
testemunhou.
A emoção tomou conta de todos. Houve choro. Principalmente quando o sobrinho do patrono da turma (a de 1967), Luiz Paulo da Cruz Nunes - morto por homens do Dops em 1968 durante manifestação estudantil pacífica em frente ao Hospital Universitário Pedro Ernesto, no segundo ano do curso - fez um discurso emocionado.
Antônio Paulo, também formado médico e representando o tio na formatura, lembrou passagens da infância quando a avó, mãe de Luiz Paulo, o levava para almoçar na cantina dos médicos em frente ao hospital onde o tio foi morto.
No local, dona Lúcia costumava chorar copiosamente, amargurada com o sofrimento do filho. "Eu era muito pequeno e ainda não entendia tudo aquilo. Tanto a minha avó quanto o meu avô Álvaro morreram sem ter aquela ferida cicatrizada", disse Antônio Paulo, aos prantos. "Eu não conheci o Luiz Paulo. Mas conheço o sofrimento da minha família." Foi aplaudido de pé.
Outro momento forte da cerimônia aconteceu quando o orador pôde, 36 anos depois, ler o discurso da turma na íntegra, sem ser interrompido pelas mazelas do regime militar. Na época, a repressão considerou o texto subversivo. Landmann, cumprindo ordens do Dops, proibiu sua leitura.
Texto proibido
Quem fez a vez de orador ontem foi o cirurgião plástico Ricardo Pieranti. Ele leu o texto guardado pelos estudantes esse tempo todo.
"Lá se foi o desventurado Luiz Paulo, para nunca mais, deixando a dor no lar construído por seus pais e fundos ressentimentos no coração de todos nós. Sua juventude em flor somava esperanças que malograram e perdeu-se na estúpida façanha de um policial assassino. Por que incluir no ânimo dos moços a desconfiança implacável? Que fez Luiz Paulo, para ser morto como se o seu instinto fosse o de uma fera? Que trevas terríveis caem sobre todos nós. Seu grande crime: ser digno, brioso e inteligente. Possuir ideal, querer ao estudo e desejar ser, na medicina, para servir ao Brasil e à Humanidade. Quem é o assassino? Que folha corrida haverá de possuir, em confronto com o da vítima? De qual dos dois mais precisaria a nossa Pátria?"
Para ouvir pela primeira vez o discurso de 1972, o médico ortopedista Paulo Afonso Lourega de Menezes, de 60 anos, levou a mãe, Ione, a mulher, Maria Rosita, dois filhos e Clara, neta de dois meses à Capela Ecumênica da Uerj na manhã de ontem. Ione, com 81 anos, não imaginava que ainda iria à formatura do filho. "Naquela época, o encerramento foi um choque. Como tenho idade, imaginei que não veria mais esta festa linda", disse ela.
O grupo fez um minuto de silêncio pelos colegas que se foram. "Devolveram nossa identidade. Uma das maiores violências é impedir que alguém tenha crenças, valores e identidade", afirmou o pneumologista José Valverde, de 60 anos também. "Tomei remédio antes de vir para cá para suportar a emoção."
O paraninfo da turma, Pedro Sampaio, com 98 anos hoje, também leu o discurso que preparara 36 anos antes. "Esses médicos conseguiram transformar noite tão triste numa linda manhã de alegria."
Ostentando crachá no peito com foto da época em que era estudante de medicina, o cirurgião Cláudio de Castro Lázaro disse ter a alegria renovada com a conclusão da formatura. "Para reconhecer os colegas, tenho de olhar nas fotos."
O cirurgião plástico Fernando Pinto Bravo colocou no dedo o anel de formatura nunca usado. O cientista político Valter Ferreira Duarte, mentor intelectual da "reformatura", foi homenageado pelos colegas, assim como o médico Ivan Matias. No dia da manifestação estudantil que tombou Luiz Paulo, Matias encerrava plantão no hospital universitário e pulou o muro para voltar e operar os feridos.
A parte descontraída da festa se deu quando fotos da época de todos os formandos foram exibidas em um telão, ao som de Canção da América, de Milton Nascimento. O grupo se divertiu comentando cortes de cabelo, bigodes e modelos de óculos adotados três décadas atrás. "Estão todos gordos", disse Maria Reis, 75 anos, secretária da turma.
Luis Fernando Ramadon
UERJ - Uma História Apaixonante
O MOVIMENTO ESTUDANTIL DA UERJ - II
O ano de 1968 - O Assassinato de Luiz Paulo da Cruz Nunes - O ano de 1969 -


O ANO DE 1968
O ano de 1968 iniciou de uma forma trágica. No dia 28 de março, morreu baleado o estudante Edson Luiz de Lima Souto, no Restaurante Calabouço, no Centro do Rio. Uma revolta muito grande se instalou no meio estudantil, provocando no dia seguinte, um gigantesco cortejo para o enterro, reunindo cerca de 50.000 pessoas. No dia 1o de abril, os estudantes, com paus e pedras nas mãos, obrigaram cerca de 1.500 policiais, com cassetes e bombas de gás lacrimogêneo, a recuarem, tamanha era a sua disposição. O conflito só terminou quando o Exército ocupou as ruas e matou mais um estudante: Davi de Souza Neiva. No dia 5 de abril, ao final da missa de sétimo dia, na Igreja da Candelária, a cavalaria da PM espancou os participantes, com golpes de sabre e só não houve um massacre em função dos religiosos, que tendo à frente o vigário-geral do Rio de Janeiro, D. José de Castro Pinto, ficaram entre os estudantes e a cavalaria com seus crucifixos levantados, num ato de extrema coragem.
Outro fato que mereceu destaque nacional ocorreu em abril, quando o Capitão Sérgio Miranda de Carvalho, conhecido como "Capitão Sérgio Macaco", do PARA-SAR, da Aeronáutica, se recusou (e denunciou publicamente) a cumprir as ordens do Brigadeiro João Paulo Burnier, Chefe de Gabinete do Ministro da Aeronáutica Márcio de Souza e Mello, de explodir os gasômetros da Avenida Brasil, no Rio de Janeiro, o que ocasionaria milhares de mortes. O ato terrorista seria atribuído à esquerda e serviria de pretexto para se fechar mais ainda o regime. Por seu ato heróico, por ter salvo milhares de vidas, o Capitão Sérgio Macaco foi expulso da Aeronáutica. Veio a falecer em fevereiro de 1994, sem ter desfrutado da sua nomeação como Brigadeiro, que lutava na Justiça desde a Anistia, em 1979.
Neste mesmo mês, no dia 20, uma bomba explodiu no Edifício do Jornal "O Estado de São Paulo", sendo o atentado foi atribuído ao II Exército.
Na UERJ, no dia 25 de abril, através do Ato Executivo no 82, o Reitor regulamentou a participação da representação discente, de acordo com o Decreto-Lei no 228, de 28 de fevereiro de 1967. Além das regulamentações previstas no Decreto-Lei, ficou estabelecido que nenhuma assembléia de alunos poderia ser realizada em unidade universitária sem convocação formalizada com a indicação dos fins, sem autorização do respectivo Diretor e sem a existência do quorum de maioria absoluta de seus membros. Para a eficácia dessas medidas, o Diretor deveria designar um representante para fiscalizar cada assembléia. Foram extintos os percentuais destinados à manutenção das Representações Estudantis. Os membros de qualquer órgão estudantil, tinham a seu dispor a cooperação, em caráter contínuo e permanente de um Assessor de Assuntos Estudantis, lotado no Gabinete do Reitor. O primeiro Assessor foi o Professor Kleber Gallart.
O tempo passava e a situação política do País se tornava mais violenta. Os militares que haviam tomado a nossa liberdade também queriam tomar a nossa dignidade. No dia 19 de junho de 1968, durante uma assembléia realizada na Faculdade de Economia da UFRJ, na Praia Vermelha, a Polícia Militar invadiu a Universidade e espancou os estudantes, cerca de 400, culminando com todos deitados no chão com os policiais urinando em cima deles e passando o cassetete no meio das pernas das moças. O episódio ficou conhecido como "O Massacre da Praia Vermelha".
Em resposta, no dia seguinte ocorreu o que veio se chamar de "Sexta-Feira Sangrenta", que foi uma luta campal, no Centro do Rio, com o povo, do alto dos prédios da avenida Rio Branco, jogando pedras, máquinas de escrever e tudo mais que encontrava pela frente, contra a polícia, que atirava bombas dos helicópteros e com metralhadoras ia acertando os populares. Além de um PM morto devido ao arremesso de um balde de cimento, jogado por um operário de um prédio em construção, diversas pessoas sucumbiram na manifestação.
Na semana seguinte, no dia 26 de junho de 1968, aconteceu, no Centro do Rio, a última grande manifestação popular contra a ditadura, que foi a "Passeata dos Cem Mil". Lá estavam, na linha de frente, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Tônia Carrero, Paulo Autran, Othin Bastos, Edu Lobo, Norma Bengell, Nana Caymmi, Wladimir Palmeira, Franklin Martins, José Dirceu, Marcos Medeiros, Jean-Marc Van der Weid (Presidente da UNE) e todo o povo brasileiro que era a favor da liberdade e da justiça social, presentes, mesmo que de coração. As palavras de ordem eram: "você que é explorado não fique aí parado", "o povo organizado derruba a ditadura", "libertem nossos presos" e "mais verbas, mais vagas, abaixo o MEC-USAID". Desta vez, o que jogavam dos prédios eram papéis picados. A passeata sem incidentes, pois fora autorizada, encerrou com a queima de uma bandeira dos Estados Unidos. Uma comissão formada por lideranças estudantis, foi formada depois da passeata para entregar ao Presidente Marechal Costa e Silva uma série de reivindicações. No dia do encontro, além da comissão ser tratada rispidamente, o Presidente não aceitou nenhuma das argumentações apresentadas.
Na UERJ, uma vitória importante foi conseguida pelo Movimento Estudantil, dois dias depois da "Passeata dos Cem Mil". No dia 28 de junho, o Reitor João Lyra Filho revogou o Ato Executivo no 82, através do Ato Executivo no 95, "em função de seu apreço pelas generalizadas manifestações da comunidade estudantil contra o referido ato, que apenas adjetivava as normas subsistentes no Decreto-Lei no 228"[4]. As manifestações ocorreram no dia anterior, quando os alunos da UEG concentraram-se na porta da Reitoria, exibindo cartazes contra o "Ato 82" e contra o "Decreto Aragão". O Reitor comprometeu-se em colaborar, junto com os membros do Conselho Universitário, no preparo de um novo texto, que consubstanciando uma minuta de anteprojeto, pudesse ser considerado como base de revisão do Decreto-Lei.
Com a finalidade de "promover estágios de serviço para estudantes universitários, objetivando conduzir a juventude a participar do processo de integração nacional", o Presidente Arthur da Costa e Silva instituiu, em 28 de julho de 1968, em caráter permanente, um grupo de trabalho denominado "Projeto Rondon", cujo idealizador foi o Professor da UEG, Wilson Choeri, que organizou uma expedição à Rondônia, em julho de 1967, composta de vinte e sete alunos e dois professores liderados pelo também Professor da UEG, Omir Fontoura. O lema era "Integrar para não entregar".
No final de 68, alguns fatos marcaram o início dos verdadeiros anos de chumbo. No dia 12 de outubro, a polícia prendeu 739 estudantes, durante o XXX Congresso da UNE, numa fazenda em Ibiúna, São Paulo. No dia 22 de outubro, foi assassinado pela polícia, durante uma manifestação de repúdio contra os presos no Congresso da UNE, dentro do Hospital da UEG, o aluno da Faculdade de Medicina Luiz Paulo da Cruz Nunes. E no dia 13 dezembro, entrou em vigor o famigerado Ato Institucional no 5, que decretou o recesso do Congresso Nacional; instituiu a censura prévia; a suspensão dos direitos políticos e das garantias constitucionais ou legais. O preâmbulo deste ato demonstrava claramente, sem meias palavras para que veio:
"... atos nitidamente subversivos, oriundos dos mais distintos setores políticos e culturais, comprovam que os instrumentos jurídicos, que a revolução vitoriosa outorgou à Nação para a sua defesa, desenvolvimento e bem-estar de seu povo, estão servindo de meios para combate-la e destruí-la".
Em 28 de dezembro de 1968, a Lei no 5.540 fez uma profunda modificação no Ensino Superior Brasileiro, com a extinção da Cátedra, até então era vitalícia, como unidade básica de ensino. Estabeleceu que o Departamento passasse a constituir a menor fração da estrutura universitária. Determinou a integração do ensino com a pesquisa e a reunião dos estudos afins das carreiras profissionais em Institutos Centrais de Ciências Básicas. Criou o regime de créditos e estabeleceu a unificação do vestibular.
O sentido desta lei seria a diminuição do custo médio do estudante, permitindo a expansão das matrículas a custos adicionais menos que proporcionais. Esta Lei provocou "uma progressiva aceleração do processo de privatização e do empresariamento do ensino; a crescente desobrigação do Estado com o financiamento das Universidades; e a omissão do poder público na definição de uma política educacional que assegurasse efetivamente condições reais de ensino e pesquisa na produção acadêmica"[5]. O Decreto-Lei no 405, da mesma data, determinava a transferência de recursos financeiros adicionais às escolas superiores com o fim de ampliação das vagas nos vestibulares de 1969.
O ano de 68 terminou com 13 pessoas com seu direitos políticos ou mandatos cassados.
O Assassinato de Luiz Paulo da Cruz Nunes
O ano era o de 1968. A Ditadura avançava com as Leis Suplicy e Aragão. Os estudantes elaboravam formas pacíficas de protesto contra as prisões políticas e o fim da liberdade.
O Movimento Estudantil determinou o dia 22 de outubro, como o "Dia Estadual de Protesto", em função da prisão dos estudantes no XXX Congresso da UNE, em Ibiúna no Estado de São Paulo. O Centro Acadêmico "Sir Alexander Fleming", da Faculdade de Ciências Médicas, da UEG, organizou suas manifestações com a exibição do filme "Os Companheiros", de Monicelli, na parte da manhã e a inauguração de um boneco de seis metros de altura, representando um Policial Militar segurando com uma mão um cassetete e com a outra uma metralhadora, com os seguintes dizeres numa placa: "Estátua da 'Liberdade'/ Brasil-68". Esta atividade teve início às 13:00 horas, e mal os estudantes ocuparam a Boulevard 28 de setembro, em frente ao Hospital Universitário Pedro Ernesto, surgiram os camburões do DOPS, com os policiais atirando e jogando bombas de gás lacrimogêneo. Os alunos responderam às balas com pedras. Diversos estudantes foram feridos. A maioria escondeu-se dentro do Hospital. Os policiais novamente avançaram atirando. Um aluno foi atingido no pulmão, outro ferido no rim e no fígado, mais um outro atingido braço esquerdo, ficou paralítico. E mais outro foi baleado, desta vez na cabeça. Este, também levado para a sala de cirurgia, só que não resistiu e veio a falecer às 21:40 horas.
O aluno assassinado era o Luiz Paulo da Cruz Nunes, do 2o ano de Medicina. O fato mereceu a imediata reação , através de uma nota oficial de repúdio emitida pelo Reitor João Lyra Filho:
"A Universidade do Estado da Guanabara está de luto em face dos deploráveis acontecimentos ocorridos na tarde de hoje, dentro da Faculdade de Ciências Médicas e com extensão, sobretudo, na área do respectivo Hospital das Clínicas. Todos deploramos ao extremo o comportamento dos agentes policiais que invadiram à bala e com lacrimogêneo as dependências do nosocômio. Esperamos que as autoridades, mais uma vez alertadas, adotem providências drásticas no sentido de punir àqueles que, vindos de fora, conturbaram mortalmente o clima de sinceridade da juventude universidade".
O Professor Américo Piquet Carneiro, Diretor da Faculdade de Ciências Médicas e o Professor Jayme Landmann, Diretor do Hospital das Clínicas, emitiram, em conjunto, a seguinte nota oficial:
"A Faculdade de Ciências Médicas, em nome do seu corpo docente e do corpo médico do Hospital das Clínicas, associa-se ao protesto feito pelo Reitor da UEG contra a brutal agressão policial desencadeada contra os estudantes, em manifestações pacíficas, que culminou com a morte de um acadêmico de Medicina e ferimentos graves em mais sete estudantes. Expressa, também, o repúdio ao fato inédito do ataque ao Hospital com bombas de gás lacrimogêneo e projeteis de armas de fogo, sem levar em conta os doentes internados, inclusive crianças recém-nascidas. Professores, educadores e médicos, profundamente preocupados, esperam das autoridades medidas que protejam efetivamente o livre exercício das atividades universitárias, indispensáveis à construção de um destino melhor para o nosso País".
A tragédia comoveu o País, provocando protestos e gestos de solidariedade à atitude do Reitor João Lyra Filho. O Conselho da Ordem dos Advogados do Brasil, a bancada federal do MDB da Guanabara, Parlamentares estaduais e federais, a Universidade de São Paulo - USP, manifestaram-se solidários. A Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro expediu a seguinte nota:
"Vimos, publicamente, condenar a ação sanguinária e criminosa dos que invadiram o Hospital Pedro Ernesto com armas e bombas de gás lacrimogêneo. No recinto hospitalar, transformado pelos truculentos invasores em campo de batalha, atingindo a tudo e todos, por pouco não ocorreu uma explosão de incalculáveis prejuízos em conseqüência do tiroteio contra o depósito de substâncias e medicamentos inflamáveis. O Hospital foi sempre respeitado, mesmo em guerras mais bárbaras do que a verificada. A Sociedade apresenta solidariedade ao Reitor da Universidade do Estado da Guanabara e ao Diretor do Hospital, por fazerem respeitar o ambiente hospitalar. Repudia tais atos vandalescos e criminosos. Transmite ao Senhor Governador do Estado da Guanabara seu mais veemente protesto. Aos médicos, aos estudantes e aos doentes do Hospital da Clínicas estende sua solidariedade e à família enlutada expressa a esperança de que o sangue do filho querido, estudante de Medicina, derramado no Hospital, seja uma semente redentora para a harmonia da Nação".
No dia seguinte, 23 de outubro, às 12:30 horas, o corpo de Luiz Paulo da Cruz Nunes foi enterrado no Cemitério São Francisco Xavier.


Crueldade[6]
"A compunção não exclui a revolta. Lá se foi o desventurado Luiz Paulo, para nunca mais, deixando a dor no lar construído por seus pais e fundos ressentimentos no coração de todos nós. Sua juventude em flor somava esperanças que malograram e perdeu-se na estúpida façanha de um policial assassino. Não houve quem deixasse de abrir a alma e a consciência à solidariedade que ainda reiteramos aos seus colegas. Por que matar um jovem de promessas radiantes? Que fez Luiz Paulo, para ser morto como se o seu instinto fosse o de uma fera? Que trevas terríveis caem sobre nós todos! (...)
No túmulo da vítima inesquecível, escritas na tarja de uma coroa, estes poucos dizeres: "A Luiz Paulo, nossa Universidade". Estamos de luto e sentimos nojo. Os meses e os anos correrão; talvez sejam vorazes. Mas, na corrida, não nos despojaremos da lembrança ensangüentada. A lembrança perdurará. Que sirva de semente; que frutifique na consciência dos responsáveis pela ordem e pelo bem social o dever de banir, para sempre, uma ilustração tão malvada. A funesta verdade é que um jovem estudante morreu, vítima de um sicário; morreu exatamente no momento em que mais a esperança precisava de sua vida: Luiz Paulo da Cruz Nunes, não lhe diremos adeus: A lembrança de sua presença haverá de seguir com a nossa UEG..."
A solenidade de formatura da turma de Luiz Paulo realizou-se em 1972, no Teatro Municipal. O discurso da turma foi quase totalmente censurado pelo DOPS. Após a leitura do discurso, iniciou-se a chamada dos alunos presentes. Após o último nome um estudante gritou: "Luiz Paulo - presente". Os demais aos poucos foram aderindo, até que todos, formandos e convidados, de pé, aplaudiam e repetiam "Luiz Paulo - Presente". A cortina do Teatro foi fechada e a solenidade dada por encerrada, sem que os alunos colassem o Grau, o que ocorreu alguns dias depois na sala do Diretor da FCM.
No dia 10 de abril de 1985, durante a gestão Diretoria "Coração de Estudante", do Diretório Central dos Estudantes - DCE-UERJ, presidida pelo aluno Ricardo Cholbi Tepedino, o Movimento Estudantil resolveu resgatar a memória da UERJ, batizando a nova sala do DCE, como "Sala Luiz Paulo da Cruz Nunes".


O ANO DE 1969
De forma a extinguir os últimos resquícios de liberdade, que pudessem haver nas escolas e faculdades, o Presidente Costa e Silva e os Ministros Luiz Antônio da Gama e Silva e Tarso Dutra, usando das atribuições do "A.I.- 5", definiram infrações disciplinares praticadas por professores, funcionários e alunos de estabelecimentos de ensino, através do Decreto-Lei no 477, no dia 26 de fevereiro de 1969. O Decreto era bem claro quanto às suas pretensões, não deixando dúvidas sobre os seus limites ou a falta de limites:
"É passível de punição: quem aliciar ou incitar à deflagração de movimento que tenha por finalidade a paralisação da atividade escolar e participar nesse movimento; quem atentar contra pessoas ou bens, tanto em prédios ou instalações de qualquer natureza, dentro ou fora dos estabelecimentos de ensino; quem praticar atos destinados à organização de movimentos subversivos, passeatas, desfiles ou comícios não autorizados ou deles participar; quem conduzir ou realizar, imprimir, tenha em depósito, distribuir material subversivo de qualquer natureza; seqüestrar ou manter em cárcere privado qualquer membro da comunidade universitária; usar as dependências escolares para fins de subversão ou para praticar ato contrário à moral e a ordem pública".
As penas previstas para professores e servidores seriam a demissão ou a dispensa e a proibição de serem nomeados, admitidos ou contratados por qualquer outro estabelecimento de ensino pelo prazo de cinco anos. Se fosse aluno, a pena seria o desligamento e a proibição de se matricular em outro estabelecimento de ensino pelo prazo de três anos. Se fosse detentor de bolsa de estudo ou recebesse qualquer benefício público, perderia seus benefícios pelo prazo de cinco anos. Se fosse bolsista estrangeiro seria extraditado.
O prazo para apuração das infrações, mediante processo sumário, foi estipulado em vinte dias. Havendo a suspeita, o dirigente do estabelecimento de ensino, imediatamente providenciaria a instauração de inquérito policial. Ao infrator foi oferecido um prazo de quarenta e oito horas para apresentar a sua defesa, após ser citado pelo encarregado das diligências. Quando a infração estivesse capitulada na lei penal, deveria ser remetida cópia dos autos à autoridade competente.
A Portaria no 149, de 28 de março de 1969, assinada pelo Ministro Tarso Dutra, determinou que em função do Decreto no 477, a apuração das infrações disciplinares seria promovida por iniciativa: a) do dirigente do estabelecimento de ensino a que pertença o professor, aluno, funcionário ou empregado infrator; b) da divisão de Segurança e Informações do Ministério de Educação e Cultura, mediante expediente diretamente encaminhado ao dirigente do estabelecimento de ensino em que houver suspeita de ocorrência de infração; e c) de qualquer outra autoridade ou pessoa.
De forma a driblar as ordens militares, os estudantes começaram a se organizar em centros de estudo. Mas isto, foi percebido pelas autoridades. Na UERJ, em 2 de abril de 1969, através do Ato Executivo no 171, o Reitor determinou que os Centros de Estudos, dirigidos por alunos, somente poderiam ser reconhecidos se fossem diretamente vinculados à orientação do Departamento da Unidade, com a participação de um professor designado pela Direção, para supervisionar e acompanhar os trabalhos, e que de forma alguma fossem vinculados aos Diretórios Acadêmicos.
A UERJ, apesar de ter como Reitor, neste período, o Professor João Lyra Filho, irmão do Ministro do Exército Aurélio Lyra Tavares, e por isto deveria servir de exemplo, como uma ilha de paz e tranqüilidade, utilizou o Decreto-Lei no 477, primeiramente, no dia 14 de abril de 1969, quando a Diretora Maria Edmée de Andrade Jacques da Silva, da Faculdade de Ciências Econômicas, expulsou dois alunos da Faculdade, por infração disciplinar. E, posteriormente, no dia 17 de junho do mesmo ano, quando o Diretor da Faculdade de Engenharia, Professor Paschoal Villaboim Filho, expulsou os alunos Gilson Fernandes de Andréa, Jones Raposo de Freitas e José Antônio de Azevedo, também por infração disciplinar.
Como para cumprir a Lei deveria haver organismos que fiscalizassem sua execução, foi criada em São Paulo, no dia 29 de junho, a Operação Bandeirantes - OBAN, que era a junção do II Exército com a Secretaria Estadual de Segurança Pública, para combater a subversão. Em setembro de 1970, através de decreto presidencial passou a se chamar Destacamento de Operações e Informações / Centro de Operações de Defesa Interna - DOI-CODI, um dos mais repressivos órgãos a serviço do Estado ditatorial.
Um fato político de grande repercussão ocorreu dia 21 de agosto de 1969, com falecimento do Presidente Costa e Silva, devendo assumir a Presidência Vice-Presidente Pedro Aleixo. Entretanto, os militares não aceitaram, de forma alguma, que um civil assumisse o poder. Então, no dia 31 de agosto, assumiu a Presidência uma Junta Militar composta dos Ministros Militares, Augusto Hamann Rademaker Grünewald, da Marinha, Aurélio Lyra Tavares, do Exército (irmão do Reitor da UEG, João Lyra Filho e do Diretor do Instituto de Criminologia da UEG, Roberto Lyra) e Márcio de Souza e Mello, da Aeronáutica.
Na UERJ, não foram só os alunos que foram afastados de suas funções, pois no dia 29 de agosto de 1969, foi publicado no Diário Oficial da União, os decretos de aposentadoria dos Professores Carlos Haroldo Porto Carreiro de Miranda e Hélio Marques da Silva, dos cargos que porventura ocupavam na administração direta ou indireta da União, Estados, Distrito Federal, Territórios ou Municípios, baseado no Ato Institucional no 5. O Reitor João Lyra Filho assinou, à sua revelia, pela UEG, as Portarias 393 e 394, em setembro de 1969, aposentando os respectivos professores. O Reitor João Lyra não queria aposentar os professores e só o fez por determinação legal. Isto ficou bem caracterizado, pelas manifestações de apreço efetuadas pelo Reitor.
A reação à violência "legal", veio através da luta armada. O primeiro ato de repercussão mundial, ocorreu no dia 4 de setembro, quando foi seqüestrado o Embaixador norte-americano Charles Bueke Ellbrick, no Rio. Esta foi a primeira operação do gênero no mundo, na história da guerrilha urbana. Fez parte deste seqüestro o ex-Presidente do Centro Acadêmico de Medicina da UEG, João Lopes Salgado.
Os fatos de maior repercussão, neste final de 1969, ocorreram no dia 17 de outubro, quando a Junta Militar que governava o País outorgou a Emenda Constitucional no 1, que garantiu a posse do Presidente Emílio Garrastazu Médici, no dia 30 de outubro, e incorporou os dispositivos do AI-5, sendo na verdade, uma nova Constituição, face a abrangência de seus 200 artigos; no dia 4 de novembro, quando morreu emboscado em São Paulo, o principal líder da Aliança Libertadora Nacional - ALN, Carlos Mariguella; e no dia 4 de dezembro, quando a 5a Região Militar decretou a prisão do ex-Ministro de Educação no Governo João Goulart, Darcy Ribeiro.
O ano de 1969 fechou com 383 pessoas com os direitos políticos ou mandatos cassados.
domingo, 12 de outubro de 2008
Ditadura de triste lembrança
Médicos retomam formatura congelada pela ditadura por 36 anos
No dia 24, um grupo de médicos vai finalmente concluir sua festa de formatura, iniciada e interrompida há 36 anos pelo regime militar. Dia 13 de dezembro de 1972. Anos de chumbo, época de censura. Cerca de 1.700 pessoas lotam o Teatro Municipal do Rio. São 20h30. Na platéia, em elegantes trajes de festa, estão parentes, amigos e convidados dos 128 formandos do curso de medicina da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). O convite da festa traz ilustrações de Henfil.
A reportagem é de Luísa Alcalde e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 12-10-2008.
Vai começar a cerimônia de colação de grau da turma de 1967, com o juramento de Hipócrates, rito de introdução dos acadêmicos em medicina na vida profissional.
No palco, vestidos de becas pretas com babado branco e capelo na cabeça, os recém-formados estão emocionados, pois entre os convidados está a família de Luiz Paulo da Cruz Nunes, assassinado aos 21 anos, no segundo ano do curso, com um tiro na cabeça disparado por policiais durante repressão a uma pacífica manifestação estudantil no dia 22 de outubro de 1968, em frente ao Hospital Universitário Pedro Ernesto, em Vila Isabel. A ação foi orquestrada pelo Comando do I Exército, DOPS e a PM. Os amigos dizem que o jovem não era ativista político. Estava no local por acaso.
Os parentes de Luiz Paulo, escolhido como patrono, levam flores aos formandos. A direção da UERJ, porém, veta a homenagem dias antes e proíbe qualquer menção ao rapaz. Manda colocar uma tarja preta sobre o nome de Luiz Paulo nos convites, mas isso é feito em apenas alguns deles. A direção garante aos alunos que não mencionará a palavra "patrono" na cerimônia.
O discurso da oradora Telma Ruth Pereira Silveira é submetido à análise dos censores da ditadura e vetado. A alegação: "atentado contra a segurança nacional". Durante a formatura, no momento em que o texto deveria ser lido, Telma caminha até o púlpito segurando cinco páginas em branco. Folheia lentamente, uma a uma, em silêncio, e agradece. É ruidosamente aplaudida.
A atitude irrita o diretor da Faculdade de Ciências Médicas da UERJ, Jaime Landmann. Em seguida, Landmann anuncia que os pais de Luiz Paulo, "colega falecido", vão ler uma carta. Uma voz de homem vinda da platéia corta o silêncio do teatro: "Luiz Paulo foi falecido !". Fingindo ignorar o protesto, Landmann prossegue a cerimônia e anuncia a homenagem ao patrono, imposto pela direção da faculdade: Albert Schweitzer, médico que atende necessitados na África. Em seguida, chama pelo nome de cada um dos formandos. Mas não chama o de Luiz Paulo.
Sem nada combinado, os formandos começam a bradar em coro: "Luiz Paulo, nosso patrono!!!" e a bater os pés no piso. Alguns batem palmas. Imediatamente, Landmann manda fechar as cortinas do palco e encerra a colação de grau. Nenhuma explicação é dada.
Muitos pais morreram sem assistir à formatura dos filhos. O protesto daquela noite foi abafado. Não foi publicada uma linha sequer nos jornais da época. Os formandos foram pedir conselhos ao jurista Heráclito Fontoura Sobral Pinto, famoso por defender presos políticos. A punição, além da abertura de um inquérito para descobrir os culpados pelo protesto, foi obrigar os médicos, separados, um a um, a fazer o juramento da profissão na sala do diretor, no ano seguinte, dois meses depois da formatura.
No dia 24, dois dias após o assassinato de Luiz Paulo completar 40 anos, 104 médicos da turma de medicina de 1967 da UERJ - hoje profissionais renomados inclusive no exterior - vão se reunir na Capela Ecumênica da UERJ, no Maracanã.
Eles vão oficializar a colação de grau da frustrada cerimônia de formatura que não ocorreu 36 anos atrás. E fazem questão de ir trajados de beca, como naquela noite de dezembro de 1972. Os discursos censurados serão lidos. O paraninfo, o neurocirurgião Pedro Sampaio, celebridade em sua área, hoje com 87 anos, já confirmou presença.
Desta vez, vão poder homenagear Luiz Paulo, já que a atual direção da faculdade homologou pedido do grupo. Antônio Augusto, sobrinho de Luiz Paulo, também médico, vai representar a família, pois a mãe e o pai dele já morreram.


P.S. E ainda tem gente que prefere voltar a estes tempos de obscuridade e absoluta falta de liberdade....batem no peito e dizem sem medo e sem censura nos dias de hoje: sou de extrema direita, sou de direita, odeio a esquerda


Postado por Jarosinski Brasil
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